Dívida barra acesso de produtores a novo crédito, diz Imaflora
Instituto aponta que R$ 140 bilhões em operações problemáticas impedem setor agropecuário de buscar empréstimos futuros, mesmo com Plano Safra

O Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) considera que as discussões sobre os recursos do Plano Safra 2026/27 são insuficientes para atender o setor agropecuário. O que precisa ser discutido é o endividamento e a capacidade do produtor rural de tomar novos créditos.
“O setor está altamente endividado e as dificuldades afetam tanto empréstimos a taxas comerciais quanto operações com recursos direcionados, como os do Plano Safra. Dados do Banco Central, amplamente noticiados pela imprensa, apontam R$ 140 bilhões em operações com problemas que vão de inadimplência e atrasos a renegociações e alongamento de prazos para pagamento. Também os pedidos de recuperação judicial se multiplicam, assim como os leilões de propriedades rurais dadas como garantia em operações de crédito”, resume Paulo Camuri, gerente de Ciência do Clima e Inteligência de Dados e Territorial do Imaflora.
Um efeito disso é um cenário em que, independentemente dos juros e dos recursos disponíveis, parcela significativa dos produtores não estará apta a buscar novo crédito. “Essa vulnerabilidade econômica está ligada a fatores como queda nos preços de commodities; altas nos custos de fertilizantes, decorrentes das guerras na Ucrânia e no Irã; aumento no preço dos combustíveis e perdas de safra por fatores climáticos. Tanto que uma das principais reivindicações da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) é o aumento de recursos para seguro rural, cujos preços escalam com o acirramento da crise climática”, constata Camuri.
A armadilha do imediatismo
Para o instituto, isso significa que este é o momento de investir em diferentes modo de produção, armazenamento e transporte. “As cadeias da agropecuária precisam ampliar os investimentos em descarbonização e em práticas de baixa emissão para ficarem menos voláteis aos efeitos da falta ou do excesso de chuvas”, afirma Camuri.
Um bom primeiro passo, portanto, seria o Plano Safra ampliar a fatia dedicada ao Plano ABC+, historicamente em torno de 5%. “Dar escala à recuperação de pastagens e áreas florestais degradadas, zerar o desmatamento e utilizar técnicas de agricultura regenerativa são alguns exemplos do que pode ser feito, migrando paulatinamente a maior parte do recurso do Safra para o Plano ABC+, ao lado de uma conscientização dos produtores em relação às oportunidades trazidas por essa transição, como o aumento de produtividade e a maior resiliência das culturas a variações de clima”, recomenda Camuri.
Seguro rural pode virar poço sem fundo
Ele também vê com bons olhos a criação de instrumentos que assegurem a confiabilidade da produção com compromisso climático, impulsionando seu reconhecimento pelo mercado. "Dar visibilidade à produção sustentável pode criar vantagens junto ao consumidor final e à agroindústria, assegurando ao produtor maior valor, preferência e acesso privilegiado a mercados. A taxonomia verde é um exemplo de instrumento de aceleração da agenda de transição sustentável para o agro, especialmente se for usada em larga escala pelos bancos."
Para ele, essa é a única forma efetiva de lidar com os efeitos da crise climática. Ampliar o montante destinado a subsidiar seguro rural pode ser um paliativo necessário no momento e dá algum fôlego e segurança ao produtor, mas é um poço sem fundo no longo prazo, pois os fenômenos extremos continuarão se intensificando e alavancando os preços das apólices indefinidamente.
Além disso, o subsídio do seguro rural vem de verba discricionária, que pode ser realocada pelo governo para outra finalidade, o que acontece com frequência e se torna mais um fator de insegurança para o produtor. “A aceleração da jornada para a sustentabilidade é o único e verdadeiro mecanismo de proteção de longo prazo ao produtor rural, porque colabora para limitar o aquecimento climático e garantir os serviços ecossistêmicos essenciais à atividade agropecuária”, conclui o especialista.


