Em Belém, novas gerações garantem futuro do Mercado Ver-o-Peso

Muito além dos ingredientes amazônicos, o maior mercado popular da América Latina preserva um patrimônio vivo: os saberes, ofícios e histórias transmitidos entre gerações

Carolina Daher, colaboração para o Viagem & Gastronomia
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Ver-o-Peso é um organismo vivo. Antes mesmo dos primeiros raios de sol, chegam também pescadores, agricultores, ribeirinhos, erveiras, cozinheiras, extrativistas, carregadores, artesãos e comerciantes que transformam o espaço de 35 mil metros quadrados em um dos maiores centros populares de abastecimento da América Latina. Ali, o patrimônio mais valioso, no entanto, não está na arquitetura ou nas centenas de espécies de peixes, frutas e ervas comercializadas diariamente. O verdadeiro tesouro está nas pessoas que fazem desse cartão-postal de Belém do Pará um legado transmitido de pais para filhos.

Segundo dados da Prefeitura, cerca de 20 mil pessoas circulam dia após dia pelo mercado. A feira reúne aproximadamente 1.400 trabalhadores cadastrados, além de centenas de vendedores informais e produtores que chegam pelos rios trazendo suas mercadorias.

O Ver-o-Peso funciona como uma gigantesca central de distribuição da biodiversidade amazônica. Ali chegam pescados, camarões, açaí, farinha, frutas nativas como bacuri, cupuaçu e taperebá, castanhas, óleos vegetais e especiarias produzidos em diferentes regiões. Grande parte dessa cadeia econômica depende da produção familiar e das comunidades ribeirinhas. Ao todo, o complexo é formado pelo Mercado de Ferro, Mercado de Carne, Mercado de Peixe, Feira do Açaí, Solar da Beira, Praça do Relógio, porto, docas e mais de mil bancas e boxes espalhados pela feira livre.

Um novo olhar sobre um velho conhecido

Quem visita Belém costuma levar na memória os peixes gigantes, os montes de jambu, o perfume do priprioca ou as montanhas de farinha. Mas o verdadeiro símbolo do Ver-o-Peso talvez seja invisível. Está na criança que aprende com o avô a reconhecer um tucunaré fresco. Na filha que herda da mãe o conhecimento sobre ervas amazônicas. No neto que assume a banca iniciada décadas antes pelos avós.

O nome do box é Zezinho Sabores da Amazônia. No caso, Zezinho é José Soares Ferreira, de 66 anos. Ele veio da roça, onde plantava mandioca. Chegou à capital para vender farinha. Na época da pandemia, Rafael Araújo Ferreira, filho de Zezinho, deixou o Exército. Foi quando se juntou a um amigo para transformar a casa de farinha em indústria. Além das tradicionais, modernizou trazendo sabores para as tapiocas, como jambu, caramelizada, crocante com cupuaçu e castanha do Pará. Passou a vender em garrafinhas plásticas que custam R$ 15 e podem ser facilmente despachadas para qualquer canto do Brasil. Já está em supermercados, delicatessens e até no aeroporto. "Estou fazendo um curso no Sebrae, meu próximo passo é a internacionalização", diz.

Em um tempo em que tantas tradições desaparecem, o "Veropa" (como os moradores de Belém carinhosamente chamam o local) continua provando que a cultura também pode ser vendida em bancas, carregada em paneiros e preservada no cotidiano de famílias que transformaram o mercado em sua própria história. E mais, é possível dar um novo sentido ao ofício desenvolvido pelos que vieram antes.

É o caso de Eduardo Fernando de Barros Pereira, 36 anos. Ele estava no terceiro ano da faculdade de odontologia quando o pai faleceu, em 2017. O negócio ficou apertado na casa dos Pereira, e Eduardo trancou o curso e resolveu ir ajudar a mãe, Nair de Barros Pereira, de 59 anos, em seu box, no Setor da polpa.

Dona Nair, por sua vez, cresceu naquele corredor. Sua mãe, Maria Raimunda, vendia frutas na Pedra do Peixe, antes mesmo de o espaço passar pela reforma. Viúva, era Nair quem a ajudava na lida. Dona Maria foi vítima da Covid-19 e Nair se viu só no negócio, que nessa época já funcionava em um box. Ela vendia apenas polpa até a chegada do filho.

Eduardo trouxe muitas mudanças. Reorganizou o espaço, passou a comercializar bombons, geleias, cestaria feita pelas mulheres de Arapiuns, do Tapajós, feita com palha natural de tucumã. "Ele é muito mais visionário do que eu. O trabalho ficou mais leve com meu filho ao meu lado", explica Nair.

A maior sacada de Eduardo, no entanto, foi a criação de uma degustação de sucos preparados com frutas amazônicas. Encomendou uma cerâmica de um artista de Icoaraci e, em uma bandeja, oferece oito diferentes opções: cupuaçu, bacuri, açaí, tucumã, buriti, murici, araçá e uxi. O valor é de R$ 50 para duas pessoas.

