"Decisão sobre frango e mel sai nas próximas semanas", diz comissário da UE

Decisão ocorre após auditoria positiva em sistemas de controle sanitário mas carne bovina precisará de até dois anos para voltar ao mercado europeu

Fernanda Pressinott, da CNN Brasil, São Paulo
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A União Europeia sinaliza que as exportações brasileiras de frango e mel podem ser retomadas nas próximas semanas, depois de uma auditoria que considerou satisfatórios os controles adotados pelo Brasil, conforme adiantado pela CNN. Já a carne bovina deve enfrentar um processo mais longo, que pode levar cerca de dois anos, devido às exigências europeias de rastreabilidade e controle de antimicrobianos.

A avaliação foi feita nesta quinta-feira (1º) por Jean-Pierre Bou, chefe adjunto da missão da União Europeia no Brasil, durante o GAFFFF, em São Paulo. Segundo ele, o acordo de cooperação entre os dois blocos abre uma nova etapa na relação comercial, mas não elimina os desafios sanitários que continuam sendo discutidos entre Brasil e Europa.

“Depois de 25 anos de luta, firmamos um acordo de cooperação bilateral, com um grande horizonte para o agro brasileiro”, afirmou.

O acordo de parceria entre Mercosul e União Europeia foi assinado em janeiro de 2026 e passou a ser aplicado provisoriamente em maio. O tratado cria uma área comercial que reúne cerca de 700 milhões de pessoas. Para o Brasil, a União Europeia é um dos principais mercados para produtos agropecuários: as exportações agrícolas brasileiras para o bloco somaram US$ 21,8 bilhões em 2025, segundo o Ministério da Agricultura.

A questão sanitária, porém, surgiu justamente no início dessa nova fase. Desde setembro, a UE suspendeu a entrada de produtos de origem animal brasileiros, em meio à discussão sobre o cumprimento das regras europeias para o uso de antimicrobianos. A restrição atingiu, entre outros produtos, carnes bovina, de frango e suína e mel.

O cenário começou a mudar para algumas cadeias. Uma auditoria da Comissão Europeia realizada no Brasil avaliou positivamente os sistemas de produção de carne de aves e mel e concluiu que o arcabouço legal, os procedimentos e os controles oficiais brasileiros são capazes de oferecer as garantias exigidas pela legislação europeia.

Segundo Bou, a expectativa agora é de uma decisão europeia nas próximas semanas para a retomada desses dois produtos. “A decisão sobre frango e mel será tomada nas próximas semanas”, afirmou.

Carne bovina terá processo mais longo

Para a carne bovina, o processo é mais complexo. Bou explicou que a exigência europeia envolve o acompanhamento dos animais ao longo de praticamente todo o ciclo de produção.

“Carne bovina depende do ciclo de vida dos animais, dois anos mais ou menos. Mas o diálogo continua, tem trabalho constante”, disse.

A avaliação está alinhada ao que autoridades sanitárias europeias vêm afirmando nos últimos dias. A UE estima que a retomada da carne bovina brasileira pode não ocorrer antes de dois anos justamente pela necessidade de comprovar o cumprimento das regras relacionadas a antimicrobianos e rastreabilidade durante o ciclo de vida dos animais.

Para Bou, a situação não deve ser interpretada como um rompimento da relação comercial. “Entendo a frustração dos brasileiros, mas tenho que dizer que o acordo abre oportunidades para muitos setores do agro”, afirmou.

Café, uva e produtos de maior valor agregado

O representante europeu também destacou que alguns produtos brasileiros já apresentam crescimento das vendas para o mercado europeu após o início da aplicação do acordo. Ele citou uvas e café.

O café, segundo ele, já é um dos principais produtos brasileiros no mercado europeu, mas ainda existe espaço para ampliar a participação brasileira.

Os dados oficiais mostram que a relação agrícola entre Brasil e UE vem crescendo: as exportações brasileiras de produtos agrícolas para o bloco passaram de US$ 12,4 bilhões em 2016 para US$ 21,8 bilhões em 2025.

Para além das grandes commodities, Bou destacou outro ponto do acordo que pode beneficiar produtores brasileiros: a proteção das Indicações Geográficas (IGs).

O tratado prevê o reconhecimento e a proteção de indicações geográficas dos dois lados. Pelo acordo, 37 indicações geográficas brasileiras passam a ter proteção na União Europeia, entre elas a cachaça, o queijo Canastra e os vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos.

Para o representante europeu, esse mecanismo pode ajudar a aumentar o valor agregado da produção e abrir espaço para produtos regionais brasileiros que ainda são pouco conhecidos pelos consumidores europeus.

“Temos produtos do Cerrado, da Amazônia, que não são conhecidos na Europa e têm grande potencial”, afirmou.

Bioeconomia entra na agenda

Outra frente destacada pelo representante europeu foi a bioeconomia. A ideia, segundo ele, é identificar produtos com potencial de exportação entre os dois mercados e desenvolver programas de cooperação no Brasil para fortalecer produtores que trabalham com bioeconomia e culturas alternativas.

A discussão também está relacionada à agenda de sustentabilidade do acordo. O tratado estabelece compromissos de cooperação em desenvolvimento sustentável e prevê mecanismos de integração de cadeias produtivas e descarbonização.

Bou afirmou que a cooperação não deve se limitar à abertura de mercados, mas também envolver tecnologia, produção e adaptação dos sistemas agrícolas.

Segurança alimentar

O representante europeu colocou ainda a relação comercial entre Brasil e UE dentro de um problema mais amplo: o da segurança alimentar em um mundo marcado por mudanças climáticas e instabilidade geopolítica.

Segundo ele, novas pandemias, guerras e crises logísticas podem voltar a afetar a oferta de alimentos no mundo. Nesse cenário, o comércio internacional seria parte da estratégia de segurança alimentar europeia, e não um elemento contrário à produção local.

“Comércio é fator de segurança alimentar para a Europa. Não é antagonista”, afirmou.