Aposta do Emiliano, hotel v3rso quer quebrar paradigmas com tecnologia

Com abertura de inédito "tech boutique hotel" na Alameda Santos, grupo aposta em uma hotelaria automatizada com foco na flexibilidade para se ajustar às necessidades do cliente

Saulo Tafarelo, do Viagem & Gastronomia
Interior de um dos quartos do v3rso Jardins, em São Paulo
Detalhes de um dos quartos do v3rso Jardins, em São Paulo, primeiro hotel da marca a abrir as portas  • Tuca Reines
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Imagine um hotel sem balcão de check-in, com entrada por reconhecimento facial e toda a jornada do cliente concentrada em um aplicativo. Os quartos são totalmente automatizados e customizados de acordo com os gostos do hóspede, desde a temperatura até a iluminação e o som. Os horários de chegada e saída não precisam ser rígidos: se quiser, o cliente compra horas para sair mais tarde ou entrar mais cedo.

Todos os pagamentos são feitos na palma da mão, desde a estadia até os produtinhos da loja autônoma. Baseado no perfil do hóspede, recomendações de restaurantes e de endereços culturais são mostrados no app. Pode parecer distante, mas essa realidade está mais próxima do que se pensa.

No início de setembro, a marca v3rso, do Grupo Emiliano, abre seu primeiro hotel, situado em plena Alameda Santos, a pouquíssimos metros da Avenida Paulista, no coração de São Paulo. Com 39 quartos, o v3rso Jardins inaugura uma era de “tech boutique hotels”, como a empresa se define.

“Juntamos um pouco dos dois extremos. Há toda a eficiência do modelo de plataforma de aluguel de curta duração com todo o cuidado que se tem em um hotel de luxo”, diz Gustavo Filgueiras, CEO do Grupo Emiliano.

Foram R$ 11 milhões investidos somente na criação da plataforma, que envolve site e app, realizada ao longo de três anos pela mesma empresa por trás de grandes bancos digitais. Ao todo, o VGV (Valor Geral de Vendas) do v3rso já chega a R$ 1 bilhão, com outras unidades saindo do forno no Parque Global, em São Paulo, e em Porto Alegre e Goiânia. Mais de 20 hotéis já estão em negociação pelo Brasil.

Quebra de paradigmas

v3rso Jardins tem 39 acomodações, que partem de 28 metros quadrados e chegam aos 42 • Tuca Reines
v3rso Jardins tem 39 acomodações, que partem de 28 metros quadrados e chegam aos 42 • Tuca Reines

O ano de 2001 foi marcado pela abertura do Hotel Emiliano, na Oscar Freire. Em 2016, veio a unidade do Rio. “O Emiliano representou a quebra de paradigma da hotelaria tradicional de luxo. Mudamos a referência, até então dominada por grandes hotéis de redes, que eram muito funcionais. Quebramos isso com um hotel com cara de casa, de altíssima qualidade”, afirma Gustavo.

Os tempos mudaram e, agora, a aposta é outra, mas a expertise do Emiliano segue como um dos potes de ouro da marca. “Vejo o v3rso criando essa nova referência de hotelaria. O diferencial será a excelência da hospitalidade através da tecnologia.”

A promessa do CEO é que os hotéis da marca tenham o mesmo nível de customização da empresa-mãe, mas com uma experiência mais autônoma, com processos antecipados pela tecnologia. “Ela corta a imprevisibilidade de uma plataforma de curta temporada. A experiência nestas plataformas pode ser muito boa, mas se o ar-condicionado parar de funcionar, você terá que dormir desse jeito. Em um hotel, cuidamos de você”, exemplifica Gustavo.

A aposta é baseada em três pilares: hospedar, morar e trabalhar. Os hotéis ficarão em prédios de uso misto, com restaurantes e lojas de players locais e unidades residenciais geridas pela marca. Inclusive, haverá possibilidade das moradias virarem quartos de hotel, se assim o dono desejar e se regras de padronização forem respeitadas.

Millennials e público de negócios

O v3rso atende a um público de negócios, além de ser direcionado a uma parcela da população familiarizada com ferramentas digitais, em sua maioria os millennials, nascidos entre 1980 e 1999.

Enquanto o Emiliano recebe clientes geralmente com mais de 50 anos, a nova marca vem para atrair indivíduos entre 30 e 40, que procuram por boa localização e desejam menos regras. “É uma geração que pode escolher o que quer. Eles viajam mais e têm uma relação diferente com o custo-benefício. É um público antenado e digitalizado”, aponta Filgueiras.

