Uma viagem por Lavaux e Gruyères, onde terraços de vinhedos e a tradição do queijo se encontram na Suíça

Paisagens alpinas marcadas pelo Lago de Genebra e castelo medieval na região onde se faz um dos mais deliciosos queijos do mundo são parte da Suíça Francesa

Daniela Filomeno no Castelo de Gruyères, construção do século 13 na região que faz um dos queijos mais gostosos do mundo
Daniela Filomeno no Castelo de Gruyères, construção do século 13 na região que faz um dos queijos mais gostosos do mundo CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Gruyères, Suíça

Para além de picos nevados, estâncias de esqui e vilarejos encravados entre montanhas e lagos com patrimônios mundiais da Unesco, a Suíça foi uma verdadeira descoberta por novos sabores e cenários.

E a Suíça Francesa, parte francófona do país europeu, ajudou – e muito – nesta tarefa. Entre castelos, fortes e calçadões à beira do Lago de Genebra, as cidades de Vevey e Montreux me apresentaram joias medievais bem conservadas. Não muito longe dali, porém, um mundo de vinhos e queijos se abriu diante de mim.

Último destino da quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia, a Suíça me surpreendeu com a qualidade de seus vinhos vindos da região de Lavaux, não muito falados e encontrados pelo Brasil. Temos amplo conhecimento e variados exemplares dos vinhos franceses, italianos e portugueses, mas a Suíça também se mostrou no páreo com os países vizinhos.

Junto disso, uma das outras identidades que formam a cultura suíça fez com que eu salivasse e descobrisse um pouco mais de seus métodos de produção: o queijo Gruyère. O exemplar verdadeiro vem da região de mesmo nome, que ainda nos presenteia com um castelo medieval e panoramas dignos de cinema.

No meio do caminho, até museu e bar com tema do filme “Alien”, de 1979, foi uma das atividades mais aleatórias e impressionantes que fiz. A Suíça foi – e continua sendo – deste jeito: uma boa descoberta a cada cantinho.

De Vevey para os vinhedos de Lavaux

Terraços de vinhedos ladeiam Lago de Genebra em Lavaux / Pixabay

Acima do Lago de Genebra, desde o Castelo de Chillon até a ponta leste da cidade de Lausanne, está Lavaux, uma região que se estende por cerca de 30 km onde descansam belos terraços de vinhedos.

Os cenários são para lá de pitorescos: os desníveis dos terrenos de vinhas com o Lago de Genebra ao fundo formam a maior área contígua de vinhedos de toda a Suíça e criam um panorama digno de deslumbramento.

No total, são cerca de 800 hectares de vinhedos, em que os terraços atuais remontam ao século 11. Não à toa Lavaux foi declarada Patrimônio Cultural Mundial da Unesco em 2007, em que a agência destaca a interação secular entre as pessoas e o ambiente na produção de um “vinho altamente valorizado e sempre importante para a economia”.

São três fatores que ajudam na elaboração dos vinhos daqui: o sol, a influência do Lago de Genebra e o calor emitido pelas paredes de pedra durante a noite. A uva emblemática da região é a Chasselas, de casta branca que resulta em um vinho seco.

Cerca de outras 30 cepas também se fazem presentes pelos terraços, em menor quantidade, claro, mas que envolvem até Pinot Gris e as tintas Pinot Noir, Gamay, Gamaret e Garanoir.

Como chegar em Lavaux

A região de Lavaux fica entre Lausanne e Vevey, na margem norte do Lago de Genebra, em que ambas são portas de entrada para a região vinícola. Assim, Lavaux é servida por rodovias e por ferrovias – trens rápidos e trens locais são recomendados para aproveitar as paisagens e se locomover facilmente entre vilarejos menores.

Há trens rápidos que margeiam o lago com paradinhas em diferentes vilas de Lavaux, assim como há uma alternativa mais fácil para quem, assim como eu, quer sair a partir de Vevey.

É o Train des Vignes, que liga Vevey a Puidoux-Chexbres, trem que serpenteia as vinhas e o lago, ligando um destino a outro em no máximo 30 minutos e nos garantindo cenários incríveis.

O que fazer em Lavaux

Caminhadas e passeios de bike entre vinhedos e vinícolas são atividades recomendadas em Lavaux / CNN Viagem & Gastronomia

Não é necessário elencar muitos motivos para visitar Lavaux além de seus visuais incríveis e todo o apelo do vinho. Caminhar pelos vinhedos e terraços é por si só um passeio memorável.

