Doce de US$ 4 viraliza e leva centenas de turistas a refúgio nas Dolomitas

Vídeos virais no TikTok levaram centenas de pessoas às Dolomitas italianas em busca de um krapfen, iguaria semelhante ao "sonho" brasileiro, causando caos no local

Barbie Latza Nadeau, da CNN
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Um refúgio alpino normalmente tranquilo — chamado de "rifugio" — no alto das Dolomitas italianas foi tomado por centenas de turistas que não estão lá apenas pela vista panorâmica, mas sim por um doce.

As enormes filas no vale de Val di Fassa, no norte da Itália, são provocadas por um doce de US$ 4 (cerca de R$ 21), promovido por blogueiros de gastronomia e influenciadores nas redes sociais.

O doce é conhecido localmente como krapfen ou bombolone, uma iguaria semelhante a um donut ou ao "sonho" brasileiro, geralmente recheada com creme de baunilha ou geleia de damasco.

Funcionários do refúgio Friedrich August — um tipo de ponto de apoio nas montanhas que historicamente oferece aos visitantes alimentação e abrigo contra tempestades, além de um lugar para descansar — disseram à CNN que o caos começou no começo de agosto depois que turistas postaram vídeos no TikTok de si mesmos comendo o krapfen em um cenário idílico.

Os vídeos rapidamente se tornaram virais, com filas se formando do lado de fora da cabana enquanto pessoas se deslocavam até o local, ansiosas para experimentar o doce por conta própria.

Embora algumas das publicações com #krapfen sejam de anos atrás, o interesse pelo local atingiu o pico este ano, segundo dois gerentes do refúgio, que acreditam que o aumento foi causado pelas temperaturas extremas e pela busca das pessoas por áreas mais frescas para visitar.

Eles disseram que, à medida que as pessoas procuram locais nas cordilheiras mais altas, as publicações sobre o krapfen ressurgiram naturalmente.

Agora os gerentes, que pediram para não ser identificados, dizem que não conseguem acompanhar a produção nem mesmo o sistema de pagamento, já que todos usam pagamentos por aproximação em vez de dinheiro em espécie, o que fez a internet deles cair.

"As pessoas que costumavam vir aqui eram alpinistas experientes, devidamente vestidos, que paravam para comer algo e descansar", disse um dos gerentes à CNN por telefone. "Agora as pessoas estão correndo grandes riscos sem experiência em trilhas e sem equipamento para comer o doce. Isso está perdendo o sentido."

Febre das redes sociais

O aumento repentino no número de visitantes não incomoda apenas os montanhistas tradicionais, que sobem em busca de tranquilidade e silêncio: ele também pode ser perigoso.

Francesco Abbruscato, presidente do Clube Alpino local, disse à mídia local que aqueles que vêm em busca de doces em vez de paz estão causando danos irreparáveis.

"Com a Covid-19, surgiu um grande desejo de vivenciar ambientes naturais. Até cinco ou seis anos atrás, não víamos um turismo excessivo" em certas partes das Dolomitas, disse ele. "Agora há lugares icônicos onde não é mais possível apreciar a beleza, cercado por dezenas de pessoas tirando selfies e que estão lá apenas por isso."

O problema do doce é um dos vários exemplos recentes de modismos nas redes sociais.

No início deste ano, as autoridades locais tiveram de fechar trilhas para limitar o acesso de quem ia fotografar a montanha Seceda.

No verão passado, agricultores chegaram a instalar uma catraca para cobrar das pessoas que cruzavam seus campos para tirar uma boa foto das cadeias montanhosas Seceda e Drei Zinnen (Três Picos).

Marco Bussone, presidente da UNCEM (União Nacional Italiana de Municípios, Comunidades e Entidades de Montanha), afirma que esses episódios cada vez mais frequentes devem levar as autoridades a refletir sobre os fluxos turísticos e a proteção ambiental.

"A montanha não é um parque de diversões", disse ele à mídia local no fim de semana passado. "O krapfen é um episódio singular, mas não representativo do turismo de montanha como um todo", afirmou. "A questão real é a necessidade de gerir os picos sem esquecer que as montanhas não são um parque de diversões, mas um território habitado durante todo o ano."

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