O luxo foi demasiadamente explorado e banalizado. Então trabalhamos com uma simplificação do luxo. O essencial é a qualidade de dormir, a eficiência da chegada, a personalização do quarto e a qualidade do banho. Mas é um essencial extremamente bem feito, com DNA de acolhimento
Gustavo Filgueiras, CEO do Grupo Emiliano e fundador do v3rso

Dentro dos hotéis, espaços de coworking serão uma realidade e os quartos serão desenhados com áreas de trabalho confortáveis. No v3rso Jardins, na Alameda Santos, os quartos partem de 28 metros quadrados e chegam aos 42 - no geral, os quartos da marca partirão de 35 metros quadrados.

As acomodações deste primeiro hotel têm design do estúdio Miguel Pinto Guimarães, com linguagem acolhedora e contemporânea através de madeiras claras e texturas. O minibar pode ser preparado segundo preferências do hóspede e tem a primeira montagem inclusa na diária. Um drinque criado em parceria com a APTK fica à disposição no balcão da minicozinha, que conta com micro-ondas.

O edifício, novinho em folha, quase na esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, tem 24 andares, com quartos do hotel nos três primeiros. Nos níveis mais altos, áreas comuns como piscina, sauna, academia e salinha de massagem têm vistas privilegiadas para o skyline da capital paulista. Um restaurante operará no térreo sem envolvimento direto do Emiliano, mas o delivery no quarto estará disponível.

Em um primeiro momento, as tarifas das diárias girarão entre R$ 1 mil e R$ 1.500. “O v3rso é um produto de luxo, com preço de um hotel cinco estrelas de entrada. A tarifa do Emiliano tem uma média de R$ 5,5 mil”, compara Gustavo. Com uso da tecnologia, o custo operacional do v3rso é até 70% menor do que no Emiliano, o que ajuda nos preços mais amigáveis.

Uso da tecnologia

Com toda a parte operacional enxugada e centralizada na tecnologia, como então tornar a experiência menos fria? “O ponto é que teremos pessoas. Entre 7h e 23h, um embaixador te receberá para dar suporte à estada. Os quartos serão limpos por camareiras. Haverá menos pessoas, mas elas terão atitude. Teremos os seus dados e vamos fazer algo com isso”, explica o CEO do Emiliano.

Todos os hóspedes terão uma conta, uma espécie de identidade digital, o mesmo exigido por apps como Uber e de companhias aéreas. Com o perfil, clientes têm acesso à plataforma do v3rso. Hospedagens também podem ser fechadas por agências, mas em algum momento os hóspedes terão que atrelar a reserva com a plataforma, como ocorre na aviação civil.

A operação é toda pré-paga e, no caso de cancelamento, o dinheiro volta ao app como crédito para outra estadia, em qualquer hotel da marca - é possível também simplesmente pedir o dinheiro de volta.

Expansões e hotelaria nacional

Projeto do prédio em que ficará o v3rso Nilo Square, em Porto Alegre • Divulgação
Projeto do prédio em que ficará o v3rso Nilo Square, em Porto Alegre • Divulgação

O primeiro hotel mal foi lançado e expansões já estão no horizonte. A ideia é dobrar de tamanho a cada três anos. “Temos uma meta ousada de ter 100 hotéis em 15 anos”, revela Gustavo. O segundo hotel na capital paulista ficará no Parque Global, na Zona Sul, com 42 quartos e 100 residências. Em São Paulo, o plano é ter cerca de oito a dez hotéis.

O foco da operação reside em cidades economicamente ativas do Brasil. “Temos cidades muito ricas e economicamente ativas, mas com hotéis ruins. Alguns ainda operam como há 40 anos e cobram mais de R$ 500, com uma experiência horrível. Acho que o público pagaria por um hotel que cobra R$ 1 mil. Só não paga porque não tem opção”, crava o CEO do Emiliano.

Quando abrimos o Emiliano, o clima era de piada. Era um hotel pequeno, de luxo, com mordomo e fios de algodão egípicio. Falaram que nunca daria certo. Quando inauguramos, vimos que havia uma demanda reprimida de pessoas querendo qualidade, dispostas a pagar mais. Acho que essa é a realidade do Brasil
Gustavo Filgueiras, CEO do Grupo Emiliano

Hoje, muitos hotéis têm digitalizado a experiência. O v3rso já nasce assim. Para Gustavo, a marca também responde a uma demanda reprimida, em que a equação de tecnologia e o mix residencial permite tarifas que se encaixem nessas cidades.

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