Mas há uma maneira ainda mais especial de conhecer a região: em cima de duas rodas. O passeio Wine and Ride proporciona que conheçamos vilas medievais e vinícolas enquanto pedalamos por um circuito personalizado.

São vários circuitos que podem ser desfrutados em três temas, que abrangem os vinhos e a gastronomia; a história e os trabalhos manuais pela área.

Também é possível escolher a duração da atividade: é possível ter um programa ao longo do dia todo, das 8h50 às 18h, com direito a quase 40 km de andança e almoço; ou ainda experiência de 4 a 5 horas, que cobre até 20 km de pedaladas pela região. Os valores mudam conforme as opções de passeios.

Com a Wine and Ride, a primeira paradinha que eu e a equipe do CNN Viagem & Gastronomia fizemos foi na Docteur Gab’s, cervejaria na comuna de Puidoux. Interessante é que Lavaux é uma região de vinhos, mas as cervejas artesanais também se fazem presentes por toda a Suíça.

Como me explicou Guillaume Chièze, um dos proprietários da Wine and Ride, o vinho é mais divulgado, mas a cerveja é campeã em quantidade. Assim, a Dr. Gab’s tem rótulos divertidos e também exemplares sem álcool que capricham no sabor – há até uma cerveja chamada Ipanema, uma India Pale Ale com aroma de frutas tropicais.

Da cervejaria seguimos para uma degustação de vinhos. Na pequenina comuna de Rivaz está a Domaine Chaudet, vinícola familiar que desde 1912 tem vinhas espalhadas pelas denominações da região, como Lavaux, Chardonne, Saint-Saphorin, Rivaz e Dézaley.

Ao lado do Titouan Chaudet, winemaker da casa e quinta geração da família no comando, experimentei um vinho de uva Chasselas muito típico de Saint-Saphorin. Era uma safra 2021 – a intenção é tomá-lo ainda jovem – que passou por duas fermentações para diminuir a acidez, o que resultou em uma bebida seca, fresca e mineral.

“Somos conhecidos pela Chasselas, que é um tipo de uva branca. É seco e fresco, muito fácil de beber. Cerca de 75% de Lavaux é apenas Chasselas e aí nós temos outras cepas, cepas francesas também, Pinot noir, Gamay, mas principalmente Chasselas”, disse Titouan.

Há outros vinhos que seguem uma linha leve e delicada, como o que mistura Pinot Noir e Gamay, mas também cepas suíças menos conhecidas, como Gamaray e Gamanoir. Resumindo: o mundo dos vinhos suíços foi uma descoberta para lá de extraordinária que fiz durante a passagem no país europeu.

Vale destacar que além do Wine and Ride e das paradinhas nas vinícolas e terraços por conta própria, há ainda passeios aos domingos entre os meses de maio a outubro ao lado de guias qualificados com duração de 2h30, em que é possível aprender mais sobre o local, a história e os vinhos por cerca de 29 francos suíços (R$ 160).

Dos vinhos para o queijo: a região de Gruyère

Além de adentrar os mundos dos vinhos suíços, confesso que minha expectativa estava altíssima para ir para Gruyères, cidade medieval na região de Gruyère, que dá nome também ao delicioso queijo mundialmente conhecido – e um dos meus prediletos.

Não muito longe de Lavaux e facilmente acessada de trem e carro, o entorno tem paisagens pitorescas e é lar de vacas pretas e brancas que fornecem o leite para o queijo Gruyère. A pequena cidade medieval é adornada pelo castelo de mesmo nome, rodeado por uma muralha fortificada, e é um dos 23 destinos mundiais escolhidos pela CNN internacional para se viajar neste ano.

Sem delongas, uma das primeiras tarefas a se fazer na cidadezinha é escolher um dos restaurantes que servem as mais apetitosas especialidades regionais, entre elas fondue, raclette e também sobremesas feitas com o queijo Gruyère. É para se deliciar direto da fonte!

Castelo de Gruyères

Mas Gruyères não é só queijo: o castelo medieval do século 13 rodeado por uma muralha no topo de uma colina verdejante é imperdível na região. Foi a principal residência dos condes de Gruyère, importante família nobre da Suíça, durante a Idade Média.

Um dos castelos mais conhecidos do país, o local tem uma história abastada, já que sempre foi habitado ao longo dos séculos. Interessante é que o castelo era uma fortaleza e ao longo do tempo transformou-se em residência.

Prova disso é que os cômodos do século 19 já são bem mais ornamentados do que o restante da propriedade, já que foi o período em que as famílias Bovy e Balland se estabeleceram por aqui e passaram a receber amigos artistas para pintar e ajudar no décor.

