Castelo em caverna e mundo subterrâneo: conheça as surpresas da Eslovênia

A cerca de 60 km da capital eslovena, o Castelo de Predjama e a Caverna de Postojna combinam impressionantes formações naturais e cenários dignos de cinema

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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A cerca de uma hora da cidade de Liubliana, cenários dignos de contos de fadas se misturam com histórias de cavaleiros. O resultado se traduz em atrativos turísticos inimitáveis no mundo. Imagine adentrar um castelo esculpido na boca de uma caverna, no alto de um penhasco, e desbravar um complexo de cavernas que forma um mundo subterrâneo escondido bem debaixo dos nossos pés. Na Eslovênia, essa experiência é realidade.

Encravado entre a Áustria e a Croácia, também fazendo fronteira com a Itália e a Hungria, o país foi a minha segunda parada a bordo do "Grande Expresso do Oriente", viagem de trem privativa inspirada no roteiro do lendário Expresso do Oriente. A Eslovênia entrou na rota para adicionar ainda mais descobertas e pitadas de charme, enriquecendo a viagem de conhecimento.

Para a inédita 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, embarquei nesta aventura com a Latitudes, produtora de viagens pioneira no Brasil ao desenhar jornadas privativas que aliam destinos arrebatadores com fortes aprendizados culturais, tudo ao lado de especialistas brasileiros e meios de transporte que nos levam a lugares onde, muitas vezes, os outros não chegam.

Ao todo, atravessei 10 países e 14 cidades em 22 dias, indo da Suíça até a Turquia. O pontapé foi em Zurique, de onde o trem privativo, que evoca a nostalgia elegante das viagens sob trilhos, partiu em direção a Salzburgo, na Áustria. Atravessada a fronteira, aportei em Liubliana, a capital da Eslovênia, para dar seguimento ao deslumbre causado por esses territórios.

Nunca havia pisado na Eslovênia, e o que descobri superou minhas expectativas. A capital, que já foi premiada como líder em sustentabilidade na Europa, mistura arquitetura barroca com resquícios dos tempos socialistas, formando um mosaico vivo de estilos e épocas. Nas redondezas, cartões-postais como o Castelo de Predjama e a Caverna de Postojna, que podem ser combinados em uma mesma visita, foram descobertas de ficar na memória.

Castelo de Predjama e o espetáculo das cavernas

A paisagem é digna de “Game of Thrones”. A cerca de 60 quilômetros de Liubliana, o Castelo de Predjama surge a 120 metros do chão, lapidado na boca de uma caverna há mais de 800 anos. Trata-se do maior castelo em uma caverna do mundo, um dos únicos ainda conservados da Europa, cheio de túneis secretos.

Aqui, elementos naturais se entrelaçam com a construção humana, evidenciando uma pérola da engenhosidade medieval.

Eleito um dos castelos mais belos do planeta, Predjama foi o meu ponto de partida na Eslovênia. Com Liubliana de base, é possível fazer um passeio bate e volta para o endereço combinando-o com uma visita à Caverna de Postojna. A dica é começar o dia com o castelo e, à tarde, seguir para Postojna.

"A Eslovênia tem uma alta concentração de cavernas. Há mais de 16 mil delas no país. Em Predjama, usavam essa caverna como fortaleza. O castelo foi construído no século XII, mas era menor. Cada dono que passou por aqui construiu um pouco mais. O último elemento construído foi a torre de entrada, no século XVI", explica Kevin Klun, guia de turismo local.

Ao entrar no castelo, as características da caverna ficam mais evidentes. Há rochas por todo lugar, com água da chuva escorrendo pelas paredes. Para evitar inundações, foram construídas fendas que captavam a água para diversos usos. O tour pelo castelo ainda abrange uma antiga câmara de tortura, com atmosfera pesada que mistura escuridão, frio e umidade; e uma área usada para fugas durante ataques, a mais antiga da fortaleza.

Uma das personalidades mais emblemáticas do local foi Erazem Predjamski, conhecido como um cavaleiro ladrão. Ele viveu aqui no século XV e traiu os Habsburgos, que, por vários meses, cercaram o castelo atrás de sua cabeça.

O cavaleiro resistiu ao cerco graças às passagens secretas do longo sistema de cavernas atrás do castelo. "O sistema tem cerca de 18 quilômetros e ainda não foi totalmente explorado. Chega até o topo da colina e sai na floresta", conta Kevin. As grutas podem ser visitadas no tour, mas só ficam abertas de junho a agosto devido ao período de hibernação dos morcegos.

A história conta que o cavaleiro morreu no ponto mais frágil da fortaleza: o banheiro. Foi vítima de um ataque com rochas em formato de bolas, que ainda podem ser vistas do lado de fora do castelo.

