Torre do Diabo: conheça o cenário que virou símbolo de ETs no cinema
Primeiro monumento nacional dos Estados Unidos e local sagrado para tribos indígenas, a Torre do Diabo atrai visitantes de todo o mundo

Tudo começou em um campo de feno aos pés de uma formação geológica de aparência misteriosa. Helicópteros e trailers chegaram em massa, rostos famosos e um diretor renomado se instalaram perto do gado que pastava, e as câmeras começaram a filmar.
Há 50 anos, a Torre do Diabo tornou-se um símbolo para pessoas fascinadas pelos encontros com extraterrestres no filme "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", do diretor Steven Spielberg. Por sua vez, o monólito de 264 metros, que se ergue sobre a pradaria do estado de Wyoming como o toco da maior árvore do mundo, tornou-se uma grande atração turística.
O filme é estrelado por Richard Dreyfuss como Roy Neary, um homem do Meio-Oeste americano que fica obcecado por uma forma enigmática após encontrar um Ovni. Em uma cena memorável, ele molda uma estrutura semelhante a uma torre usando purê de batatas em seu prato de jantar, imagem que permanece constantemente nos limites de sua consciência.
Graças ao filme, essa forma permanece viva na memória de turistas do mundo todo há meio século.
"Aproximadamente 12 minutos de filmagens foram feitas aqui em 1976, e o filme foi lançado no ano seguinte, em 1977", disse Brian Cole, guarda florestal da Torre do Diabo, sobre a parte final do filme rodada na região. O longa-metragem foi um sucesso, arrecadando mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,49 bilhão na cotação atual) em todo o mundo.
"Observamos um aumento enorme no número de visitantes após o lançamento do filme, um aumento de mais de 76%, passando de cerca de 153 mil para mais de 270 mil visitantes", disse Cole. "Isso realmente nos colocou no mapa, e até hoje as pessoas vêm ao parque por conta do filme.
Na trilha dos alienígenas
A torre de aparência peculiar chama a atenção por si só. "É um espetáculo geológico bizarro", disse o visitante Matt Ingram, que parou para observá-la durante uma viagem de carro pelo oeste dos Estados Unidos com sua esposa Kimberly.
O casal de Chicago caminhava pela trilha pavimentada da Torre, que inclui um circuito de 2,1 quilômetros ao redor da base do monumento, com vistas excelentes de todos os ângulos.
Ingram disse que o filme serviu como sua introdução ao marco histórico. "Eu nasci na década de 1970 e me lembro de ter visto esse filme e achado muito legal. Principalmente quando ele constrói a torre com purê de batatas e as crianças perguntam: 'Pai, você está bem?'"
O personagem Roy Neary já não estava satisfeito com a vida como a conhecia. Ele queria respostas. E os atores do próximo filme de Spielberg sobre extraterrestres, "Dia D", com estreia prevista para 12 de junho de 2026, sugeriram que o novo filme responde a algumas das perguntas levantadas em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau". Há até especulações na internet de que "Dia D" possa ser uma sequência do filme de 1977.
O clássico da ficção científica também estava na mente de Kevin Thomas, visitante da Torre do Diabo.
"Queríamos encontrar os alienígenas que ficaram lá em cima, aqueles que foram deixados em 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau'", brincou Thomas, que passou pelo monumento em abril com sua esposa, Catherine. Mas o filme que eles assistiram décadas atrás não era o motivo da visita, disseram. A torre era apenas um ponto de interesse em uma viagem com várias etapas, do Alasca até sua casa no estado do Michigan.
Monumento nacional dos EUA
Embora o filme tenha impulsionado a popularidade da torre, a formação rochosa já era um destino turístico consolidado há décadas. Foi o primeiro monumento nacional dos Estados Unidos, designado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1906. E muito antes disso, até os dias atuais, serviu como local sagrado para tribos indígenas americanas.
As árvores do parque estão repletas de pequenos panos e amuletos de oração. Os visitantes são solicitados a não tocá-los, fotografá-los ou perturbar-los.
A torre inspirou inúmeras histórias transmitidas ao longo da cultura indígena americana. Muitas tribos têm suas próprias histórias orais relacionadas ao notável monólito e, em algumas delas, o nome original da torre se traduz como "Tipi do Urso" ou "Cabana do Urso". Em uma lenda associada à tribo Crow, os sulcos na torre foram feitos por um urso que arranhava a formação tentando chegar a duas meninas.
O nome Torre do Diabo pode ser resultado de uma tradução equivocada que confundiu palavras indígenas para "urso" e "deus mau". Ou o explorador Coronel Richard Irving Dodge pode ter mudado deliberadamente o nome de um importante local indígena, observa o Serviço Nacional de Parques. Petições para mudar o nome para "Refúgio do Urso" ("Bear Lodge", em inglês) têm circulado nos últimos anos.
Tudo começou com magma

