Conheça cidade subaquática na Turquia onde florescem rosas negras

Halfeti é um dos diversos assentamentos na província de Sanliurfa, no sudeste da Turquia, localizados às margens do rio Eufrates

Alexander Rodway, da CNN
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Durante o almoço com shabout grelhado — uma espécie de carpa de água doce — em um dos restaurantes flutuantes de Halfeti, os visitantes talvez reflitam sobre como era a vida nas antigas ruas da cidade, agora abandonadas vários metros abaixo da superfície da água.

Halfeti é um dos diversos assentamentos na província de Sanliurfa, no sudeste da Turquia, localizados às margens do rio Eufrates, relativamente próximos de sua nascente. Em 2000, duas dessas cidades e dez vilarejos menores foram completamente submersos após a construção da represa de Birecik, com 60 metros de altura e 2,4 km de largura. Mais de 6.000 moradores tiveram de ser realocados.

Cerca de 40% de Halfeti — uma cidade que, antes da barragem, contava com cerca de 2.600 habitantes — foi engolida pelas águas. Muitas de suas casas de pedra, lojas e boa parte da Merkez Camii (Mesquita Central) do século XIX, localizada na “cidade antiga”, desapareceram. Algumas residências em áreas mais elevadas foram poupadas e, hoje, ainda há quem viva acima da linha d’água.

A barragem de Birecik foi uma entre várias construídas ao longo dos rios Eufrates e Tigre, em um esforço para desenvolver a região do sudeste da Anatólia. A usina hidrelétrica gera cerca de 2.500 GWh (gigawatts-hora) por ano — o suficiente para abastecer quase um milhão de lares turcos — e seu reservatório, com cerca de 52 quilômetros quadrados, foi projetado para irrigar 70 mil hectares de terras agrícolas.

Apesar desses benefícios aparentes, a barragem de Birecik foi recebida inicialmente com reações mistas pelos moradores locais.

“Claro que não é fácil, porque muitos cemitérios, muitas casas ficaram debaixo d’água”, diz Erhan Yildirim, pesquisador local, historiador e guia profissional. “Você não pode trazer a cultura de volta; a cultura permanece submersa.”

Muslum Karaman, operador de barco na região, conta que “as pessoas em Halfeti costumavam sobreviver com a pecuária e a agricultura” — a cidade já foi conhecida pela produção de pistache.

“Agora tudo mudou completamente para o turismo”, continua ele, acrescentando que muitos moradores abraçaram essa mudança ao transformar “suas casas em restaurantes e cafeterias boutique”, numa tentativa de melhorar a qualidade de vida.

Hoje, turistas lotam a chamada “cidade submersa” para circular pelas construções alagadas em barcos, jet skis e até flyboards. O mergulho também se tornou uma atividade turística popular em Halfeti, impulsionada por Şahika Ercümen, mergulhadora turca detentora de recordes mundiais, que mergulhou na cidade em 2020 para conscientizar sobre a poluição plástica.

“Você sente a história”, afirma Yildirim, ao descrever a abundância de espécies de peixes do rio e a extensa rede de cavernas naturais de calcário logo abaixo da superfície.

Rosas negras — ou será que são?

Mas há vida tanto embaixo quanto acima da água. Halfeti também é famosa por suas “rosas negras”, cultivadas nas redondezas da cidade, às margens do rio Eufrates. Diz a lenda que Halfeti é o único lugar do mundo onde essas flores desabrocham verdadeiramente pretas.

“Se você [cultivar] a rosa negra em qualquer outro lugar, ela nunca vai te dar a mesma cor”, garante Yildirim.

Especialistas afirmam que a cor não é preta pura — trata-se, na verdade, de um vermelho muito escuro. “Não acho que nenhuma flor dita ‘preta’ seja realmente preta”, diz Michael Marriott, especialista em rosas de renome internacional.

