Entre paisagens alpinas, Riviera Suíça vai de castelo medieval a museu de Charles Chaplin

Regiões de Vevey e Montreux carregam charme suíço à beira do Lago de Genebra com diferentes atrações enquanto também são bases para os vinhedos de Lavaux e o mundo do queijo de Gruyères

Daniela Filomeno em frente ao Castelo de Chillon, construção do século 13 que hoje é a mais visitada atração da Suíça
Daniela Filomeno em frente ao Castelo de Chillon, construção do século 13 que hoje é a mais visitada atração da Suíça CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Vevey, Suíça

Enquanto Engelberg e Interlaken nos oferecem neve o ano inteiro e atividades propícias para serem aproveitadas em temperaturas baixas, Vevey e Montreux, pérolas da Riveira Suíça, são terras de paisagens alpinas, vinhedos, castelo medieval e até museu de Charles Chaplin – tudo isso à beira do Lago de Genebra.

Depois de dedicar alguns dias a Zurique, a incrível porta de entrada da Suíça, e visitar alguns dos cantinhos mais acolhedores do país, como St. Gallen, Lungern e Lucerna, foi a hora de conhecer um pouco mais da Suíça Francesa, parte francófona do país que carrega semelhanças – e particularidades – com o território vizinho.

Mais uma vez, a densa malha ferroviária suíça me levou até esta região, a qual ganha também bastante evidência durante o verão, em que belas paisagens e rotas convidam visitantes e moradores a passear pelo entorno em cima de bicicletas.

Com 17 e 24 mil habitantes respectivamente, Vevey e Montreux foram outras duas bem-vindas paradinhas neste país fantástico que me cativou e que continua cativando.

Alguns hotéis imponentes e calçadão à beira do lago contornado por flores e árvores mediterrâneas ecoam tempos de apogeu da Belle Époque, no final do século 19. Montreux, inclusive, é procurada entre junho e julho por seu festival de jazz de renome internacional.

Entre as atividades da região, destacam-se o Castelo de Chillon, o mais visitado de toda a Suíça e que guarda um rico passado medieval, além de um forte construído para guerras e até um museu inteiramente dedicado ao cineasta Charles Chaplin, que foi morador por mais de duas décadas de Vevey.

Vevey, minha base por alguns dias

Pouquíssimos quilômetros separam Vevey e Montreux. Por isso, para as gravações da quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia, eu e a equipe de filmagem decidimos nos estabelecer em Vevey, mais especificamente no Hotel des Trois Couronnes.

Imponente e supertradicional, o hotel fica logo na frente do lago e tem vistas privilegiadas para as águas e para os Alpes. Conta com 71 quartos e fica no coração da Riviera Suíça, a apenas cinco minutos do centro histórico de Vevey e a cerca de uma hora do aeroporto de Genebra.

Além de Charles Chaplin, o hotel viu ao longo das décadas a presença ilustre da aristocracia de vários países, incluindo da Rússia, da Grécia e da Arábia Saudita.

Assim, com boa localização e serviço acolhedor, ficou fácil sairmos para descobrirmos algumas das joias regionais, como o emblemático museu de Charles Chaplin, em Vevey, e o Castelo de Chillon, assim como o forte, perto de Montreux.

Vale dizer ainda que as regiões são uma mão na roda para visitarmos os vinhedos de Lavaux e o castelo e a comuna de Gruyères, onde a história do delicioso queijo ronda a vizinhança – conto tudo isso em outra coluna.

Centrinhos antigos

Antes das atrações turísticas propriamente ditas, destaco que os centrinhos antigos das cidades europeias são riquezas que devem ser degustadas sem pressa. E Vevey e Montreux também possuem “old towns” para chamar de suas.

Cheio de lojinhas e cantinhos históricos pelas ruas estreitas pavimentadas, o centrinho de Vevey ainda desemboca na Grande Place, praça que é palco para mercado de frutas, legumes e flores às terças e sábados no verão.

Entre julho e agosto também vira uma degustação de vinhos e bebidas regionais de produtores das redondezas. Vale ainda andar pela zona de pedestres às margens do lago.

Já o centrinho antigo de Montreux fica em partes mais altas da cidade, a cerca de 10 minutos da margem do lago. Uma mistura de lago, montanhas e vegetação compõem as paisagens daqui, em que restaurantes típicos e entradas para trilhas completam o cenário.

Chaplin’s World

Mais do que um ícone do cinema mudo, Charles Chaplin foi comediante, diretor, compositor, roteirista, cineasta e músico. Tantos atributos fazem com que o britânico tenha uma importância inquestionável para o mundo das artes no século 20, em que chegou até a irritar Hitler.

Assim, mais do que conhecer as várias facetas do artista, somos convidados a adentrar sua casa em Vevey, onde passou os últimos 25 anos de vida em um casarão conhecido como Manoir de Ban.

Inaugurado em 2016, o Chaplin’s World é uma verdadeira ode e recapitulação da vida e da obra de Charles Chaplin. A mansão e os 14 hectares do parque que compreendem a propriedade tem vista para o Lago de Genebra e estão abertos para visitação.

Dentro da casa, um moderno museu didático recria alguns passos do ator: é possível visitar a sala de jantar, quartos e os outros cômodos da casa, todos recheados de documentos que pertenciam a ele, manuscritos e projetos de filmes.

