Rodovia na Escócia vira pesadelo turístico após viralizar nas redes sociais

Como ação promocional, a North Coast 500 foi um golpe de mestre — talvez até demais

Angus MacKinnon, da CNN
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Na primavera passada, quando apontei meu carro para fora de Inverness para iniciar um circuito pela costa rochosa do norte da Escócia, eu esperava problemas. Dez anos antes, quando a North Highland Initiative — uma entidade beneficente criada sob o patrocínio do então príncipe Charles — rebatizou o percurso como North Coast 500 e passou a promovê-lo entre turistas, eu duvidava que daria certo.

Apoiava qualquer esforço para atrair visitantes a uma parte negligenciada do meu país natal, mas transformar as estradas esburacadas das Terras Altas do Norte em um destino desejável parecia forçar a barra.

Naquela época, a ideia de fazer esse trajeto trazia à tona lembranças de meio século antes — eu e meus irmãos enjoados espremidos dentro de uma perua Ford enferrujada, cruzando intermináveis trechos de charnecas monótonas. Também enfraqueciam meu entusiasmo as lembranças das comidas sofríveis que experimentei nos meus 20 e poucos anos, ao apresentar a região à minha então namorada.

Ela viera da Inglaterra esperando lagostins frescos saltando das armadilhas e carne de cervo abatido no campo, sobre uma cama de urze roxa. Mas, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, ela quase sempre teve que se contentar com camarões empanados e ervilhas congeladas, servidos com um fio de molho tártaro saído de um sachê de plástico.

 

 

Mesmo assim, a ideia de transformar essas estradas e pousadas familiares em cenário de viagens épicas de carro funcionou. Como ação promocional, a North Coast 500 foi um golpe de mestre — talvez até demais.

Graças à alquimia do marketing e das redes sociais, o circuito de 516 milhas (830 quilômetros), que começa e termina na cidade de Inverness, virou uma peregrinação irresistível e perfeita para o Instagram, atraindo gente do mundo todo e sobrecarregando uma região envelhecida e pouco povoada, com estradas despreparadas para receber tantos visitantes.

Moradores começaram a perder a paciência: motorhomes engarrafando estradas de mão única, churrasqueiras descartáveis queimando campos à beira-mar, e banheiros a céu aberto por toda parte. Dez anos após sua criação, a NC500 virou um exemplo clássico de turismo excessivo.

No fim do ano passado, o guia Fodor’s Travel incluiu a rota na sua “No List” de 2025 — destinos a evitar — alegando que sua popularidade passou a ameaçar o meio ambiente e a incomodar comunidades locais.

Mas será que tudo foi mesmo tão ruim? Ao percorrer a rota, preparado para encontrar um cenário devastado pelo turismo, o que descobri foi tanto uma defesa dessa viagem de carro tão criticada quanto uma análise de seus impactos negativos.

Nenhum centímetro de asfalto foi reformado para transformar a NC500 em fenômeno digital. As estradas continuam praticamente iguais às de décadas atrás, antes de a North Highland Initiative decidir promovê-las como destino — ou desafio — em si.

Ainda assim, o trajeto rebatizado capturou a imaginação de escritores de viagem, e o número de visitantes logo começou a subir. Todos pareciam elogiar a rota. Ninguém mencionava as nuvens de mosquitos que atormentam a costa oeste da Escócia no verão.

Com a boa publicidade crescendo ao longo dos anos, comecei a me sentir tentado a revisitar lugares com nomes tão evocativos quanto Durness, Ullapool e Applecross. A pandemia da covid atrasou esse plano e, quando o Reino Unido saiu dos lockdowns, a imagem da NC500 já havia mudado.

Os idealizadores queriam mostrar uma Escócia com águias-pesqueiras sobrevoando enseadas secretas e areias que cantam. Mas o que se vê hoje são montinhos de lenços umedecidos sujos, cobrindo fezes de campistas selvagens sem acesso a banheiros.

Quando Richard e Jane Alcorn se mudaram há sete anos para Thurso, no extremo nordeste da Escócia, para abrir um bed and breakfast, a proximidade com a NC500 foi um dos motivos da escolha. A decisão rendeu frutos, com crescimento constante de hóspedes no aconchegante Aurora B&B, mas Richard entende por que alguns moradores passaram a desgostar da rota.

“A ideia original era que as pessoas viessem de carro, se hospedassem em acomodações locais, comprassem em restaurantes e usassem serviços da região. Era uma proposta admirável, e sentimos os benefícios disso”, disse ele.

“Mas depois do segundo lockdown, mais gente começou a buscar férias de graça. Cada vez mais trailers e vans estacionadas em acostamentos, tentando economizar. É compreensível que os moradores se irritem com vans paradas diante da janela da sala — e ainda sejam xingados quando pedem para que se mudem.”