Mesmo assim, ele observa que certos tons muito escuros de carmesim podem parecer pretos, especialmente na fase de botão, antes de clarearem conforme florescem. Além disso, quanto mais escura a pétala da rosa, maior a probabilidade de queimar ao sol — o que, em regiões muito ensolaradas, faz com que pareçam ainda mais escuras.

Guy Barter, chefe de horticultura da Royal Horticultural Society do Reino Unido, concorda. “Rosas negras e flores negras em geral raramente são verdadeiramente pretas — são, na verdade, de um bordô profundo ou, como neste caso, de um vermelho muito, muito escuro”, afirma.

Embora internautas tenham acusado as rosas de Halfeti de serem falsas, Barter faz uma ressalva. “Flores de cor bordô intensa ou vermelho-escuro são suficientemente negras para todos os propósitos práticos, e só pessoas muito exigentes iriam reclamar de flores tão lindas e intrigantes”, diz ele.

Acredita-se que a coloração escura esteja relacionada às condições únicas do solo de Halfeti.

Embora a maioria das rosas seja enxertada em porta-enxertos comuns, que preferem um solo neutro entre acidez e alcalinidade, Marriott afirma que é possível que os agricultores de Halfeti usem as raízes originais das rosas, que talvez resistam melhor a condições ácidas que escurecem as pétalas.

“Deve ser por causa das condições climáticas daqui”, diz Birsen Aşağı, funcionária da Floating Gift Shop, que vende produtos à base da rosa negra. Moradores como Aşağı oferecem uma ampla gama de produtos com infusão de rosa negra, como sorvetes, sabonetes e chás, enquanto marcas internacionais também aproveitaram o apelo da flor. A perfumaria britânica Penhaligon’s, por exemplo, batizou sua fragrância de rosa negra com o nome “Halfeti”.

Explicando o significado simbólico da rosa escura, Aşağı compartilha uma lenda local. A história começa com Adir, um arquiteto local renomado, que teria construído a mesquita da cidade. Sua neta, Vartuhi, era conhecida por cultivar as rosas mais belas da região.

Ela se apaixonou por Firat, um menino órfão que vivia do outro lado do rio, mas, tragicamente, o amor dos dois foi proibido por seu avô. De coração partido, o casal se lançou junto no Eufrates e morreu afogado. Segundo a lenda, a partir daquele dia, todas as rosas em Halfeti passaram a florescer “negras”, em vez de vermelhas.

Yildirim conta uma versão diferente da história, em que a rosa negra pertenceria ao Diabo, que, indignado com o assassinato de uma jovem inocente, declarou que a flor só brotaria no lugar onde ela morreu — atuando para sempre como símbolo de tristeza, vingança e amor trágico.

História sobre as águas

Quem visita Halfeti também pode fazer um passeio de barco de uma hora pelo rio até a Fortaleza de Rumkale — um local histórico que reflete a história complexa e, muitas vezes, turbulenta da região.

Pelo barco, é possível ver as fundações da fortaleza se projetando dramaticamente sobre o rio. Acredita-se que datem do Império Bizantino, entre os séculos V e VI d.C., embora algumas fontes sugiram que estruturas ainda mais antigas possam ter existido no local.

A pé, os visitantes podem explorar restos das fortificações armênias construídas nos séculos XII e XIII, quando Rumkale se tornou residência do Catholicos, um líder espiritual da Igreja Armênia. A fortaleza foi posteriormente conquistada pelos mamelucos — uma poderosa classe de cavaleiros islâmicos — em 1292, antes de ser tomada pelo Império Otomano mais de dois séculos depois.

A impressionante arquitetura de Rumkale funciona como um lembrete marcante da história densa, estratificada e frequentemente sangrenta de toda a região — uma história que deixou marcas profundas na cultura e religiosidade locais.

Em 2013, Halfeti foi reconhecida como parte da rede Cittaslow (“cidade lenta”), em reconhecimento ao seu compromisso com uma vida de alta qualidade por meio da preservação da cultura e das tradições locais. “As pessoas em Halfeti sentem uma conexão profunda com a rica história de sua cidade”, afirma Yildirim.

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