A bordo de um navio na Groenlândia: uma expedição por mar, terra e ar no isolado território

Já pensou em acordar em meio a icebergs e conhecer os cantos mais remotos da Groenlândia com ajuda de helicópteros? Tudo isso é possível na expedição Ultramarine, que navega por paisagens cenográficas e nos dá uma aula de educação ambiental

Daniela Filomeno a bordo do Ultramarine, novíssimo navio da Quark Expeditions que faz roteiro pelo sul da Groenlândia
Daniela Filomeno a bordo do Ultramarine, novíssimo navio da Quark Expeditions que faz roteiro pelo sul da Groenlândia CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Groenlândia

Após a voz de um dos guias me despertar logo pela manhã por alto-falantes, abro a cortina do quarto e dou de cara com uma paisagem que é, no mínimo, monumental. Estou de frente a um iceberg, que se levanta austero em meio às águas do sul da Groenlândia.

Assim é um pouquinho do dia a dia a bordo do Ultramarine, novíssimo e super tecnológico navio da Quark Expeditions que navega por este pedaço do Ártico. A empresa, que existe desde 1991, é pioneira em expedições polares tanto por aqui quanto na Antártida e nos oferece uma viagem recheada de descobertas e aprendizados que nos marcam para o resto da vida.

A jornada não é por acaso: a Groenlândia é o primeiro destino escolhido para a quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia. É uma terra isolada e gelada de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados coberta por 80% de gelo e lar de apenas 57 mil habitantes – a menor densidade populacional do planeta.

Logo, é de se esperar que cada dia a bordo do Ultramarine seja uma verdadeira aventura. Fiordes, icebergs, mar, montanha e gelo são alguns dos cenários – e também paradinhas – durante a expedição, a qual nos presenteia com um misto de cultura, ecologia e a certeza de visuais arrebatadores.

Que tal fazer uma trilha no topo de uma montanha que nunca tinha sido pisada? Ou ainda pousar e caminhar sobre o grande manto de gelo que cobre o território? Tudo isso é possível a bordo do Ultramarine, que, com ajuda de helicópteros, botes e caiaques, nos leva a lugares inóspitos da Groenlândia.

Após dias isolada neste recôndito canto da Terra, digo que esta expedição de aventura vai além e nos educa de maneira brutal. Viajar para o Ártico é olhar à nossa volta e repensar o que está acontecendo com o nosso planeta.

É um tipo de turismo que revigora e que coloca os impactos das ações humanas no centro da discussão.

“Esperamos criar defensores que deem voz a esses lugares incrivelmente importantes, os defendam, voltem para casa e façam escolhas que sejam boas para esses lugares e para o planeta”, conta Alison Gordon, coordenadora de expedições da Quark Expeditions.

Uma aventura por mar, terra e ar

A proposta do Ultramarine é realizar uma verdadeira expedição de aventura por mar, terra e ar. Qualquer pacote adquirido dá direito a uma série de atividades externas e também às três refeições do dia – programas extras e outras amenidades podem ser comprados à parte.

Como experimentamos o sentido mais puro da palavra expedição, o conhecimento do território, da vida marinha, da fauna e da flora se tornam essenciais. Para tanto, fazemos a viagem ao lado de vários experts de diferentes áreas, incluindo geologia, natureza, biodiversidade, clima e vários outros – esta é uma das grandes diferenças deste tipo de viagem.

Enquanto admiramos a beleza da Groenlândia, também absorvemos um nível alto de informações sobre o que vemos ao nosso redor.

Paredões rochosas, cachoeiras de degelo e fiordes são cenários encontrados ao longo do caminho / CNN Viagem & Gastronomia

Mas antes de embarcar no navio, é preciso deixar claro que a viagem não começa, de fato, na Groenlândia, mas sim a três horas dali. A aventura começa em Reykjavik, capital da Islândia, onde pegamos um avião em direção ao assentamento de Narsarsuaq, comunidade que é porta de entrada para o sul da Groenlândia e onde embarcamos no navio.

