Pinacoteca reúne 230 obras em mostra que revisita produção de Ismael Nery
Ligado ao modernismo brasileiro, Nery morreu em 1934 aos 33 anos e passou décadas desconhecido do público; agora, suas obras ocupam sete salas do edifício Pina Luz

Em cartaz até 31 de janeiro de 2027 na Pinacoteca de São Paulo, a exposição "Ismael Nery: Armadilha moderna" revisita a produção do artista paraense Ismael Nery, uma das figuras mais peculiares do modernismo brasileiro, que faleceu precocemente aos 33 anos, em 1934. A mostra reúne 230 obras, que estão espalhadas em sete salas do primeiro andar do edifício Pina Luz.
A exposição reúne desenhos, pinturas, retratos e autorretratos e oferece uma boa oportunidade para conhecer de perto a obra de Nery. Durante décadas, sua produção permaneceu restrita a coleções privadas e ao círculo de amigos próximos, longe dos museus, das escolas e da crítica especializada. O reconhecimento público começou a ganhar força em 1965, quando um núcleo de seus trabalhos foi incluído na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo.
A produção do artista é marcada por composições com figuras humanas sensuais, muitas vezes de aparência andrógina. Afeto, violência, desejo e finitude são temas recorrentes de sua obra, em que o corpo aparece como objeto de investigação de identidade, fusão entre os gêneros e os limites de espaço e tempo. Referências à ilustração, ao cubismo e ao surrealismo se destacam nos trabalhos, incorporados a uma linguagem própria.
"Somos atraídos pela figura de um pintor isolado e atormentado, distante dos debates do modernismo brasileiro. A morte anunciada, os corpos mutilados, a religiosidade, a fusão entre masculino e feminino e o desejo de destruir a própria produção parecem ajustar-se com tal perfeição que vida e obra passam a explicar uma à outra", explica Yuri Quevedo, curador da Pinacoteca e responsável pela exposição.
Um artista à margem
Apesar de trabalhar com formas modernas, Nery se distanciou de temas nacionalistas e da construção de uma identidade brasileira, vertentes ligadas à Semana de Arte Moderna de 1922. Em vez disso, seus personagens aparecem em cenários imaginários, sem referências reconhecíveis a paisagens do país. Sua atenção foca na figura humana, ponto de partida para representações subjetivas e simbólicas.
Algumas de suas obras mais importantes estão reunidas na exposição. É o caso de "Dois irmãos" (1927), em que o rosto do artista e o de sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery (1905–1980), aparecem sobrepostos, como se fossem um único organismo espiritual.
Em outras pinturas, Nery desestrutura a anatomia de figuras humanas. Em "Visão Interna – Agonia" (1931) e "Eternidade" (1931), por exemplo, o corpo aparece aberto, fragmentado e mesclado à paisagem e à terra.
Nascido em Belém (PA), em 1900, Nery mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos nove anos. Foi na capital fluminense que morreu, aos 33 anos, em decorrência de tuberculose. Pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, ilustrador e poeta, estudou como aluno livre na Escola Nacional de Belas Artes e passou pela Académie Julian, em Paris.
Em viagens pela Europa, entrou em contato com expoentes do surrealismo e do cubismo, como André Breton e Marc Chagall. Nos anos 1920, desenvolveu o Essencialismo, uma espécie de doutrina que propunha deixar de lado as noções convencionais de tempo e espaço para explorar, por meio da arte, as diferentes dimensões do "eu".
Para Nery, a arte era uma jornada de transformação e de investigação espiritual. Por isso, costumava descartar desenhos e pinturas depois de concluí-los. Grande parte de sua obra só chegou até os dias de hoje graças ao poeta Murilo Mendes (1901–1975), amigo do artista, que resgatou, catalogou e preservou seus trabalhos.
"Ismael Nery: Armadilha moderna"
Pinacoteca de São Paulo; Edifício Pina Luz, 1º andar; Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo - SP / De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h) / Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia); ingresso único com acesso aos três edifícios / Entrada gratuita aos sábados e no 2º domingo do mês / Mais informações no site.
O que ver na Pinacoteca além de Ismael Nery
Na Pina Luz, a mineira Luana Vitra apresenta até janeiro de 2027 "Bandeira Branca", instalação inédita criada para o Octógono que parte das terras raras para discutir extrativismo, colonialismo e geopolítica. No mesmo edifício, "trágico subúrbio" reúne mais de 50 pinturas do carioca Paulo Pedro Leal (1894–1968), artista autodidata que retratou conflitos, paisagens, cenas urbanas, ritos de umbanda e episódios de violência no Rio de Janeiro. A exposição segue até 8 de novembro.

No edifício Pina Estação, próximo à Estação Júlio Prestes e à Sala São Paulo, segue em cartaz até março de 2027 uma exposição de 27 gravuras da Beatriz Milhazes, uma das artistas brasileiras mais importantes do cenário artístico contemporâneo. O conjunto evidencia elementos recorrentes de sua obra, como cores vibrantes, formas geométricas, flores, arabescos e referências à arte têxtil brasileira.
E ainda dá tempo: até 13 de setembro, "Macunaíma é Duwid" fica em cartaz na Pina Estação, onde estão reunidas cerca de 100 pinturas, gravuras, esculturas e documentos que aproximam a obra de Mário de Andrade da produção de artistas indígenas contemporâneos. Até a mesma data, na Pina Contemporânea, a artista visual Alice Yura apresenta "Um Ato Fotográfico", que investiga fotografia, arquivo, memória, ancestralidade, imigração e identidade a partir de ensaios autorais. Um estúdio instalado no espaço convida o público a produzir suas próprias imagens.


