L'Épicerie mantém a tradição da gastronomia francesa em Curitiba

Indo na contramão das tendências atuais, o pequeno bistrô francês aposta em padrão, consistência e fidelidade às receitas clássicas

Caroline Grimm, colaboração para o Viagem & Gastronomia, Curitiba, PR
Compartilhar matéria

Ao adentrarmos no salão da pequena casa, originalmente residencial, na rua Fernando Simas, no Bigorrilho, somos tomados pela sensação de termos sido transportados imediatamente para um bistrô na França. A cortina de veludo, os espelhos, os sofás, o papel de parede, tudo remete à identidade francesa. E não poderia ser diferente, já que a proprietária, Fanie Delatte, é natural de Nancy, na França.

Fanie cresceu em Le Praz - Courchevel, nos Alpes, e, aos 20 anos, entrou na escola de hotelaria Vatel Lyon, onde se formou. Depois de uma curta temporada trabalhando na recepção de um hotel em Paris, decidiu mudar para o Rio de Janeiro, onde começou a sua experiência como gerente de restaurante, chegando a trabalhar em 2 restaurantes do chef Claude Troigros. No Rio de Janeiro também conheceu seu marido e, após 5 anos na cidade, se mudaram para Curitiba. Com o dinheiro guardado que iriam utilizar para dar entrada em um apartamento, decidiram abrir o L'Épicerie, dando início a uma história que já dura 19 anos.

Após 6 meses de pesquisa de mercado para encontrar a casa ideal, e mais 5 meses de uma grande reforma, o L'Épicerie inaugurou no início de 2007. Com recursos limitados, a ideia era um bistrô simples, servindo comida tradicional francesa. Não havia toalha de mesa ou guardanapo de pano, eram servidos somente 6 rótulos de vinho, e os pratos, taças e talheres não tinham sofisticação. Alguns clientes não aceitavam um restaurante tão simples servir comida francesa, e, aos poucos, Fanie foi aprimorando o estabelecimento, até uma grande reforma em 2015, quando o salão ganhou as feições que tem atualmente. Charmoso, intimista, com capacidade para apenas 40 lugares.

Em uma época em que restaurantes perseguem constantemente novidades, menus sazonais extensos e reinvenções frequentes, Fanie segue na direção oposta. O cardápio muda muito pouco, e isso é completamente intencional.

Para ela, a excelência vem da repetição. O objetivo é que o cliente encontre hoje o mesmo sabor que encontrou há um mês ou há um ano. Em um setor marcado por alta rotatividade de equipes, manter um menu estável ajuda também a preservar o padrão que se tornou marca registrada da casa.

Essa obsessão pelo padrão aparece principalmente nos molhos, talvez o maior orgulho da cozinha do L’Epicerie. O demi-glace, base da culinária clássica francesa, é produzido semanalmente e serve de estrutura para praticamente todos os molhos da casa. Não é usado molho bechamel, nem mesmo roux. A ideia é privilegiar os molhos mais escuros, intensos e delicados, que acompanham as proteínas grelhadas e reforçam a identidade francesa do menu.

Segundo Fanie, a maior parte dos clientes vai ao restaurante já sabendo o que irá pedir e acredita que o menu tem bastante opções para os novos clientes. Um menu produzido com ingredientes frescos, de boa qualidade, a maior parte vinda de fornecedores do Paraná e de Santa Catarina.

Cardápio do L´Épicerie

Mesmo com toda a pressão do público curitibano pela entrada de massas e risotos no menu, Fanie seguiu firme com a tradição, e os acompanhamentos das carnes são vegetais e batatas. A clássica batata gratinada francesa (gratin dauphinois), aliás, é sucesso absoluto. Perfeitamente cozida por inteiro, com o creme sedoso, jamais talhado, acompanha quase todos os pratos de carnes. Um dos favoritos de Fanie, o Tournedos Sauce Poivre (R$ 168), acompanha também, além das batatas gratinadas, uma cebola confitada levemente adocicada, receita de sua mãe.

