Espanha além do óbvio: veja guia de regiões que não são lotadas de turistas

Turismo é um dos pilares da economia espanhola, respondendo por mais de 12% do PIB nacional

Fiona Govan, da CNN
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Nos últimos dois anos, o verão na Espanha tem sido marcado por protestos cada vez mais visíveis contra o turismo: turistas encharcados por moradores irritados armados com pistolas d’água em Barcelona, faixas nas Ilhas Baleares proclamando “Seu paraíso é o nosso pesadelo”… não faltam manchetes mostrando o desgaste de comunidades locais diante da enxurrada de visitantes na alta temporada.

O turismo é um dos pilares da economia espanhola, respondendo por mais de 12% do PIB nacional. Mas, em cidades onde navios de cruzeiro despejam multidões diariamente e aluguéis de temporada tipo Airbnb inflacionam os preços e empurram moradores para longe de suas casas, o excesso de turistas virou motivo de conflito.

Ainda assim, dificilmente os turistas deixarão de vir. Mais de 80% se concentram nas ilhas e no litoral mediterrâneo, principalmente no auge do verão, segundo Manuel Butler, diretor do Escritório de Turismo da Espanha em Londres.

 

Balneários como Benidorm, Lloret de Mar e Torremolinos foram moldados para o turismo ao longo de décadas e têm estrutura para receber multidões sem colapsar, explica Butler. Mesmo assim, ele diz que a Espanha está empenhada em diversificar os destinos.

“Temos a responsabilidade de liderar essa transição para um modelo mais sustentável, tanto do ponto de vista ambiental quanto social”, afirma. “Estamos incentivando os viajantes a descobrirem regiões menos conhecidas, ficarem mais tempo e, sempre que possível, evitarem os meses de pico.”

Para quem prefere fazer parte da solução e não do problema, a Espanha guarda cantinhos praticamente intocados pelo turismo de massa — lugares onde o visitante é visto com bons olhos e pode ter uma experiência mais autêntica.

La Rioja: vinho e muito mais

Uma das regiões menos visitadas por estrangeiros é La Rioja, no norte do país. Em 2024, foram apenas 180 mil visitantes, um número ínfimo perto dos 15,5 milhões que lotaram Barcelona. Um contrassenso, já que o nome Rioja é sinônimo de vinhos consagrados mundo afora.

No sopé dos Pirineus, La Rioja abriga mais de 500 vinícolas que cultivam uvas Tempranillo, Garnacha, Mazuelo e Graciano. Há desde pequenas bodegas familiares até nomes icônicos, todos abertos para tours e degustações.

Um exemplo é o Marqués de Riscal, uma verdadeira catedral do vinho, com hotel e adega desenhados por Frank Gehry — o mesmo do Guggenheim de Bilbao. Já a vinícola CVNE exibe caves projetadas pelo escritório de Gustave Eiffel, em 1909.

Mas Rioja vai além das taças. Haro e Logroño, cidades medievais separadas por apenas 40 minutos de estrada, encantam com ruas de pedra, igrejas centenárias e bares de tapas que servem delícias como patatas a la riojana (batatas com pimentões e chorizo) e costeletas de cordeiro assadas em ramos de videira.

Para quem curte história, a região tem mosteiros românicos como San Millán de Yuso e Suso, fundados ainda no século VI. E para os amantes da natureza, não faltam trilhas em paisagens que vão das serras rochosas da Demanda aos vales férteis cortados pelo Caminho de Santiago.

Um dos pontos altos é a Batalla del Vino, ou Batalha do Vinho: no último sábado de junho, a cidade de Haro vira palco de uma divertida guerra de vinho, com moradores vestidos de branco jogando 50 mil litros de tinto uns nos outros — de garrafas, baldes e pistolas d’água.

“Os locais têm orgulho de mostrar sua gastronomia e sua cultura ao mundo”, conta Jose del Moral, que aluga apartamentos para turistas na região.

Extremadura: história viva longe das multidões

Poucos turistas se aventuram por Extremadura, uma região sem litoral que faz fronteira com Portugal. Quem se arrisca, porém, encontra um tesouro histórico com três Patrimônios Mundiais da Unesco: Cáceres, Mérida e Guadalupe. Há também o Parque Nacional de Monfragüe, um paraíso para aves migratórias, o Geoparque Villuercas-Ibores-Jara e a Orellana Playa, a primeira praia de água doce da Espanha a receber Bandeira Azul.

Mesmo tendo servido de cenário para “Game of Thrones” — o Castelo de Trujillo virou Rochedo Casterly e Cáceres foi Porto Real — Extremadura ainda é um segredo bem guardado, até para muitos espanhóis.