"Meu principal público é quem vem de fora, mas meu grande sonho é que os paraenses consumam e valorizem as coisas daqui", diz ele, que pretende em breve servir café robusta e chocolate amazônico no local. Embora os turistas sejam atraídos pelos aromas, cores e pela enorme variedade de ingredientes, quem conhece mais profundamente o mercado sabe que sua principal riqueza está nas relações humanas. A chef Esther Weyl, do restaurante Celeste, é frequentadora assídua e percebe que o patrimônio do Ver-o-Peso está nas relações sociais, nos modos de fazer, nas narrativas e nos conhecimentos transmitidos diariamente entre trabalhadores e familiares.

É comum encontrar boxes administrados pela mesma família há décadas. Filhos aprendem, ainda crianças, a limpar peixes, organizar bancas, selecionar frutas ou identificar ervas medicinais, observando pais, mães e avós. É o caso de Josinaldo Antunes, 41 anos, e Denize Almeida, de 35. Os irmãos aprenderam desde cedo com o pai, João Chaves de Oliveira, 78, a honrar o lugar onde a família ganha o pão.

"Na época da feira velha, ele vendia fruta, camarão, água de coco, tudo no carrinho de mão", conta Denize, referindo-se ao tempo em que os comerciantes ocupavam a área de maneira informal.

A primeira reorganização pública ocorreu nos anos 1980, quando a Prefeitura, entre outras coisas, remarcou os setores da feira e padronizou as barracas. Nessa época, seu João passou a investir em castanha fresca. E, logo depois, em castanha beneficiada. "Ele era cabeça dura, não aceitava cartão. Não confiava nem em banco, queria ter dinheiro vivo para não dever ninguém", explica.

Foi com muito jeito que os herdeiros foram mudando a direção dos negócios. Primeiro, fizeram uma parceria com comerciantes de Fortaleza, que saborizam a castanha-de-caju. Hoje, a castanha-do-Pará também recebe uma camada doce de açaí. Além disso, Denize passou a fabricar doces, geleias e licores com as frutas regionais.

A feira como identidade

É de saber comum que os trabalhadores do Ver-o-Peso desenvolvem um profundo sentimento de pertencimento ao espaço. Mais do que um local de trabalho, a feira representa identidade, memória coletiva e continuidade cultural. E as novas gerações trazem também uma alegria esperançosa para o complexo. Quando resolveu ajudar a mãe, a cozinheira Eliana Ferreira, 58, no seu Box 49, Kelly Ferreira, 40, resolveu inovar. "Eu fui a primeira a ir para a rua e convidar os clientes para provar a comida. Agora, todo mundo faz", diz ela, que começou a trabalhar ali aos 17 anos, quando a mãe teve uma pneumonia e precisou se afastar.

Kelly assumiu os fogões e fez algumas mudanças, como trocar a comida exposta no balcão por porções feitas na hora. "A gente ainda deixou de desperdiçar", completa. Foi Kelly também a criadora do Mix 49 (R$ 250, para 4 pessoas), filhote, pescada, pirarucu, camarão empanado, pata de caranguejo, farofa de camarão e 1 litro de açaí, hoje o carro-chefe da casa. "Eu sou muito grata ao Ver-o-Peso. É daqui que sustento meu filho. A gente torce para que, no futuro, os restaurantes fiquem em um local como a estação das docas. Porque nós, aqui em cima, somos privilegiados e temos umas mesas para os clientes sentar. Mas o pessoal lá de baixo ainda não conquistou isso."

Tombamento

Em 1977, todo o conjunto arquitetônico foi tombado pelo Iphan como patrimônio histórico nacional. Atualmente, além da preservação do espaço físico, está em andamento o processo para reconhecer também os saberes e práticas dos trabalhadores como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Essa transmissão de conhecimento é justamente um dos aspectos que o Iphan pretende reconhecer como patrimônio imaterial.

Em 2026, representantes dos 28 setores do Ver-o-Peso iniciaram, junto ao Instituto, o processo de registro dos saberes, ofícios e tradições mantidos pelos trabalhadores da feira. Segundo o órgão, o objetivo é valorizar não apenas os edifícios históricos, mas o conjunto de conhecimentos transmitidos entre gerações que fazem do Ver-o-Peso um espaço único no Brasil.

Casa de Haver o peso

A origem do Ver-o-Peso remonta ao século XVII. Em 1625, foi instalada a Casa de Haver o Peso, um posto da Coroa Portuguesa destinado à fiscalização das mercadorias que chegavam pelo rio e à cobrança de impostos sobre os produtos comercializados. O nome "Ver-o-Peso" surgiu justamente da prática de conferir o peso das cargas que desembarcavam no porto.

Durante o século XIX, mesmo após a Cabanagem (1835-1840), o local continuou sendo um importante entreposto comercial. Em 1839, a antiga Casa de Haver o Peso foi transformada em mercado de peixe fresco. Poucos anos depois, surgiram os mercados de carne e peixe que dariam origem ao complexo atual.

No auge do Ciclo da Borracha, Belém passou por intensa modernização urbana. Em 1899 começaram as obras do Mercado de Ferro, inaugurado no início do século XX, com estrutura metálica importada da Europa e influência da arquitetura art + nouveau, tornando-se um dos maiores símbolos da Belle Époque amazônica.

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