O itinerário completo dura 10 dias, em que ficamos embarcados sete. Importante salientar que as saídas do navio acontecem em julho, época do verão no Hemisfério Norte, e a expedição ocorre pelo sul da Groenlândia, porção chamada muitas vezes de “Patagônia do Ártico” por abranger fiordes, pequenas e esparsas comunidades tradicionais e águas calmas e geladas que chegam a ser transparentes.

Junto de municípios, parceiros regionais e nacionais, a Quark Expeditions nos oferece uma ampla gama de atividades fora do navio, em que o propósito é justamente nos deixar o maior tempo possível percorrendo as maravilhas deste território isolado de diferentes formas.

Entre as atividades de cada dia estão inclusos hiking, caiaque, paddling em meio aos icebergs, visita a comunidades, fiordes, banhos termais e visitas a ruínas vikings.

Confesso que, quando fazemos esse tipo de expedição, é normal pensar que tudo seja repetido. Mas não se engane: todos os passeios são diferentes e únicos. Cada cenário é especial e distinto um do outro, em que lidamos com perspectivas novas todos os dias.

O Ultramarine

Mais novo navio da frota da Quark Expeditions, o Ultramarine chega onde outras embarcações maiores não navegam.

Adaptado aos desafios polares, como temperaturas baixas, mares gelados e icebergs pelo caminho, ele acomoda 199 hóspedes e 140 tripulantes.

Nos seus 128 metros de comprimento e 21,5 metros de largura estão sete deques. Ao todo são 102 suítes divididas em nove categorias – que variam de 12 a 52 metros quadrados.

Lounges, biblioteca com livros em diferentes idiomas, spa, sauna, amplos deques de observação, bar e restaurante são apenas algumas das áreas comuns em que a ideia é nos garantir também conforto.

Como o navio funciona como a base de nossas excursões no território groenlandês, as três refeições principais, além de snacks e bebidas, estão inclusas. O restaurante principal é o Balena, com janelões que se abrem para os visuais deslumbrantes de fora.

E antes de sairmos para as atividades do dia, tudo é bem orquestrado: somos acordados com um chamado por alto-falantes e convocados a briefings obrigatórios com detalhes dos programas que virão pela frente.

Recebemos também uma espécie de cartão que é escaneado em todas as visitas em solo para não deixar ninguém em terra – ou melhor, em gelo. Garantir a segurança de todos é a prioridade da expedição.

Ao adentrarmos o navio recebemos uma parka amarela, botas à prova d’água e também uma garrafa de água reutilizável. Antes de sairmos às atividades, colocamos roupas impermeáveis e levamos mochilas com os itens necessários para passar bastante tempo lá fora.

Dentre todas as características do navio, o maior diferencial são seus dois helicópteros que ficam à disposição dos passeios no itinerário.

Com eles, somos levados aos lugares mais inóspitos e isolados do território, o que significa que, a partir do heliponto do navio, funcionam como meio de transporte para experiências memoráveis.

Vistas aéreas, baías inacessíveis para desembarques em terra e geleiras no alto das montanhas fazem parte do roteiro com a ajuda das duas engenhocas.

Com todo conforto, alto nível de conhecimento e visita a locais remotos que são o sonho de todo aventureiro, é claro que esta experiência exclusiva tem um preço.

Os valores para saídas em julho deste ano começam a partir de US$ 7.645 (cerca de R$ 39 mil), que inclui os passeios previstos, as saídas de helicóptero e botes, todas as refeições e bebidas não alcoólicas, além da acomodação.

Do manto de gelo a uma comunidade remota

Além dos helicópteros, os “zodiacs” também são estrelas por aqui. Eles são ​​botes infláveis que nos transportam em excursões fora do navio, passam por águas gélidas e nos fazem ficar ainda mais perto dos icebergs.

Por falar neles, uma curiosidade: o que vemos para fora do mar é, literalmente, apenas a ponta do iceberg, já que ficam com mais de 80% de sua massa submersa na água.

Os grandes blocos de gelo podem ser apreciados também por meio caiaques: na água congelante e tranquila, é um passeio espetacular.

Com permissão, ousei até pegar pedaços bem menores que se desprenderam do iceberg e coloquei na boca – é para ficar na memória!