A torre se formou há mais de 50 milhões de anos, disse Cole. Mas suas origens geológicas são incertas.
"Os geólogos não têm certeza exata de como se formou, existem diferentes teorias", disse. "Mas o que concordam é que era magma. E eventualmente o magma subiu do solo, esfriou e endureceu. Então rachou, e é assim que se formam as juntas colunares dessas rachaduras. E então houve erosão ao redor."
A torre é composta de pórfiro fonolítico, uma rocha ígnea rara, e é o maior exemplo mundial de fraturamento colunar, que se refere às suas colunas maciças, frequentemente hexagonais, que se estendem por centenas de metros de altura. Algumas das colunas chegam a ter três metros de largura.
O local é popular entre escaladores. A cada ano, cerca de cinco mil pessoas escalam a formação rochosa, o que proporciona um espetáculo impressionante para quem não pratica escalada e circula pela base da torre. É a única maneira confiável de chegar ao topo, embora um paraquedista tenha ficado preso lá em 1941 depois que a corda que ele planejava usar para a descida caiu fora de seu alcance na lateral da torre.
Para os menos aventureiros, existem cinco trilhas no parque. A menos frequentada, a Trilha Joyner Ridge, é um circuito de 2,4 quilômetros que oferece uma vista mais ampla da torre e das paisagens ao redor, com uma iluminação mágica ao pôr do sol.
Logo na entrada do parque, uma colônia de cães-da-pradaria abriga mais de 600 desses roedores fascinantes, que fazem parte da família dos esquilos. Sua "cidade" ocupa cerca de 16 hectares perto do rio Belle Fourche e possui mirantes onde os motoristas podem observar os cães-da-pradaria sentados, descendo para suas tocas subterrâneas ou emitindo sons semelhantes a latidos. Eles formam um cenário divertido em ambos os lados da principal atração do parque.
A imponente torre nunca deixa de impressionar o morador local Ogden Driskill, cuja família cria gado nas terras em sua base há gerações. Seu campo de feno se tornou o centro das filmagens de Spielberg e serviu como local do acampamento de "descontaminação" do filme, um artifício para despistar os cidadãos sobre uma grande operação científica destinada a fazer contato com seres aparentemente benevolentes do espaço sideral. As cenas finais do filme, que mostram um local de pouso e o "encontro" final, foram filmadas em hangares em Mobile, no estado do Alabama.
Driskill passou a maior parte de sua vida ao pé da torre e estima que tira entre três mil e cinco mil fotografias dela todos os anos, à medida que a luz ou o ambiente ao redor mudam.
"Não há dúvida de que os nativos americanos estavam certos, é um lugar muito espiritual e muito especial, e ainda não vi quase ninguém que não se comova ao chegar lá", disse Driskill, que também é senador estadual do Wyoming.
Bastidores do filme
Driskill era adolescente quando Joe Alves, olheiro de locações de Spielberg, disse ao diretor que a torre seria um local ideal para encontros com alienígenas. Alves foi informado por um executivo do estúdio que "precisávamos de uma montanha com uma aparência muito estranha". A Torre do Diabo se encaixava perfeitamente.
"Spielberg veio sozinho até o Wyoming e se encontrou com meus pais pouco mais de um ano antes de anunciarem o local definitivo das filmagens", disse Driskill. Spielberg "sentou-se com meus pais e fechou um acordo de cavalheiros sobre a locação de 'Contatos Imediatos'".
Ele disse que o Serviço Nacional de Parques não permitiu que a maior parte das filmagens ocorresse dentro do parque, então a família Driskill recebeu US$ 20 mil (cerca de R$ 101 mil) pelo uso de seu prado.
"A maior parte das filmagens feitas no Wyoming aconteceu exatamente onde fica o camping KOA", disse Driskill. Com o dinheiro do filme, a mãe de Driskill convenceu o pai abrir o camping logo após o término das filmagens. A família ainda é dona do camping, que cresceu e agora conta com mais de 150 vagas.
"Contatos Imediatos do Terceiro Grau" é exibido ao ar livre no local, com a torre ao fundo, todas as noites da temporada de verão desde meados da década de 1970. Há também um camping dentro do parque, com vagas limitadas por ordem de chegada, e um hotel Best Western a cerca de 14 quilômetros de distância, em Hulett, que também abriga algumas galerias, restaurantes e bares.
Embora Driskill não apareça no filme, ele esteve imerso na produção, recebendo regularmente passeios de helicóptero sob contrato com a Columbia Pictures.
Ele lembra que os moradores locais que trabalhavam no filme recebiam US$ 20 (aproximadamente R$ 101) por hora. "E você também tinha acesso à tenda de alimentação, onde todas as noites serviam costela assada, bife e lagosta, então se você trabalhasse pelo menos uma hora, também tinha acesso à ela."
Driskill disse que conseguia chegar a cerca de três metros dos atores, que também incluíam o cineasta francês François Truffaut como um cientista especializado em Ovnis e Melinda Dillon interpretando Jillian Guiler, uma mãe em busca de seu filho pequeno que teria sido abduzido por alienígenas.
"Foi bastante fascinante para um adolescente do ensino médio", disse Driskill.
A família Driskill já foi proprietária do vizinho Devils Tower Trading Post, bem ao lado do parque, onde são vendidos produtos relacionados a alienígenas, além de lanches e lembrancinhas com representações mais tradicionais da torre.

Quando Driskill falou com a CNN Travel por telefone, ele estava procurando algo de outro mundo.
"Por ironia do destino, neste exato momento estou em El Paso, no Texas, a caminho de casa, e estamos comprando alienígenas de alumínio porque nosso campo de minigolfe se chama 'Cowboys e Alienígenas', então estamos comprando alguns deles para colocar no campo de minigolfe."
O filme e seu folclore alienígena certamente impulsionaram o turismo na região. Mas e os avistamentos de Ovnis na vida real? "Nunca vimos nada", disse Driskill. "Provavelmente, a coisa mais próxima que já vi do espaço sideral foi há 30 anos, quando um meteorito atingiu a rodovia bem na minha frente enquanto eu dirigia para o nosso rancho às 3 horas da manhã."
No acampamento KOA, Teresa Brown, que trabalha com merchandising na loja de presentes, brincou dizendo que, de vez em quando, vê pessoas estranhas."Não vi nenhum Ovni", disse Brown. Mas o sinal de celular é instável, acrescentou. "Então, eu culpo os alienígenas."