É interessante pensar que Chaplin esteve nestes mesmos cômodos e ainda imaginar sua rotina com esposa e filhos no almoço, no chá da tarde e nas janelas que dão para a mesma paisagem privilegiada rodeada de árvores a qual temos acesso.

Uma sala de cinema e um teatro multimídia são ingredientes de uma experiência bem divertida sobre o artista, em que podemos ver até filmes caseiros filmados na própria casa e no jardim.

Filmes como “Um rei em Nova York” (1957) e “A condessa de Hong Kong” (1967) são projetados pelas paredes e podemos conferir de perto até a recriação de set de filmagem à la Charles Chaplin.

Vale lembrar que além da casa, o artista também está enterrado em Vevey, mais especificamente no Cemitério de Corsier-sur-Vevey, não muito longe de sua antiga propriedade.

A entrada no Chaplin’s World sai por 29 francos suíços (cerca de R$ 160) para adultos entre 16 e 59 anos.

Fort de Chillon

Entre a diminuta comuna de Veytux e Montreux, na via que beira o Lago de Genebra, pequenas janelas em uma encosta escondem um forte de segurança suíço perceptível apenas aos olhares mais atentos.

É o Fort de Chillon, reduto das Forças Armadas do país que ficou em funcionamento de 1941 até 1995 e que abriu como museu interativo em 2020. Construído para proteger a região na Segunda Guerra Mundial, o local comportava 252 pessoas e possui mais de 2,1 mil metros quadrados, contendo ainda 131 camas e capacidade para 27 mil litros de combustível.

Interessante é que minha visita de uma hora acabou virando uma manhã inteira e se estendeu até o almoço, com direito a refeição no mesmo local onde os soldados comiam. Foi um ponto altíssimo da viagem, uma das melhores visitas que fiz no país.

Não nego: estar aqui ainda causa uma sensação de agonia, seja pelas estruturas e pelo uso na guerra. Mas todo o aparato de realidade virtual e a cenografia ajudam a criar um ambiente divertido que nos ajuda a entender melhor a antiga rotina do local.

Um curta-metragem nos apresenta a estratégia militar da Suíça, que foi classificada como ultrassecreta até 2001.

Dentro da fortificação é possível ver todos os cantinhos usados com diferentes propósitos. Uma câmara de descontaminação contra um ataque nuclear era usada para purificar os soldados com nitrogênio e CO2 de forma que nenhuma partícula atômica entrasse no local.

Na enfermaria podemos deitar nas camas; há ainda sala de cirurgias, dormitório e central de controle. A cenografia da cozinha conta com panelas no fogo e vídeo de soldados trabalhando no recinto, como uma representação do cotidiano.

Agora imagine ter uma verdadeira refeição no mesmo local que os soldados comiam? Aqui também é possível, em que diferentes menus ao longo do ano são oferecidos na cantina do forte. No mesmo modelo de travessas que os militares comiam, pedi um ragu e uma batata rosti, super tradicional na Suíça.

Por falar em alimentos, a lojinha vende chocolate militar fornecido até hoje para o exército do país.

O mais interessante é que este não é o único forte de segurança do território: a Suíça passou por um grande processo de fortificação na época da Segunda Guerra. Eram mais de 20 mil fortificações camufladas como esta, dispostas em falésias, celeiros e paredes falsas.

Para visitar o Fort de Chillon é cobrado preço cheio de 25 francos suíços (cerca de R$ 140). Vale dizer que o forte fica bem em frente a outro marco suíço, o Castelo de Chillon, e oferece paisagens cenográficas tanto para a fortaleza quanto para o Lago de Genebra.

Castelo de Chillon

Imperdível, o Castelo de Chillon é o edifício histórico mais visitado de toda a Suíça, segundo o órgão de turismo do país. Sair do Fort de Chillon e andar até o castelo é atividade que nos fornece lindas visões do entorno.

Não se sabe ao certo a data da fundação do local, mas há indícios de ocupação desde antes da Idade Média. Foi ao redor de 1214, porém, que se transformou em um vilarejo medieval com cerca de 27 salas. O que vemos hoje, na verdade, é o resultado de vários séculos de construção e remodelações.

E a atração já começa de fora: o castelo fica à beira do lago no sopé de uma colina. Durante séculos foi usado como ponto de controle de tráfego marítimo. Portanto, ele pode ser acessado por todos os lados através das águas.

Importante dizer que o local foi construído com função de defesa e pertenceu dos séculos 12 ao 16 aos Condes de Saboia. Depois foi conquistado pelos berneses e, em seguida, pelos vaudeses.

Portanto, podemos ver que seu interior não é tão adornado como um castelo real. Há várias janelas fechadas, típicas de fortalezas. O local também tinha prisão, onde ocorriam até execuções, em que ficava na parte subterrânea do castelo, parte em que o rochedo é visível.

Presente também na literatura, um poema de Lord Byron tem ligações com um prisioneiro e o castelo. François Bonivard, monge e político de Genebra, incitou o povo a revoltar-se contra a Casa de Saboia e ficou preso por quatro anos. A história inspirou a escrita do poema “O prisioneiro de Chillon”, de autoria de Byron, que tem até assinatura em uma das paredes.

Em seu interior podemos checar também a existência de uma adega que funciona desde o século 13, em que cada barril guardava cerca de 800 litros de vinho.

Para entrar no castelo é cobrada entrada de 13,50 francos suíços (cerca de R$ 75). Além da visitação, hoje ainda é possível sediar eventos em certas partes do castelo, como em salões e na parte externa.