EVVAI conquista prêmio de melhor hospitalidade da América Latina

Restaurante comandado pelo chef Luiz Filipe Souza é reconhecido pelo 50 Best e completa dobradinha brasileira após o Tuju conquistar a mesma premiação na edição mundial

CNN Viagem & Gastronomia, do Viagem & Gastronomia

O Brasil acaba de completar uma dobradinha nos prêmios de hospitalidade do The 50 Best Restaurants 2026. Anunciado nesta terça-feira (13), o EVVAI, comandado pelo chef Luiz Filipe Souza, em São Paulo, conquistou o Art of Hospitality Award da América Latina, reconhecimento dedicado à excelência no atendimento. A premiação acontece menos de um mês após o Tuju, também paulistano, receber a mesma distinção na edição mundial.

Os dois restaurantes, que já dividem o feito histórico de conquistar três estrelas Michelin, agora colocam também o jeito brasileiro de receber em evidência internacional.

O prêmio é um reconhecimento especial anunciado antecipadamente pelo Latin America's 50 Best Restaurants, cuja cerimônia oficial acontece em 1º de dezembro, em Guadalajara, no México. O EVVAI integra o ranking desde 2019 e alcançou a 20ª posição na edição de 2025.

Mais do que a precisão do serviço, o reconhecimento destaca a maneira como o restaurante construiu sua identidade ao longo dos anos, combinando técnica, proximidade e personalidade. Para Rachael Hogg, Senior Content Editor do Latin America's 50 Best Restaurants, a evolução da casa e a conexão entre as culturas italiana e brasileira estão entre os motivos da escolha. Ela também destaca o entusiasmo e a cordialidade da equipe, além dos toques pessoais, como as ilustrações criadas pelo próprio chef para acompanhar os pratos.

A conquista chega poucos dias depois de Luiz Filipe conversar com a CNN Viagem & Gastronomia justamente sobre o que diferencia a hospitalidade brasileira dos modelos tradicionais da alta gastronomia internacional. Na ocasião, o chef defendeu que rigor e excelência não precisam estar associados a um serviço excessivamente formal ou distante.

“A gente é latino, a gente gosta de mesa viva, de demonstrar afeto”, afirmou. Para ele, serviço impecável e hospitalidade são conceitos que se complementam, mas não significam a mesma coisa. Enquanto o primeiro está relacionado ao domínio técnico, à precisão dos gestos e ao ritmo do atendimento, o segundo envolve a capacidade de criar uma conexão genuína com quem chega.

“Serviço impecável faz você sentir que tudo foi preparado para te receber. E hospitalidade brasileira faz você sentir que estamos felizes porque você veio”, disse à CNN V&G.

Uma equipe que sabe quando se aproximar e quando sair de cena

No EVVAI, essa maneira de receber foi construída ao longo dos anos por uma equipe liderada por Jac Pessoa, responsável pela gerência do salão. Ela começou fazendo trabalhos pontuais na casa e, aos poucos, assumiu a formação e a coordenação dos profissionais, desenvolvendo um serviço em que a técnica não elimina a personalidade de quem está diante do cliente.

“Hospitalidade para mim começa pela capacidade de observar. Cada mesa tem um ritmo e cada pessoa chega com uma expectativa diferente. Nosso trabalho é perceber quando estar perto, quando explicar, quando conversar e também quando simplesmente deixar que o jantar aconteça”, explica Jac.

Essa atenção aparece em diferentes momentos do jantar, desde o buona sera que recebe os clientes na porta até a escolha da música ambiente. Marco Tatine, integrante mais antigo da equipe de salão e fã de rock, acompanhou as mudanças na playlist criada pelo próprio Luiz Filipe, que já teve mais Metallica e hoje abre espaço para a música brasileira. Não é raro perceber clientes cantarolando ou ensaiando discretamente uma dança na cadeira.

