O que são viagens de conhecimento? Entenda a proposta de agência pioneira

Guiadas por especialistas, viagens privativas em grupo ganham adeptos ao unir conhecimento e transformação em jornadas a bordo de jatos, navios e trens particulares

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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O que é uma viagem memorável para você? Para certos viajantes, a experiência material é o que mais conta ao longo do caminho, com empurrãozinho de aluguel de supercarros e refeições em clubes exclusivos. Independentemente da resposta, digo que uma viagem boa é aquela que nos transforma.

Em um mundo cada vez mais acelerado, a possibilidade de aprofundarmos conhecimentos sobre um território ou uma região parece cada vez mais distante. Essa realidade, porém, cria terreno para o oposto.

Estudos recentes apontam que a busca por viagens mais significativas tem crescido globalmente entre consumidores de luxo. Destinos fora dos circuitos tradicionais, procura por autenticidade e aumento do interesse por imersões culturais são destaques de relatórios como Virtuoso Luxe Report 2026 e Visa Global Travel Trends 2025.

Foi exatamente esse tipo de viagem, que ultrapassa a linha do comum, que vivenciei para a 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia. No ano passado, ao longo de 22 dias, atravessei 10 países da Europa, da Suíça à Turquia, passando por 14 cidades, de Zurique à Istambul. O diferencial? A jornada foi feita sobre trilhos, por meio de um trem privativo com roteiro inspirado no lendário Expresso do Oriente.

As minhas andanças renderam cinco episódios, que vão ao ar em uma temporada especial que estreia em 11 de abril. Mais do que percorrer países pouco conhecidos pelos brasileiros, a jornada me ajudou a compreender o conceito de viagem de conhecimento, modalidade que tem conquistado cada vez mais viajantes e mudado a forma como nos deslocamos - e vemos - o mundo.

As viagens de conhecimento

"O período da viagem é muito rico para aprendermos. É o momento que estamos mais abertos, desfrutando de tudo. Absorvemos muita informação. Os especialistas que nos acompanham proporcionam uma troca de informações, possibilitando que conheçamos os lugares a fundo", diz Alexandre Cymbalista, fundador e CEO da Latitudes.

Nascida em 2003, a agência é pioneira no Brasil ao trabalhar com viagens de conhecimento e de transformação. Já são mais de duas décadas desenhando jornadas majestosas nos canto mais remotos do planeta. As expedições incluem tudo: atividades personalizadas, curadoria intelectual e, claro, hospedagens e refeições à altura.

"Começamos com professores de ioga que levavam grupos para a Índia e o Nepal. Pegamos essa ideia e a transformamos em outra, adicionando temáticas desde filosofia e mitologia grega até arte", explica Alexandre. Além de viagens personalizadas para indivíduos, casais e famílias, a agência expandiu os horizontes ao introduzir as expedições privativas em 2016.

Batizadas de "private expeditions", elas são feitas em grupo por brasileiros e para brasileiros, com toda comunicação em português, nossa língua-mãe. Isso faz toda a diferença na interpretação dos símbolos, sem aquela exaustão de informações no fim do dia. Até agora, a agência já realizou três voltas ao mundo e visitou 63 países com as excursões.

Essas viagens são o suprassumo do que fazemos. A base delas é o conhecimento. Em geral, são viagens que não são feitas para pessoas que costumam viajar em grupo. São pessoas que normalmente costumam viajar sozinhas, mas que querem conhecer um lugar diferente de uma outra forma, também tendo liberdade para fazer passeios particulares
Alexandre Cymbalista, fundador e CEO da Latitudes

O grupo, na verdade, torna-se um ativo valioso. Todos têm interesses em comum e desejam crescer intelectualmente, abertos às surpresas de cada destino. Traçadas a dedo, as expedições podem ser feitas com ajuda de aviões, trens ou navios privados, abraçando ar, terra e mar.

As jornadas incluem o uso privativo do meio de transporte, todos os traslados, hospedagens cinco estrelas, refeições, consumo ilimitado de bebidas, passeios, seguro-viagem e guias locais. A viagem fica completa com um médico disponível em tempo integral e com as conversas conduzidas pelos especialistas. Entre um destino e outro, somos divididos em pequenos grupos para atividades. Sempre que possível, há visitas privativas, eventos especiais e jantares exclusivos.

Não à toa, o modelo tem conquistado cada vez mais adeptos: segundo o CEO, as expedições privativas registram crescimento de 20 a 30% ao ano. Um dos segredos está em retirar certas "dores" da viagem. Brinco que só temos que levar o corpo e a mala, todo o resto é por conta da agência.