Com nossos zodiacs, caminhando pelas montanhas ou vendo tudo isso de um helicóptero, podemos realmente ter uma noção do quão grande é a Groenlândia e quão pequenos somos neste complexo ecossistema

Alison Gordon, coordenadora de expedições da Quark Expeditions
Botes permitem melhor acesso a algumas das belezas das Groenlândia / CNN Viagem & Gastronomia

Aqueles com espírito mais aventureiro também podem reservar programas a um custo extra, que vão de mountain bike ou até pernoitar num acampamento na área do Tasermiut Fjord, fiorde com 70 quilômetros de extensão repleto de paisagens cênicas cuja localidade mais próxima é a cidade de Nanortalik.

Importante ressaltar que, durante nossa estadia no Ultramarine, não há um itinerário integralmente certo. Devido às mudanças climáticas e outros fatores que propiciam ou não a visita a uma área, cada expedição pode ser diferente da outra. As decisões são feitas pelo time experiente da Quark.

De visita a ruínas vikings, passando por águas termais em meio ao gelo e até paddling nas águas de um fiorde arrebatador, confira a seguir as atividades que fiz durante a expedição:

Grande manto de gelo da Groenlândia

Daniela Filomeno em meio ao grande manto de gelo da Groenlândia / CNN Viagem & Gastronomia

Um dos primeiros programas fora do navio já foi um dos destaques de toda a programação: conhecer o grande manto de gelo da Groenlândia.

Com ajuda dos helicópteros, somos levados a um ponto longínquo do mapa até uma porção impressionante desta enorme camada de gelo, que é profunda e cobre grande parte do território. Ela pode chegar a 3,5 km de espessura e abrange 80% da Groenlândia, ou seja, mais de 1 milhão de metros quadrados.

Caminhar por cima do manto foi uma das experiências mais marcantes durante toda a viagem.

O gelo mais antigo daqui chega a datar 150 mil anos! É também impressionante se deparar com algumas fissuras ao longo do caminho, em que podemos agachar e checar seu caminho que parece infinito até lá embaixo.

É incrível, mas ao mesmo tempo dá certo medo olhar para algo tão profundo assim.

Como ficamos no meio de uma calota polar que é resultado do acúmulo de milhares de anos, é impossível não pensar no impacto deste local em nível global: o degelo daqui impacta o nível do mar e as correntes marítimas.

É uma aula ao vivo de educação ambiental que extrapola o mero turismo.

Paddling entre icebergs

Pedaços menores soltos dos icebergs podem ser pegos com cuidado com as mãos / CNN Viagem & Gastronomia

Uma das formações mais impressionantes do sul da Groenlândia é o Tasermiut Fjord, onde o mar adentra e cria paisagens cercadas por montanhas.

Mais uma vez, a transparência da água impressiona. No meio dela temos a possibilidade de remar a bordo de um caiaque e ficar lado a lado de um iceberg – com certa distância segura, é claro.

Como há pedacinhos menores soltos do iceberg, podemos tirar as luvas e até pegar um deles com as mãos. É um tipo de conexão e também uma oportunidade de sentirmos o quão gelada a água de fato é.

O silêncio do passeio é interrompido pelo barulho de uma cachoeira, que é fascinante, mas ao mesmo tempo preocupante, já que é resultado do degelo que ocorre de maneira desenfreada no território.

Ruínas de Hvalsey

Quando pensamos na Groenlândia, a primeira imagem que vem à minha cabeça é a de grandes icebergs e uma terra preenchida por uma grande camada de gelo branca. Mas o que também me surpreendeu foi saber – e ver com os próprios olhos – que o local carrega uma história peculiar.

Um dos pontos históricos que nos ajuda a entender as movimentações de povos por aqui são as ruínas de Hvalsey, uma das maiores e mais bem preservadas do povo Norse na Groenlândia.

Eles eram descendentes dos vikings e chegaram ao território por volta 985 d.C liderados por Erik Torvaldsson, que fundou dois assentamentos que chegaram a reunir quase cinco mil pessoas.