Outro favorito de Fanie, e grande sucesso do público, é o Tartare de Mignon (R$ 152), tem o tempero tipicamente francês, e o mignon muito rosado e fresco. Para os dias frios, a tradicional Sopa Francesa de Cebola (R$ 66), gratinada com queijo Emmental, é capaz de aquecer até mesmo o rigoroso inverno curitibano.

Outros destaques são o Magret de Pato ao demi glace (R$ 192), sempre no ponto correto, acompanhado de maçãs caramelizadas e batatas gratinadas, o intenso e marcante Boeuf Bourguignon (R$ 158) e o Picadinho Paris (R$ 148), com os cubos de mignon ainda rosados e suculentos por dentro, demonstrando um cuidado raro de se encontrar, cobertos por um rico molho de roquefort cremoso e cogumelos shitake. Para os fãs de sabores mais aromáticos, temos o Tajine de Cordeiro (R$ 158), que traz um cordeiro muito macio em um molho Ras El Hanout repleto de especiarias, ameixas, amêndoas e couscous de sêmola.

O L'Épicerie tem ainda um menu Santé, com receitas elaboradas pela nutricionista Selma Vosgerau, no qual operam algumas mudanças seguindo a sazonalidade.

Há ainda muitas opções de sobremesas clássicas francesas, como os Profiteroles (R$ 42), com uma massa mais crocante, o sorvete com fava verdadeira de baunilha, feito na casa, e a calda de chocolate quente, criando várias texturas.

Mesmo seguindo uma linha bastante tradicional, o restaurante conseguiu ampliar seu público ao longo dos anos. Além da clientela fiel que frequenta a casa desde a abertura — muitos indo uma ou duas vezes por mês, o L’Epicerie passou a receber também os filhos desses clientes, hoje adultos. Desde 2016, um menu completo com bom custo-benefício (entrada, prato principal e sobremesa por R$ 192) ajudou ainda mais a democratizar a experiência e afastar a ideia de que a gastronomia francesa precisa ser inacessível.

Operação

Fanie inaugurou o L’Epicerie grávida de oito meses, e trabalhou até a véspera do parto. Depois que sua filha Sofia nasceu, ganhou um quartinho dentro do restaurante e passou os primeiros seis meses ali, acompanhada pela mãe e por uma babá.

Mesmo depois de quase 2 décadas, Fanie continua profundamente envolvida na operação. Além de integralmente responsável pelo salão, pois não maître e sommelier, ela também treina o restante da equipe. Na cozinha, o comando é do chef executivo Weslen do Santos, que começou como cozinheiro, passou pela função de subchef e assumiu a liderança da cozinha em 2025, após quatro anos na casa.

A cozinha é organizada, com todas as receitas bem padronizadas e fichas técnicas confiáveis. Este é um legado do marido de Fanie, Gustavo Alves. Nos 12 primeiros anos do restaurante, pela dificuldade de Fanie em encontrar bons profissionais, Gustavo mergulhou no universo da gastronomia e estudou técnicas, comprou inúmeros livros franceses e ajudou a desenvolver receitas, fichas técnicas e a organização da cozinha. Mesmo depois da saída de Gustavo do restaurante, o padrão foi mantido.

Talvez seja justamente isso que explique a longevidade do L’Epicerie. Em vez de seguir tendências, o restaurante construiu a sua história ao redor de algo muito mais difícil de alcançar: regularidade, técnica e alto padrão de qualidade.

L'Épicerie: R. Fernando Simas, 340 - Bigorrilho, Curitiba - PR / Telefone: (41) 3044-4744 / Aberto de terça a sexta das 19h às 22h, sábado das 12h às 15h e das 19h às 23h, domingo das 12h às 15h. Reservas são recomendadas.

*Os textos publicados pelos Insiders não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Caroline Grimm

Curitibana, médica de formação e gastrônoma de coração, Caroline Grimm também é criadora de conteúdo e acumula milhares de seguidores nas redes sociais. Como ela mesma descreve, vive para cozinhar, comer, beber e viajar – não necessariamente nesta ordem, mas sempre em busca das melhores experiências.

Acompanhe Gastronomia nas Redes Sociais