2º trimestre terá cenário adverso para compra de fertilizantes

Fatores como redução da produção e tensão no Estreito de Ormuz elevam custos e alteram padrão de mercado, que tradicionalmente é mais favorável no período

Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
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O segundo trimestre de 2026 deve apresentar condições menos favoráveis para a compra de fertilizantes, contrariando o padrão observado em anos anteriores. 

“A combinação entre redução temporária da produção em alguns países, entraves logísticos no Estreito de Ormuz e a forte escalada de preços observada após os episódios de tensão militar diminuiu de forma significativa a probabilidade de o segundo trimestre se consolidar como um momento favorável para compras”, afirma Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.

Em cenários de maior estabilidade geopolítica, a sazonalidade da demanda em grandes mercados importadores, como Brasil e Índia, tende a reduzir a pressão por compras nesse período, contribuindo para a queda dos preços e favorecendo negociações para o segundo semestre. 

Em 2026, no entanto, esse comportamento foi alterado por fatores como redução temporária da produção em alguns países, entraves logísticos no Estreito de Ormuz e elevação dos preços após episódios de tensão militar.

Para o analista, a normalização ampla do mercado tende a ser lenta. À medida que o ano avança, compradores que necessitam de insumos para o segundo semestre terão cada vez menos espaço para adiar decisões, tornando inevitável a realização de negociações, ainda que para volumes menores e a preços pouco atrativos.

Contextos globais

No segmento de fertilizantes nitrogenados, caracterizado por maior volatilidade, a reabertura parcial das rotas no Estreito de Ormuz pode permitir ajustes pontuais nos preços ao longo dos próximos meses. 

“A normalização parcial das rotas é um fator positivo, mas há baixa expectativa de que as condições logísticas retornem rapidamente aos níveis pré-conflito. Mesmo com algum alívio nos preços, gargalos como atrasos, contratos represados e baixa disponibilidade de navios devem seguir sustentando as cotações”, explica Pernías.

Dados de uma pesquisa do Farm Bureau, realizada entre 3 e 11 de abril com mais de 5.700 agricultores nos Estados Unidos, indicam impacto no poder de compra dos produtores. Cerca de 70% dos entrevistados afirmaram não ter capacidade financeira para adquirir todo o volume necessário de fertilizantes. Entre o início das tensões no Oriente Médio e a primeira semana de abril, os preços FOB da ureia em barcaças em Nova Orleans registraram alta de aproximadamente 47%.

O levantamento também aponta diferenças regionais. No Sul dos Estados Unidos, 19% dos produtores relataram compras antecipadas, enquanto no Nordeste esse percentual foi de 30%. A prática de aquisições próximas ao período de aplicação aumenta a exposição à volatilidade de preços e ao risco de restrições no acesso aos insumos. Entre as culturas, algodão e arroz apresentam os menores níveis de compra antecipada.

Segundo a StoneX, o quadro financeiro dos agricultores ajuda a explicar essa postura mais cautelosa, com aproximadamente 94% dos entrevistados relatando que sua situação financeira piorou ou permaneceu inalterada em relação ao ano anterior. O quadro influencia, assim, não apenas as decisões de compra, mas também os níveis de aplicação e até a definição das áreas plantadas, avalia a consultoria.

No mercado de fosfatados, a oferta global permanece limitada, influenciada por dificuldades de escoamento da produção em países do Oriente Médio, manutenções industriais no Marrocos e incertezas sobre exportações chinesas. Além disso, custos elevados de matérias-primas, como amônia e enxofre, restringem a possibilidade de redução significativa dos preços.

Já no segmento de potássicos, especialmente o cloreto de potássio (KCl), as condições de aquisição são consideradas relativamente menos restritivas em comparação com ureia e fosfato monamônico (MAP). 

“As chances de que o segundo trimestre ofereça um ambiente realmente atrativo para compras de potássicos também diminuíram. Embora as relações de troca devam permanecer melhores do que em outros mercados, isso está longe de representar condições ideais”, pontua Pernías. No radar do setor estão ainda as negociações de contratos de longo prazo, como o da Índia, que definem referências internacionais de preços e costumam limitar aquisições a valores inferiores aos praticados em China e Índia.