Mundo subterrâneo: as profundezas de Postojna

Bem pertinho do castelo, a cerca de nove quilômetros dali, um outro mundo se abre diretamente debaixo dos nossos pés. Descoberta em 1818, a Caverna de Postojna é, na verdade, um dos maiores sistemas de cavernas acessíveis na Europa. São cerca de dois milhões de metros cúbicos, 24 quilômetros de extensão e uma ferrovia subterrânea em operação desde o século XIX.

A descida ocorre por meio de trenzinho, um programa que já vale a visita por si só. No caminho, nos deparamos com magníficos salões e grandes formações rochosas pitorescas. A cerca de 100 metros debaixo do solo, a temperatura cai drasticamente, atingindo uma média de 10ºC, e o silêncio é quase sagrado. Os salões são todos iluminados, criando um cenário mágico que parece não caber na lente da câmera.

Kevin Klun, o guia turístico, aponta para uma das formações e explica que é formada por calcita pura. O interessante é saber que essas formações ainda estão aumentando de tamanho.

Elas crescem muito devagar. Levam um século inteiro para crescer um centímetro. A caverna nunca é a mesma. Mas as mudanças são tão pequenas que nem percebemos
Kevin Klun, guia do Postojna Cave Park

De gota em gota e de ano a ano, as formações nos mostram a paciência com o tempo. A seção mais bonita da caverna é chamada de "Paraíso", com formações que parecem sorvetes. Ali há uma linda estalagmite, que cresce de baixo para cima a partir do acúmulo de minerais. Batizada de "Brilhante", é a mais pura da caverna.

O local tem um impacto além da beleza, já que tem ligação com o desenvolvimento dos estudos de cavernas, impulsionando o campo da espeleobiologia. No século XIX, Postojna ajudou a transformar a região em um centro pioneiro dos estudos sobre vida subterrânea, mantendo até hoje um viveiro com animais, como o Proteus anguinus, anfíbio característico das cavernas do país.

"Chamamos esses anfíbios de filhotes de dragão. Os locais acreditavam que haviam dragões morando nessa caverna e quando souberam desse animal, pensaram que eram filhotes deles", explica Kevin.

O Proteus é cego e detecta luz com a pele. Por isso, desenvolveu outros sentidos. Eles moram no escuro e podem ficar sem comida por mais de 10 anos, vivendo por cerca de um século.

Durante o passeio, também conhecemos o maior salão da caverna, a Sala do Concerto. A acústica é tão boa que algumas apresentações musicais ocorrem aqui. Outra curiosidade: dentro da caverna existe o único serviço de correios debaixo da terra do mundo. Foi construído há um século e continua como uma ótima maneira de mandar lembranças para casa.

O Castelo de Predjama e a Caverna de Postojna fazem parte de uma mesma rede, com ingressos em diversas modalidades. Para visitar somente o castelo, o valor sai a partir de 21 euros (cerca de R$ 127); somente a caverna, 32,90 euros (R$ 200). O ingresso combinado é vendido a partir de 46,50 euros (R$ 281).

Giro por Liubliana

De volta a Liubliana, a cidade merece ser degustada com passeios pelo centro e paradinhas gastronômicas. Capital e maior cidade da Eslovênia, é lar para cerca de 300 mil pessoas e funciona como o centro político, econômico e cultural do país. Às margens do rio Ljubljanica, é cercada por colinas próximas aos Alpes Julianos.

Para mim, foi uma grata surpresa: é charmosa e fácil de explorar a pé, com amplas áreas para pedestres, cafés ao lado do rio e intervenções urbanas idealizadas pelo arquiteto Jože Plečnik, que redesenhou espaços públicos no século XX.

Andar pelo centro histórico é notar que a arquitetura barroca, medieval, art nouveau e modernista, além de influências do período socialista, compõem um mosaico que reflete diferentes períodos. O dragão é o grande símbolo local, presente até hoje na icônica Ponte do Dragão, adornada com esculturas da criatura mitológica.

Entre os destaques da cidade estão a Prešeren Square, principal praça e ponto de encontro dos locais; a Ponte Tripla, que liga o centro histórico à cidade moderna; a Fonte Robba, inspirada nas fontes romanas; o mercado central a céu aberto, onde podemos ter um gostinho da cultura local; e o Castelo de Liubliana, cartão-postal que hoje abriga museus, restaurantes, exposições e eventos culturais, acessível por um funicular que liga o centro ao topo da colina.

A gastronomia não fica de fora. Para experimentar uma iguaria, vá ao Klobasarna, especializado na linguiça da Carniola. Para um almoço diferente, a dica é o Gostilna Na Gradu, no Castelo de Liubliana, que serve cozinha tradicional com um toque moderno. Para um jantar refinado, vá ao JB Restavracija, que mescla sabores regionais com influências clássicas - o ravióli com pistache e queijo servido com foie gras e molho de vitela é carro-chefe. Por fim, dê chance aos vinhos eslovenos na Vinoteka Movia, lojinha próxima da prefeitura que promove degustações.

 

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