Milhares de pessoas se inscreveram em grupos no Facebook dedicados a denunciar esse tipo de comportamento. A reação negativa ganhou força. Também aumentaram as críticas à passagem da marca NC500 do patrocínio real para mãos privadas: desde 2018, a North Coast 500 Ltd pertence ao bilionário dinamarquês Anders Holch Povlsen, maior proprietário de terras da Escócia.

Pensei nisso quando, num domingo chuvoso de fim de abril, saí para a viagem com um velho amigo de escola. A primeira parada foi Dingwall, pequena cidade ao norte de Inverness, em uma região agrícola fértil que me lembro da infância como o lar bem-cuidado de uma tia e um tio.

As opções para o almoço eram escassas, e o que mais chamava atenção na rua principal era a fachada abandonada e decadente do antigo bar Commercial, lembrança de tempos melhores desde que a cidade foi fundada como Burgh Real pela Coroa Escocesa, há exatos 999 anos. Pensei: um pouco de overtourism talvez não fosse o pior que poderia acontecer por aqui — e não seria a última vez que eu teria esse pensamento.

Nos dois primeiros terços da viagem, enxergávamos a paisagem por um para-brisa embaçado e limpadores no máximo — sem sinal de turistas incômodos. Havia muitas vans nas estradas, mas era cedo demais para os congestionamentos e ambulâncias bloqueadas que os grupos do Facebook me fizeram temer. Em quatro dias, só ficamos presos atrás de um veículo uma vez — um caminhão de entregas de supermercado, claramente perdido.

O turismo costuma ser bode expiatório para problemas que não causou e que não pode resolver, pensei, ao chegarmos ao restaurante e pousada Old School, às margens do Loch Inchard, na costa noroeste de Sutherland. Como muitos estabelecimentos da NC500, o lugar opera com alta rotatividade: seis quartos, quase todos ocupados e desocupados diariamente. Os hóspedes devem chegar entre 16h e 18h, jantar entre 18h e 20h, tomar café até às 9h e partir às 10h.

Esse modelo pode dar a sensação de que “correria regimentada” substituiu o “rústico e acolhedor” como definição da hospitalidade nas Terras Altas. Mas bastaram algumas taças de vinho tinto e um ensopado de cervo local para dissipar meus receios — o tipo de refeição que eu e minha namorada só podíamos sonhar décadas atrás.

Na manhã seguinte, a dona do Old School, Lisa MacLeod, compartilhou sua visão sobre os impactos da NC500, começando por um aspecto muitas vezes esquecido no debate sobre prós e contras do turismo: o prazer proporcionado a quem talvez nunca visitasse o lugar de outra forma — e o orgulho que isso gera em quem recebe.

“Obviamente, há pontos negativos, mas, no geral, todas essas pessoas têm a chance de ver uma parte incrível do mundo que provavelmente nunca conheceriam”, disse ela.

Embora a NC500 tenha impulsionado seu negócio sazonal, MacLeod lembra que seria ingênuo esperar que apenas o turismo resolvesse grandes problemas, como o êxodo de jovens em busca de oportunidades — ou de agito — em outras regiões.

“A maioria das pessoas daqui trabalha offshore, na indústria do petróleo, ou em fazendas de peixes, que atraem muitas famílias jovens”, disse. “Os hotéis e B&Bs não são o que mais gera dinheiro.”

Após um tradicional café escocês, partimos para avistar papagaios-do-mar, skuas e mergulhões-de-garganta-branca na ilha de Handa. Pela primeira vez na viagem, o sol apareceu, iluminando as baías da reserva com tons azul-turquesa dignos do Caribe.

Horas depois, chegamos famintos à vila costeira de Scourie. E bem a tempo: no fim de um dos pequenos lotes agrícolas inclinados, os crofts, fica o tipo de restaurante escocês que eu imaginava há décadas.

Ao nos aproximarmos do food truck Crofters Kitchen, de Grant e Heather Mercer, vimos clientes satisfeitos nas mesas de piquenique e Heather atualizando o quadro de pratos do dia. Grant, um chef de 33 anos com 17 de experiência, havia acabado de receber um linguado selvagem de um pescador local — e poucas horas após ser pescado, o peixe já estava no cardápio.

Era exatamente isso que o casal imaginava ao abrir o negócio: passar mais tempo juntos em família, aproveitando a demanda gerada pela NC500 para oferecer pratos sazonais e com ingredientes locais — algo ainda raro por ali.

O linguado, grelhado à perfeição e servido com massa orzo em pesto de alho selvagem, foi uma das melhores refeições da minha vida na Escócia. Esperei muito por isso! Enquanto comíamos, o filho de 15 meses do casal brincava por perto. Com os cabelos loiros, me lembrou meu primogênito nessa idade. A mãe dele — minha antiga namorada — morreu subitamente há 20 anos, e senti uma pontada de tristeza por ela não estar ali.