Outros profissionais também ajudam a imprimir personalidade ao serviço. Clarisse Gomes, que avança nos estudos para se tornar sommelière, incorporou o espanhol ao atendimento diante de um público internacional cada vez mais presente na casa. Já o subgerente italiano Alessandro Manunza reforça a conexão entre as culturas italiana e brasileira que orientam o conceito Oriundi, desenvolvido pelo chef na cozinha.

No serviço de vinhos, Marcelo Fonseca, que chegou ao restaurante durante a pandemia, conduz as harmonizações com rótulos brasileiros, italianos e de outras regiões. Para ele, conhecimento técnico só faz sentido quando está a serviço de quem ocupa a mesa.

“Não adianta termos uma harmonização tecnicamente perfeita se ela não fizer sentido para aquela pessoa e para aquele momento. É preciso ouvir, perceber o quanto o cliente quer descobrir, conversar ou simplesmente aproveitar. No EVVAI, estudamos muito para ter repertório, mas esse conhecimento precisa estar a serviço da mesa, e não o contrário”, afirma Marcelo.

Cartas ilustradas, mel brasileiro e menos formalidade

A relação entre cozinha e salão também aparece em pequenos gestos que se tornaram parte da identidade do EVVAI. Um deles são as cartas ilustradas pelo próprio Luiz Filipe, entregues ao longo do menu degustação para apresentar as preparações. Os desenhos misturam referências aos ingredientes, histórias, humor e elementos da cultura pop, criando uma maneira menos formal de compartilhar a pesquisa por trás de cada prato.

“As cartas nasceram de uma necessidade muito prática, quando precisávamos encontrar outra maneira de explicar o que estava chegando à mesa no período de uso de máscaras após o auge da pandemia. Depois, percebemos que elas tinham criado uma interação muito própria com o cliente. Têm informação, mas também humor, quebram um pouco a formalidade e muitas vezes são o ponto de partida para uma conversa”, conta Jac.

Outro momento de aproximação acontece perto do encerramento do jantar, quando Bianca Mirabili, chef confeiteira do EVVAI e eleita Best Pastry Chef na edição anterior do Latin America's 50 Best Restaurants, deixa a cozinha para apresentar aos clientes uma etapa cuidadosamente elaborada com mel de abelhas nativas brasileiras. O gesto abre espaço para conversar sobre os ingredientes e a pesquisa que desenvolve em torno dos meles de abelhas sem ferrão e da biodiversidade do país.

São detalhes que ajudam a explicar um trabalho coletivo, realizado atualmente por 20 profissionais no salão e outros 21 na cozinha. Para Luiz Filipe, que fundou o restaurante em 2017, o prêmio reconhece justamente a importância das pessoas que fazem o jantar acontecer para além dos pratos.

“Um restaurante não é feito só pelo que acontece na cozinha. O prato chega à mesa e, a partir dali, quem conduz a experiência é a sala. Sempre quis que no EVVAI existisse essa mesma atenção aos detalhes dos dois lados, mas sem que o serviço se tornasse rígido ou distante. A Jac teve um papel enorme na construção disso e, ao longo dos anos, formamos uma equipe que entende a nossa linguagem e, ao mesmo tempo, coloca muito da própria personalidade nela”, afirma o chef.

A conquista reforça uma discussão que ganha espaço à medida que a gastronomia brasileira acumula reconhecimentos internacionais: a possibilidade de desenvolver um serviço altamente profissional sem abrir mão da espontaneidade e do calor humano que fazem parte da nossa cultura.

Como Luiz Filipe resumiu em sua entrevista à CNN Brasil: “A gente pode ser muito rigoroso, sofisticado, mas ao mesmo tempo muito espontâneo, muito mais próximo, muito mais caloroso. Não precisamos diminuir a temperatura brasileira em nenhum lugar pra elevar o padrão ou para atender a algum padrão que seja externo e não o nosso.”

Com Tuju e EVVAI premiados no mesmo ano, o Brasil mostra que sua gastronomia tem cada vez mais a oferecer ao mundo, não apenas pelo que chega ao prato, mas também pela maneira como recebe quem se senta à mesa.

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