Assim, próximo à cidade de Qaqortoq, o local conta com uma igreja milenar, cujo último registro de casamento ocorreu em 1408, e os restos de uma fazenda. Aqui imaginamos como era a vida naquela época: como era estar em um assentamento isolado na Groenlândia há cerca de mil anos?

É impressionante ver de perto as condições em que o povo vivia. As ruínas de Hvalsey fazem parte de Kujataa, região de pastagens considerada como o primeiro local de agricultura no Ártico e que está entre os Patrimônios Mundiais da Unesco.

E um dos fatos mais impressionantes é saber que o povo desapareceu por volta de 1500, mas sem registros concretos de como isso aconteceu.

Visita à comunidade de Aappilattoq

Além de olharmos para o passado, a expedição também nos deu um melhor entendimento de como é viver hoje em dia em meio ao Ártico numa comunidade isolada.

Com a menor densidade populacional do mundo, a Groenlândia é cheia de comunidades esparsas, como Aappilattoq, vilarejo centenário formado por apenas 100 moradores, 17 deles crianças.

Raramente visitada por navios, conseguimos ver de longe as casinhas coloridas – vermelhas, azuis, verdes – que se destacam em meio a uma paisagem montanhosa. O local parece que saiu da ficção.

Um dos guias me explicou que as construções ali são coloridas para identificar cada uso e cada morador, além de serem feitas de madeira importada da Dinamarca. Como não há árvores pela região, esta é a única maneira de viverem de uma maneira sustentável.

Além das casas dos moradores, há ainda um mercadinho do tamanho de uma pequena sala, campo de futebol e igreja, onde fomos recebidos com um coro.

De tão isolada, a vila é servida apenas duas vezes por semana por helicópteros e durante o inverno tudo fica coberto de gelo, sendo impossível manter qualquer tipo de plantação. Eles são pescadores e caçadores, em que a caça de urso polar para alimentação é regulamentada pelo governo.

Em meio aos visuais arrebatadores, ver como eles vivem é um aprendizado. A experiência fica ainda mais tocante quando notamos que todos estão em situação de vulnerabilidade com os efeitos do aquecimento global e a diminuição da calota de gelo. A visita é uma oportunidade de expandir nosso conhecimento e respeito frente a um modo de vida diferente ao que estamos acostumados.

Por fim, um jogo de futebol com a comunidade nos fez ficar ainda mais perto deles. Deixando nossas diferenças de lado, os dois times (de moradores contra turistas) foi uma oportunidade de suar a camisa neste local gelado e ainda arrancar sorrisos de todos.

Banho de águas termais em Uunartoq

Piscina de água termal é formada por nascentes de águas quentes provenientes da fricção de rochas / CNN Viagem & Gastronomia

E não é apenas a Islândia que possui banhos de águas termais que relaxam e nos aquecem. Uunartoq, na ilha Vunartoq, no sul da Groenlândia, é o único lugar em todo o território que possui águas termais propícias para banho.

São três nascentes naturalmente aquecidas que correm juntas e formam uma pequena piscina cercada de pedras, em que as águas ficam entre 34° e 38°C, que são resultado da fricção de pedras no subsolo.

O local é mágico, já que a piscina natural é rodeada por picos de montanhas e icebergs à deriva no mar lá embaixo. É um combo perfeito: enquanto os termômetros podem beirar zero graus lá fora, é ideal relaxar nas águas quentes enquanto apreciamos os visuais ao nosso redor.

Mergulho abaixo de zero

Na contramão das águas termais, as temperaturas congelantes do Atlântico Norte também se transformam em uma atração no Ultramarine. A partir do navio, somos convidados a dar um mergulho no mar.

Teria coragem? Pois eu tive! Queria, literalmente, me jogar de cabeça em toda a experiência da Groenlândia e não poderia deixar de dar um mergulho nestas águas gélidas.

Já trajados com roupas de banho, somos levados até um deque próximo à água junto da equipe, que fica o tempo todo ao nosso lado. Uma corda é presa ao nosso corpo e ficamos livres para dar o pulo.

É um misto de sensações: gelado, claro, mas também revigorante e transformador. Logo ao subirmos as escadinhas de volta ao navio, o corpo fica ainda cheio de adrenalina. É uma memória para a vida toda.