Amarcord, em Curitiba, prova que tradição italiana não precisa de adaptação
Em um mercado acostumado a versões abrasileiradas da cozinha italiana, restaurante da família Agnoletti aposta em receitas da Emília-Romagna, ingredientes importados e uma regra simples: se não faz parte da tradição, não entra no cardápio
Não tem filé mignon com talharim, nem fettuccine ao molho Alfredo. Também não tem prato criado especialmente para agradar ao gosto local ou uma massa coberta por uma quantidade generosa de creme só porque isso costuma fazer sucesso. No Amarcord, restaurante comandado pela família Agnoletti, em Curitiba, a cozinha italiana segue outro caminho. E, para Alessandro Agnoletti, isso não é uma estratégia de negócio. É respeito.
“Não iremos cair na tentação de agradar ao paladar dos curitibanos e não iremos introduzir pratos autorais, assinados por chefs ou empratados para agradar aos olhos, mas deixando a desejar no sabor”, afirma. A frase resume bem a proposta da casa.
O Amarcord abriu as portas em 30 de julho de 2025, depois de seis meses de trabalho realizado pelos cinco integrantes da família, sem arquiteto ou engenheiro. Cada detalhe do restaurante, das cores à decoração, foi escolhido por eles. Até parte dos objetos decorativos veio de casa. O resultado é uma extensão da própria história da família.
Como tudo começou
Alessandro Agnoletti, italiano de Rimini, na Emilia-Romagna, mudou-se para o Brasil em 1998 por causa do seu trabalho, e por aqui conheceu Cristina Engelmann, paranaense de Cascavel. Cristina se apaixonou pela culinária italiana depois de se casar com Alessandro, em 2010, e encontrou na sogra, Leonilde, sua primeira grande professora.
O aprendizado começou em casa e teve uma particularidade curiosa: Cristina não falava italiano e Leonilde se recusava a aprender português. A cozinha acabou funcionando como uma espécie de idioma comum entre as duas.
Em 2015, Cristina passou a produzir massas em casa para amigos, parentes e colegas de trabalho do marido. A demanda cresceu a ponto de ela chegar a preparar, congelar e distribuir até 40 quilos de massa fresca por semana.
Mas foi na Itália que esse aprendizado ganhou outra dimensão. Em 2018, a família se mudou para o país por causa do trabalho de Alessandro. Cristina trabalhou no Ristorante Cucina dalla Nonna, nas colinas de Rimini, na Emília-Romagna, comandado há quatro décadas pela Nonna Adri, então com 84 anos. Durante quase cinco anos, Cristina aprofundou seus conhecimentos nas técnicas clássicas das massas e dos molhos mais icônicos da culinária Emiliano-romagnola. Receitas simples, matéria-prima de excelência e respeito pela tradição.
Em 2023, a família teve que mudar novamente por conta do trabalho de Alessandro, e a promessa de ter um restaurante em Curitiba foi o que convenceu Cristina a deixar o seu trabalho na cozinha da Nonna.
A história do Amarcord, porém, começa muito antes da paixão de Cristina pela culinária italiana. A avó de Alessandro, Nonna Maria, foi cozinheira na Itália nas décadas de 1960 e 1970. Sua filha Leonilde, mãe de Alessandro, começou a cozinhar aos nove anos, preparando comida para os irmãos quando a mãe precisava se ausentar, e continuou fazendo isso durante toda a vida. Foram essas receitas que chegaram até Cristina e que hoje aparecem no Amarcord com alterações mínimas em relação às originais.
A cozinha
O grande carro-chefe do restaurante é a Lasagne classiche romagnole (R$ 96), que quase não foi para o menu, pois a família imaginou que seria algo simples demais. Não há nada como o simples bem feito, no entanto, e os apenas quatro ingredientes (massa, ragu, bechamel e Grana Padano) fazem uma lasanha irrepreensível. Muitas camadas de massa perfeitamente cozida, todas bem recheadas com ragu e um bechamel com estrutura suficiente para manter a lasanha inteira em pé, mesmo após cortada, do jeito que tem que ser. Sabor intenso, complexo.
Cristina ama trabalhar com carnes exóticas e de caça, e o segundo prato mais pedido é o Coniglio in porchetta (R$ 129), que consiste em coelho desossado, recheado e envolto em presunto cru, acompanhado de um belíssimo purê de batata. Em terceiro lugar vem o Tagliatelle al ragù tradizionale romagnolo (R$ 82). Tudo simples, sem firulas, mas feito com ingredientes de altíssima qualidade.
Os pratos são elegantes e delicados. A Ricottina fresca al forno con spezie (R$ 68) traz uma ricota artesanal muito fresca, cremosa, como não costumamos encontrar pela cidade. O Carpaccio di bresaola (R$ 88) é preciso, com a maionese de limão siciliano trazendo a acidez necessária para equilibrar a gordura e o sal da bresaola. O Ravioli recheado com camarão fresco e ricota artesanal (R$ 89) é servido com uma bisque de camarão, finalizada com tomilho fresco e raspas de limão siciliano. É preciso e nada sobra.
A intenção nunca foi ter grandes mudanças no cardápio, e sim somente pequenas alterações para acompanhar as estações ou disponibilidades de matéria-prima.
Para os amantes de um bom carbonara, uma adição recente é o Caramelle di Carbonara (R$ 96), que consiste em “bombons” recheados com creme carbonara (gema, guanciale e pecorino), servidos com guanciale crocante e pecorino romano. Além de lindíssimo, traz uma massa muito bem feita, al dente, com um recheio leve, contrariando todas as expectativas. Tudo sem excessos, como manda a culinária italiana autêntica.
A operação