Mérida abriga ruínas romanas preservadíssimas e, no verão, apresentações de teatro clássico no anfiteatro romano são um espetáculo à parte. Já Cáceres, com seu centro medieval murado, atrai apaixonados por gastronomia com restaurantes estrelados, como o Atrio, e novos bares de tapas que valorizam produtos locais como o queijo Torta del Casar.

Para completar, há o festival Womad todo mês de maio, além do Museu de Arte Contemporânea Helga de Alvear, que reúne obras de uma das maiores coleções privadas da Espanha.

Outro ponto imperdível é o Mosteiro Real de Santa María de Guadalupe, importante local de peregrinação, visitado até por Cristóvão Colombo para agradecer sua viagem às Américas.

“Os moradores muitas vezes nem percebem a riqueza que têm ao redor — natureza, tradição, história — e ficam surpresos, orgulhosos e felizes quando alguém de fora aparece para valorizar esse tesouro esquecido”, resume Martin Kelsey, que comanda uma casa de campo e organiza roteiros de observação de aves em Monfragüe, lar de uma das maiores colônias de abutres-negros do planeta.

O verde da costa norte

Se não quer abrir mão de uma praia, mas quer fugir do tumulto do Mediterrâneo, saiba que a costa norte da Espanha esconde faixas de areia quase intocadas por turistas estrangeiros.

O ideal é começar por Cantábria e seguir pela costa atlântica, passando pelas Astúrias até chegar à Galícia. O caminho é pontuado por penhascos dramáticos, enseadas escondidas, portos de pesca e extensas praias varridas por ondas perfeitas para surf.

“A costa norte é uma das minhas favoritas, especialmente no verão, já que as temperaturas costumam ser mais amenas”, diz Karen Rosenblum, do Spain Less Traveled, que ajuda viajantes a planejar roteiros mais conscientes.

A cultura e a gastronomia do norte são mundos à parte: experimente os percebes (cracas-do-pescoço) colhidos das rochas, queijos curados em cavernas e a sidra local, servida de um jeito único para aerar a bebida.

Aliás, o turismo rural virou prioridade na estratégia espanhola. Na Galícia, a rede Senderos Azules expande opções de trilhas além do já disputado Caminho de Santiago, com novas rotas costeiras e caminhos à beira-rio em A Coruña e Pontevedra.

El Hierro: a ilha mais “esquecida” — e sustentável

Enquanto Maiorca, Ibiza e Tenerife estampam notícias sobre excesso de turistas, a ilha de El Hierro, a menor e mais remota das Canárias, vem se destacando justamente pelo turismo sustentável.

“Queremos crescer no turismo, mas sem prejudicar a qualidade de vida dos moradores nem os recursos naturais”, explica Davinia Suárez Armas, responsável pelo turismo local.

Com acesso limitado — não há voos diretos fora do arquipélago —, El Hierro recebe basicamente aventureiros: em 2024, foram 26 mil visitantes, sendo só 4 mil estrangeiros. Para comparação, Tenerife recebeu 7,2 milhões.

El Hierro tem até metas de autossuficiência energética: no ano passado, chegou a ficar mais de um mês abastecida 100% por fontes renováveis. Com paisagens vulcânicas e florestas densas, abriga cerca de 100 espécies endêmicas, sendo reconhecida como Reserva da Biosfera pela Unesco.

Suas praias vão das pedras negras de Timijiraque às areias brancas de Arenas Blancas, mas o tesouro está mesmo debaixo d’água: a ilha é um dos melhores pontos de mergulho da Europa. Parapente, trilhas e ciclismo completam a lista de atividades.

Teruel: onde o tempo parece ter parado

Por fim, se quiser explorar um lugar realmente fora do radar, Teruel, no leste da Espanha, é uma joia escondida. Tanto que a população criou até um partido político — “Teruel Existe” — para lembrar ao resto do país que eles existem. E deu certo: em 2019, elegeram seu primeiro deputado.

Sem linhas de trem, o acesso é por estrada, atravessando horas de paisagens pontilhadas por vilarejos mouros, muralhas medievais e castelos em ruínas. Ali, caçar trufas é uma das tradições locais, assim como trilhas que levam a pegadas de dinossauros de 150 milhões de anos e cachoeiras perfeitas para banhos selvagens.

“Por aqui, o turista estrangeiro ainda é recebido como novidade. O turismo faz diferença para a economia local, mas não sufoca ninguém — pelo contrário, é bem-vindo”, conta Alasdair Grant, que transformou uma antiga fazenda fortificada em um refúgio de natureza no Parque Natural Els Ports, na divisa de Aragão, Catalunha e Valência.

“Você tem esse pedaço de Espanha praticamente só para si.”

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