Um dos cantinhos mais especiais é a Sala dos Cavaleiros, onde vemos a evolução da decoração e das obras de arte. Curioso é que o castelo era uma residência privada ainda no século 19, mas já era possível visitá-la.

Filipe dos Santos, atual diretor do castelo, me contou que guias turísticos da Alemanha e da França já falavam dessa sala, criada por Daniel Bovy, que contém os contos de Gruyères, indo da fundação até a grande batalha de Morat, de 1476, evento histórico famoso na região em que mais de dez mil soldados morreram.

As pinturas na Sala dos Cavaleiros misturam lendas e fatos para contar a vida de 20 condes que moraram no castelo. Também é possível visitar uma torre de defesa que foi transformada em capela, cheia de janelas adornadas e onde fica o único retrato de um dos condes de Gruyères na propriedade.

As vistas de cima do castelo são um capítulo à parte: vemos todo o jardim, criado pelos Bovy e Balland à moda francesa. E não se importe com a névoa caso apareça no dia: ela deixa tudo com um ar ainda mais romântico.

O ingresso sai por 12 francos suíços (cerca de R$ 65) e dá acesso ao castelo, ao jardim e às exposições temporárias – é possível ainda combinar o ingresso com outros museus por alguns francos suíços a mais.

HR Giger Bar Museum: surpresa em Gruyères

Apesar de paisagens cinematográficas, com direito a castelo, lago e centrinho antigo, Gruyères é lar também de um bar e museu um tanto quanto inusitado.

O artista suíço H.R Giger foi o responsável pela caracterização da criatura principal no filme ganhador do Oscar “Alien”, de 1979, e hoje é homenageado com uma mistura de bar e museu todo ornamentado seguindo o modelo original do longa-metragem.

Aberto em 2003, o local foi criado pelo próprio artista com teto, paredes, pisos, acessórios, mesas e cadeiras modelados no estilo do ambiente biomecânico do filme. Confesso que foi uma das atividades mais aleatórias que fiz na Suíça, já que vale a passada pelo apelo curioso.

O queijo

Por fim, não poderia deixar de acompanhar o processo de se fazer um verdadeiro queijo Gruyère diretamente na área em que ele nasceu para ter uma dúvida sanada: o que faz o queijo Gruyère ser tão especial?

Da cidade de Gruyères fui até Bulle, comuna na região de Gruyère que não é turística, e por isso apresenta uma atmosfera mais residencial.

A breve estadia na cidade também foi um convite para apreciar uma refeição em uma brasserie, a Tonnelier, de 1780. Já que estamos na Suíça Francesa, nada melhor do que um vinho do Vale do Rhône e um steak tartar para terminar a noite.

O outro dia começou cedo: madrugamos para acompanhar o leite fresquinho que chegaria à Fromagerie de Gumefens-Avry, uma das queijarias especiais deste pedaço do país. Mesmo que pequena, o nível de técnica, a automação na medida certa e o feeling de uma família passado de uma geração à outra foram pontos que me surpreenderam.

Junto do mestre queijeiro Gregory Maisonneuve, pude ver de perto toda a produção e entrar na sala de maturação, onde queijos de diferentes semanas descansavam nas prateleiras e formavam um degradê.

Por fim, perguntei ao mestre queijeiro: o que faz do Gruyère um Gruyère?

“A primeira coisa é um leite de qualidade, a segunda é o savoir-faire, ou seja, o know-how do queijeiro para produção do queijo e fabricação. Depois do savoir-faire partimos para a maturação”, disse Gregory. “O ponto forte da AOP Gruyère (denominação de origem protegida) é que toda a cadeia de produção tem um objetivo só: a qualidade do queijo”.

Para tanto, as regras são exigentes e envolvem desde a criação do animal até o processo de produção e maturação. Essa vigilância e preocupação faz com que ele seja um dos melhores e mais desejados queijos da Suíça.

Uma vez na queijaria, é muito interessante vermos que, mesmo com máquinas, muito do resultado depende da mão do mestre queijeiro, já que ele sente o queijo, sua estrutura, e leite, uma vez que ele pode mudar a cada dia.

Depois dessa verdadeira aula, fomos para uma das melhores partes da experiência: a degustação. A tábua veio cheia de queijos, em que há até um gruyère considerado doce, em que é maturado por seis meses – o período faz com que ele vá perdendo água e ficando também cremoso. É um perfeito equilíbrio que me lembra um gostinho da própria Suíça.

Para mim, a experiência ao redor do país foi assim: queijos, chocolates e vinhos rodeados por montanhas, lagos, vilarejos e muita história. Fica o gostinho de quero mais.