Assim como a NC500, o Crofters Kitchen celebrava um aniversário: completava um ano, com avaliações cinco estrelas e planos para a próxima fase da aventura “da horta ao prato” — transformar um contêiner em área interna para refeições o ano todo, com apoio de um subsídio do governo.

“Além de pescar localmente, cultivamos muitos vegetais e compramos saladas de outros crofters, além de porco e cervo caçados em suas terras, que eu mesmo ajudo a cortar”, contou Grant.

“O contêiner vai permitir que a gente funcione quase o ano todo — ótimo para os moradores no inverno, quando quase tudo fecha. O restaurante chinês mais próximo fica em Ullapool, a 45 minutos daqui.”

Sei, por experiência própria, que infraestrutura nas partes mais remotas da Escócia não se resume a vagas de estacionamento ou estradas boas. Um fluxo constante de visitantes pode ser a diferença entre uma loja com prateleiras vazias e outra cheia de opções inesperadas.

Como Grant ressalta, cada linguado entregue ali é um peixe a menos sendo exportado — uma mudança econômica que equilibra o impacto turístico com os custos ambientais da pesca globalizada.

Seguindo no sentido anti-horário, como fizemos, o trecho ao sul de Scourie é o mais deslumbrante da rota.

Muito antes da criação da NC500, as montanhas de Assynt e a península de Applecross já eram destino de clubes de carros clássicos. Era fácil entender por quê, enquanto cruzávamos corniches sinuosas ladeadas por flores douradas de tojo sob o sol. Um Aston Martin de James Bond cairia bem nessa paisagem, mas até no meu Volvo amassado, me sentia como num comercial de relógios de luxo.

Esses trechos têm belezas naturais tão marcantes que me fizeram pensar em como o conceito da NC500 também ajudou a atrair visitantes para áreas vizinhas menos favorecidas. E por que não foram invadidas por turistas antes? Se tivessem sido, talvez a infraestrutura hoje pressionada já estivesse atualizada.

Os dados sobre os impactos econômicos da NC500 são imprecisos e contestados, mas a maioria dos analistas concorda que a rota aumentou o número de visitantes nas Highlands (de 5,1 milhões em 2012 para 8,4 milhões em 2023, segundo o conselho local), enquanto os gastos tiveram um crescimento proporcionalmente menor: de £1,38 bilhão para £1,68 bilhão no mesmo período (cerca de R$ 10 e R$ 12,2 bilhões).

VisitScotland, o órgão nacional de turismo, afirma que a NC500 elevou o perfil internacional da região e trouxe benefícios econômicos locais. “A visibilidade global trouxe desafios, e sabemos que é preciso equilibrar os ganhos do turismo com o bem-estar das comunidades”, disse um porta-voz, destacando iniciativas para distribuir o turismo ao longo do ano, estimular estadias mais longas e cobrir lacunas de infraestrutura.

Desde 2018, a VisitScotland distribuiu £20 milhões (cerca de R$ 146,3 milhões) por meio de um fundo do governo para desenvolver infraestrutura turística rural — incluindo projetos ao longo da NC500, como estacionamentos, banheiros públicos e estruturas para motorhomes.

Mas tais esforços ainda não convenceram os céticos de que é possível mitigar os problemas da rota sem reduzir o número de turistas. Para os especialistas do Fodor’s, os impactos do turismo excessivo são tão graves que já “estão mudando a cultura da região”, enquanto o New York Times publicou: “Você deve fazer a ‘viagem de carro definitiva’ da Escócia? Os moradores dizem que talvez não.”

Minha viagem não me convenceu disso — especialmente considerando que cerca de um em cada sete empregos na região depende do turismo. E mesmo que seja verdade que a cultura das Highlands esteja sendo remodelada pela mão invisível do turismo, será que isso é necessariamente ruim?

Nosso hotel final ofereceu uma resposta parcial. Foi o único que encontrei num raio de 50 km com dois quartos individuais por menos de US$ 200 (R$ 1.095). Fiquei desanimado ao chegar — o bar do hotel era um antro sombrio, um retrato das dificuldades de saúde pública da Escócia.

No minúsculo quarto, reparei nos lençóis de poliéster e no carpete desgastado, mas não percebi que acordaria ao amanhecer por falta de cortinas.

Mais tarde, num restaurante mais agradável, encontramos um ex-gerente do hotel e conversamos, em tom bem-humorado, sobre a falta de sofisticação do lugar.

“É meio caidinho, né?”, comentei. “Mmm”, respondeu ele. “Você devia ver quando os pescadores chegam.”

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