A ideia inicial era um restaurante pequeno, com no máximo 10 a 15 mesas. O ponto escolhido acabou tendo espaço para 20 mesas e 60 lugares na configuração normal, podendo chegar a 100 pessoas em eventos.
Os três filhos do casal, Mireya Vittoria, Anna Valentina e Guilherme, também trabalham no restaurante, conciliando a faculdade com funções que vão do salão ao bar, das reservas às compras, estoque, logística, marketing e eventos. Alessandro atua como “relações públicas”, conversando com os clientes interessados em conhecer a história do restaurante.
Além da família, o restaurante também conta com outros funcionários, como o gerente de sala Wellington Arguelho Alves.
Um restaurante na contramão

A posição do Amarcord fica ainda mais clara quando Alessandro fala sobre o cenário gastronômico de Curitiba. Em um mercado em que restaurantes apostam cada vez mais em chefs conhecidos, pratos autorais, apresentações pensadas para as redes sociais e grupos que abrem sucessivas operações, a família escolheu ocupar um espaço menor e bastante específico.
O público que frequenta a casa, segundo Alessandro, costuma ter mais de 40 anos, renda média ou alta e algum tipo de ligação com a Itália, seja por nascimento, família, viagens, idioma, interesse cultural ou simplesmente curiosidade. É um público disposto a experimentar pratos que talvez não sejam imediatamente familiares.
É aí que mora a aposta do restaurante. Em vez de tentar convencer todo mundo, o Amarcord procura encontrar quem entende o que está sendo proposto.
A família não esconde que existe uma parcela do público curitibano para a qual esse tipo de cozinha talvez nunca faça sentido. E não parece interessada em fazer concessões para mudar isso. “Não estamos preocupados com reconhecimento e nem em ficar ricos”, resume Alessandro ao falar sobre a filosofia da casa.
Pode parecer uma posição arriscada para um restaurante, mas há uma coerência difícil de ignorar. O Amarcord não nasceu de uma pesquisa de mercado, de um projeto de investimento ou mesmo com projeto de expansão. Nasceu de uma promessa de Alessandro para convencer Cristina a voltar da Itália para Curitiba, e da vontade de preservar a memória da família.
O nome do restaurante vem do filme homônimo de Federico Fellini, vencedor do Oscar em 1975, que retrata a infância do cineasta na cidade de Rimini, onde Alessandro nasceu. O significado de Amarcord é, em dialeto romagnolo, “Eu me lembro”. Poderia haver um nome melhor?
Amarcord Ristorante Italiano
Rua Bispo Dom José, 2249 - Batel, Curitiba - PR / Tel.: (41) 99830-1739 / Horário de funcionamento: de terça a sexta, das 19h às 23h; sábado, das 12h às 15h e das 19h às 23h; e domingo, das 12h30 às 16h30. Reservas são recomendadas / Mais informações no Instagram.
*Os textos publicados pelos Insiders não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Caroline Grimm

Curitibana, médica de formação e gastrônoma de coração, Caroline Grimm também é criadora de conteúdo e acumula milhares de seguidores nas redes sociais. Como ela mesma descreve, vive para cozinhar, comer, beber e viajar – não necessariamente nesta ordem, mas sempre em busca das melhores experiências.


