Impasse no orçamento pode adiar votação do seguro rural

Frente Parlamentar da Agropecuária negocia com governo mecanismo para evitar bloqueios de recursos do programa

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
Compartilhar matéria

O presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), deputado Pedro Lupion (PP-PR), afirmou nesta terça-feira (26) a jornalistas, após reunião semanal da bancada, que ainda tenta negociar com o governo uma forma de blindar o seguro rural no orçamento.

Segundo o parlamentar, o principal impasse nas negociações está relacionado à tentativa do setor de transformar os recursos do PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural) em despesa obrigatória, protegida de cortes e contingenciamentos ao longo do ano.

De acordo com ele, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) esteve, nesta terça-feira, com o secretário-executivo do MPO (Ministério do Planejamento e Orçamento), Bruno Moretti, para negociar ajustes no texto.

“O seguro rural está pautado para hoje. O texto está bom. Houve um pedido de alteração por parte do Ministério do Planejamento. E esse pedido de alteração foi, para nós, péssimo. Desqualificava o texto. [...] Ele (Moretti) pediu que a gente conseguisse, no texto, fazer uma alteração para que a gente ficasse limitado aos recursos do Proagro. E aí, para nós, não resolve”, afirmou Lupion.

Segundo o presidente da FPA, a equipe econômica quer que os recursos do seguro rural dependam exclusivamente das economias geradas dentro do Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária).

Lupion afirmou que a bancada ruralista resiste à proposta porque o setor já recebeu promessa semelhante anteriormente, sem que os recursos fossem efetivamente liberados. Segundo ele, as mudanças promovidas no Proagro em 2023 reduziram o acesso de produtores ao programa e geraram economia estimada entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões.

Esses recursos, porém, não foram direcionados ao seguro rural, como defendia parte do setor. Por isso, segundo o parlamentar, há ceticismo dentro da bancada sobre repetir o modelo.

“Essa economia deveria ter vindo para o PSR e não vai acontecer. Então, não acredito que isso agora vai acontecer”, afirmou.

Para Lupion, o novo modelo de seguro rural é considerado prioritário porque a cobertura atual do programa ficou insuficiente diante das perdas provocadas por eventos climáticos nos últimos anos. Segundo ele, o setor vive um cenário de redução das áreas seguradas justamente em um momento de aumento da frequência de secas e enchentes nas principais regiões produtoras.

O deputado também afirmou que uma parte do pleito da bancada é retirar o seguro rural do orçamento do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e vinculá-lo ao Ministério da Fazenda, numa tentativa de evitar condicionamentos políticos e bloqueios ao longo do ano. Segundo ele, a equipe econômica resiste ao modelo.

“Nós não queríamos que ficasse atrelado ao orçamento do Ministério da Agricultura. A gente quer que fique no Ministério da Fazenda, para a gente não ter condicionamento. Mas nos dá um texto com garantias de que esses recursos serão obrigatoriamente liberados todos os anos sem contingência nenhuma”, afirmou.

Segundo Lupion, a falta de previsibilidade orçamentária comprometeu a cobertura do seguro rural nas últimas safras. “Então, por isso que a gente está há três safras, praticamente, sem seguro”, disse.

Agro descarta Cide para Profert

Outro tema debatido foi o andamento do Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), proposta que busca estimular a produção nacional de fertilizantes e reduzir a dependência brasileira de insumos importados.

Lupion afirmou que o novo relatório do deputado (PSD-PA) começou a ser debatido nesta terça-feira (26) e ainda não há consenso entre as entidades produtivas sobre a proposta.

Porém, o deputado destaca que já está descartada a criação de novos tributos ou cobranças para financiar incentivos ao setor, como uma possível CID (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre fertilizantes.

“Descartamos totalmente a cide. A gente não pode querer resolver o problema de oferta de fertilizantes no mercado gerando custo para o produtor. Não é completamente todo o nosso objetivo aqui”, afirmou.

“Fala-se em mandato, fala-se em quantidade, fala-se em incentivo. Mas em cide nós descartamos”, completou.

PLP 114 avança entre pautas prioritárias do agro

Sobre o PLP (Projeto de Lei Complementar) 114/2026, o presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), deputado (PP-PR), afirmou que a proposta avançou nas negociações dos últimos dias e deve entrar na pauta da Câmara ainda nesta semana.

Segundo o parlamentar, uma das alterações feitas no texto foi justamente a retirada da possibilidade de uso de recursos do FS (Fundo Social) do pré-sal para ações ligadas ao agro.

Uma das mudanças foi a retirada da possibilidade de utilização de recursos de fundos para financiar ações ligadas ao agro, incluindo a hipótese de usar recursos do FS do pré-sal para renegociação de dívidas rurais. A proposta inicial previa potencial de cerca de R$ 20 bilhões em recursos.

Segundo apurou a reportagem, a estratégia foi evitar impacto nas negociações paralelas entre governo e Congresso sobre a proposta de renegociação das dívidas rurais.

Outro trecho alterado na proposta foi o diferimento de IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) para operações envolvendo milho, além de uma tentativa de ampliar o mecanismo também para a cadeia da cana-de-açúcar.

As negociações também incluem a manutenção do diferencial competitivo do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar em relação à gasolina, mecanismo assegurado pela Constituição Federal e defendido pelo setor sucroenergético durante as discussões da regulamentação da reforma tributária.