Não há check-in, pagamentos inesperados ou preocupações logísticas. E somos mimados do início ao fim: cada novo destino vem acompanhado de lembranças e até de dinheiro na moeda local para gorjetas.

Grande Expresso do Oriente

Para mim, o grande diferencial das expedições privativas é o fator humano. Elas são acompanhadas por um seleto grupo de especialistas, desde historiadores e filósofos até fotógrafos e biólogos. "Os especialistas trazem camadas que vão além daquilo que simplesmente vemos, ouvimos ou sentimos. Eles acrescentam contexto e informações sobre os destinos e ajudam a aprofundar percepções que, muitas vezes, teríamos apenas de forma superficial", aponta Alexandre.

As conversas se transformam em aulas, quebrando conceitos e provocando reflexões. O motor é a curiosidade. As viagens são densas, com muito conteúdo, mas daquelas que ficam para a eternidade.

Esse foi o saldo da viagem "Grande Expresso do Oriente", expedição privativa totalmente inspirada no roteiro clássico do Expresso do Oriente, mas vivida através de uma versão atual do mapa geopolítico europeu. Dos 22 dias, fiquei 12 noites em hotéis pelo caminho e sete a bordo do trem. Ao todo, atravessei: Suíça, Áustria, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Kosovo, Macedônia do Norte, Bulgária e Turquia.

Não é apenas a viagem em si que conta: o antes também entra em jogo. Recebemos livros, assistimos a filmes indicados pela equipe e fizemos até aulas de história. Outro detalhe importante é o próprio trem. Ele nos permitie viajar de uma maneira diferente, ecoando o requinte nostálgico do passado, com mudanças de paisagem a cada minuto.

"Temos a impressão que a Europa é um mundo estável desde a Idade Média. É, na verdade, o contrário. A Europa sempre teve muitos conflitos, é um território que foi se estabilizando. Essa viagem nos mostra que os Bálcãs é a última região a ser estabilizada da Europa", resume Saulo Goulart, historiador que esteve presente em toda a jornada.

No fim, voltamos para casa transformados, imersos em uma região complexa, fundamental para entendermos as relações entre Europa e Ásia. Essa transformação não é apenas sinônimo de algo bom. Siginifica, na verdade, que voltamos mexidos, cheios de referências.

Da Antártida ao Mediterrâneo: as expedições futuras

Mal chegamos no segundo trimestre de 2026 e a Latitudes já está de olho em 2027 com um cardápio de dar inveja. Para o ano que vem, a empresa terá quatro grandes expedições com ajuda de navio, jato particular, iate e trem.

A primeira partirá para a Antártida em fevereiro, a bordo de um navio com apenas 70 cabines. O tema é "O que é a vida?", contando com nomes como a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, o escritor moçambicano Mia Couto e o psicanalista Christian Dunker. Enquanto isso, os passageiros navegarão por um dos cenários mais selvagens e gelados do planeta.

Em abril, um jato privativo decolará de São Paulo rumo a uma volta pelas Américas. O roteiro passará pelo Peru, pelas Ilhas Galápagos, pela Guatemala, pelos Estados Unidos, pelo Canadá e terminará nas praias de Santa Lúcia, no Caribe. Os destinos serão percorridos com um jato adaptado, com todos os mais de 40 assentos em classe executiva. Especialistas em economia e geopolítica darão contexto a cada parada.

Maio é o mês do Mediterrâneo. A bordo de um iate com 50 cabines, o grupo percorrerá Sicília, Sardenha e Córsega antes de ancorar em Cannes, na Riviera Francesa. Uma especialista em literatura clássica e um historiador conduzirão as conversas ao longo dos 19 dias.

Por fim, em setembro, a Latitudes estreia um roteiro inédito: uma travessia de trem por quatro reinos pela Europa Central, passando por Romênia, Hungria, Eslováquia, Polônia e Alemanha. Um historiador e um jornalista especializado em política internacional ajudarão a entender a complexidade dessa região tão pouco explorada pelos brasileiros. A depender da expedição, o investimento parte de US$ 23 mil dólares por pessoa (cerca de R$ 117 mil).

Quer mais? Haverá mais de 40 grupos temáticos em 2027, com destinos como Índia, Egito, China e Namíbia, além de roteiros pelo Brasil, passando por Amazônia, Pantanal, Cerrado, Chapada Diamantina e até Inhotim. Para mim, uma viagem memorável não é necessariamente a mais confortável ou fotogênica. É aquela em que voltamos com a mala repleta de referências e a cabeça cheia de perguntas.

 

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