Conheça a Null Island, ilha que não existe e atrai curiosos

Cruzeiros começam a incluir parada em coordenadas 0,0 no oceano, onde erros de mapeamento criaram um destino fantasma

Kate Springer, da CNN
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Era uma clara e luminosa manhã de abril quando Russell e Gail Lee visitaram Null Island pela primeira vez.

O casal estava a bordo de um cruzeiro Viking World Cruise 2023-2024, a cerca de 610 quilômetros da costa da África Ocidental, aproximando-se das coordenadas de 0 grau de latitude e 0 grau de longitude, onde o equador e o meridiano de Greenwich se cruzam.

Russell ficou na ponte com o capitão, enquanto Gail e um navio cheio de outros passageiros se reuniram na proa.

"Todo mundo estava com seus geolocalizadores, fazendo a contagem regressiva… 0,01… 0,005… 0,0001", conta Gail Lee à CNN Travel. "Todos estávamos comparando os celulares. Quem tirasse uma selfie mais perto de 0, 0 ganhava o direito de se gabar."

Quando souberam que o navio faria uma "parada" em Null Island, os Lee, que trabalham como palestrantes de enriquecimento cultural em cruzeiros, até se ofereceram para fazer comentários sobre o cenário.

O único problema? Não havia nada para ver além do oceano aberto em todas as direções. Isso porque Null Island não é um lugar de verdade.

É uma piada interna de longa data, nascida de erros de mapeamento e adotada ao longo dos anos por profissionais geoespaciais — pessoas que trabalham com softwares de mapeamento e dados de localização.

De corridas no Strava e anúncios no Airbnb a hotéis e boletins de ocorrência com dados de localização ausentes ou codificados incorretamente, tudo isso foi se acumulando nessas coordenadas, dando origem a um destino fantasma com um grupo surpreendentemente dedicado de seguidores.

E, embora ainda seja raro, um pequeno número de cruzeiros começou a passar pelo local, aumentando o entusiasmo em torno do ponto.

Há apenas algumas semanas, a Holland America anunciou planos de incluir Null Island como parada em sua viagem de volta ao mundo de 129 dias em 2028, após uma visita anterior em sua viagem de 2024. Embora a Viking não liste nenhuma parada nos próximos itinerários, seus navios em 2024 e 2025 visitaram as coordenadas.

"Não há nada lá", afirmou Russell Lee, que visitou Null Island com a Viking tanto em 2024 quanto em 2025.

"Não há nada mesmo. Apenas mar aberto. Mas vocês estão entre as únicas pessoas na Terra que já visitaram este lugar, e isso é realmente especial."

Uma ilha que não existe

Os seres humanos sempre foram atraídos por marcos geográficos invisíveis, como o equador, o Círculo Polar Ártico e a linha divisória continental. E a Null Island pode ser a versão mais estranha desse fenômeno na era da internet.

Mas o que é ela, exatamente? A ilha começou a aparecer na comunidade de Sistemas de Informação Geográfica por volta de 2008.

À medida que os dados geoespaciais passaram a ser mais amplamente utilizados, impulsionados por plataformas pioneiras como o Twitter (agora X) e o Flickr, o ponto de referência em 0 surgiu como um problema técnico.

"Um erro comum com dados de localização é que você acidentalmente os omite", explicou Mike Migurski, especialista em dados geoespaciais, à CNN Travel.

Na época, Migurski trabalhava no estúdio de visualização de dados e cartografia Stamen Design, onde começou a notar muitos dados "circulando pela Baía do Benim, onde não deveria haver nenhum dado".

Dados de localização incompletos ou ausentes, ele explica, assumem o valor padrão de "null" ou 0. E esses zeros — 0 grau de latitude, 0 grau de longitude — apontam para um ponto remoto no Golfo da Guiné.

Como resultado, é para lá que todos os dados não atribuídos acabavam indo, ele acrescenta. E foi assim que Null Island nasceu.

"Como nenhum outro lugar na Terra"

O que começou como uma espécie de ponto de coleta de erros de mapeamento logo evoluiu para um curioso mundo fictício construído por aqueles que estavam por dentro do assunto.

Em 2010, enquanto trabalhava em um novo conjunto de designs de mapas para o GeoIQ, uma plataforma de inteligência de localização, Migurski ajudou a dar à ilha uma identidade visual.

Inspirado pelo popular videogame "Myst", ele adicionou uma pequena ilha nas coordenadas 0, 0 como um "easter egg" para outros encontrarem.

"Isso ajudou as pessoas a visualizarem que era algo concreto", disse Migurski. "Não fizemos nenhuma referência explícita", ele continua. "Era apenas uma daquelas coisas do tipo: quem sabe, sabe."

A imagem se espalhou rapidamente pelo mundo da cartografia, aparecendo em camisetas de empresas e brindes de conferências antes de, eventualmente, chegar ao Natural Earth, um dos conjuntos de dados de mapeamento de código aberto mais amplamente utilizados, em 2011.

Por volta dessa mesma época, um desenvolvedor chamado Steve Pellegrin mergulhou de cabeça na brincadeira, criando um site bem-humorado que imaginava Null Island como um destino real, completo com sua própria bandeira, história e economia.

A ilha, segundo o site, tinha uma população de 4 mil habitantes, "a maior taxa per capita de proprietários de Segway (veículo elétrico de transporte pessoal de duas rodas) no mundo", e uma língua local conhecida como "Nullish".

Viajantes curiosos eram incentivados a ligar para seus agentes e reservar uma escapada para um destino descrito "como nenhum outro lugar na Terra".

A popularidade de Null Island continuou a crescer na internet, principalmente nas primeiras plataformas de mídia social, como o Twitter, e em fóruns de informações geográficas.

Os que estavam por dentro da piada faziam graça sobre "fazer check-in" para uma estadia na ilha ou compartilhavam capturas de tela de aplicativos que erroneamente os posicionavam naquelas coordenadas.

A partir daí, Null Island foi gradualmente encontrando espaço em uma conversa muito mais ampla.

Blogs, vídeos no YouTube e fóruns abraçaram o conceito, seguidos posteriormente por veículos como a Library of Congress, Atlas Obscura, VICE e The Wall Street Journal.

Isso fez com que a ideia ressoasse, sugere Migurski. Pode ser algo surpreendentemente universal: as pessoas tendem a ser fascinadas pelos marcadores e sistemas arbitrários que usamos para organizar o mundo, especialmente quando esses sistemas ganham vida própria.

Por anos, essa mitologia foi reforçada pela presença de uma boia de observação meteorológica da NOAA apelidada de "Soul", ancorada próximo a 0,0. Com o tempo, a boia passou a ser intimamente associada à Null Island antes de ser desativada em 2021.

O "achados e perdidos" da internet

Por trás do humor e do folclore da internet, há um problema muito real.

Na época em que Null Island estava se tornando uma curiosidade online, Levente Juhász, professor assistente de Análise Geoespacial na Universidade da Flórida, começou a examiná-la mais de perto.

"Ao ver essas discussões e debates, percebi que não era apenas engraçado. É uma questão fundamental de qualidade de dados", contou Juhász, coautor de um artigo acadêmico sobre Null Island em 2022, à CNN Travel.

Mergulhando na pesquisa, ele e o coautor Peter Mooney encontraram de tudo, desde fotos mal posicionadas até empresas fantasmas mapeadas nas mesmas coordenadas — uma espécie de "achados e perdidos" digital.

E, embora muitos dos erros fossem inofensivos, as implicações nem sempre eram triviais, especialmente em um mundo que depende tanto de ferramentas de mapeamento digital.

"Pense nos serviços de emergência", contou. "O que aconteceria se um atendente tentasse direcionar um caminhão de bombeiros para o meio do oceano? Perderíamos um tempo precioso."

Null Island também serve como um lembrete de que os mapas não são infalíveis.

"As pessoas gostam de mapas e tendem a confiar neles", afirma. "Uma vez que você coloca um lugar em um mapa, ele se torna real. Um mapa carrega uma sensação de autoridade. E, hoje em dia, os viajantes realmente dependem deles porque não têm aquele conhecimento local."

O fascínio do invisível

Para os viajantes Russell e Gail Lee, o apelo de Null Island tinha menos a ver com a história técnica por trás do lugar e mais com a lenda e a raridade que a cercam.

"Visitar 0, 0 e Null Island é algo grandioso", disse Gail Lee. "Como cruzar o Círculo Polar Ártico, o equador ou a Linha Internacional de Data. É mais um lugar imaginário que você visitou."

Nesse sentido, ela pertence a uma categoria ampla, porém duradoura, de destinos definidos por fronteiras geográficas, marcos e superlativos.

O ponto mais ao norte. A ponta mais ao sul. Os quatro cantos. O meridiano de Greenwich. O equador. A divisão continental.

Russell Lee, que passou anos fazendo comentários históricos, culturais e cênicos em navios de cruzeiro, enxerga esses lugares como parte de uma tradição que une geografia, mitologia e narrativa.

Quando se deparava com um trecho de oceano em que não havia nada a ver além de ondulações lentas, ele preenchia o vazio com histórias de outros lugares inventados.

Ele contou aos cruzeiristas tudo sobre Atlântida, a cidade perdida que teria afundado no mar, e Antília, uma "ilha fantasma" que assombrava os mapas medievais e do início da era moderna do Atlântico.

Havia também Agloe, uma cidade fictícia no interior do estado de Nova York como uma armadilha cartográfica para flagrar plágio, que, de forma improvável, tornou-se real o suficiente para aparecer em placas de estrada.

São locais que, segundo ele, continuam a capturar a imaginação.

E é exatamente por isso que ele acredita que Null Island teve um apelo tão amplo para além do mundo do mapeamento digital e dos analistas de dados.

Para os Lee, viajantes experientes que passam a maior parte do tempo no mar, essa mistura de mistério e curiosidade geográfica fazia parte do atrativo.

"Ficamos absolutamente entusiasmados em navegar passando por 0, 0 e 'visitar' a Null Island", disse Russell Lee. "Nunca pensamos que conseguiríamos fazer isso. Para muitos de nós, acabou sendo um dos pontos altos da viagem."

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