Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Brasil é desconhecido ao estrangeiro e mazelas atraem mais que oportunidade

Pesquisa global Marca Brasil confirma que falta de conhecimento sobre país faz com que imagem seja dominada por aspectos negativos

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A pesquisa global Marca Brasil confirma, com números consistentes, o que eu já vinha observando em minhas viagens pelo mundo: o Brasil ainda é profundamente desconhecido pelos estrangeiros, e suas mazelas chamam muito mais atenção do que suas oportunidades e aspectos positivos.

A Marca Brasil é a maior pesquisa sobre a reputação do Brasil já produzida. Foram entrevistados pela OnStrategy 192.400 brasileiros e 278.200 estrangeiros de forma online — entre cidadãos, executivos de empresas, jornalistas, influenciadores e autoridades entre outubro de 2025 e março de 2026.

E um dos pontos mais reveladores do levantamento, obtido com exclusividade pela CNN Brasil, é o baixo nível de conhecimento efetivo sobre o país.

Em vários países analisados, uma parcela significativa das pessoas sabe muito pouco ou quase nada sobre os aspectos mais relevantes do Brasil.

Grande parte desse (pouco) conhecimento fica restrito às nossas belezas naturais, atrações turísticas ou ao desempenho de nossos atletas em esportes como o futebol (terreno onde, aliás, já fomos muito melhores).

Isso é claramente insuficiente quando falamos, por exemplo, em atrair mais investimentos ou ampliar o peso do país nas grandes discussões e decisões geopolíticas.

Ou seja, enfrentamos um obstáculo muito básico antes mesmo de discutir reputação: a ignorância sobre a realidade do Brasil.

Nesse contexto, como o país ainda não é plenamente compreendido como um ator econômico, político ou estratégico relevante por grande parte do público internacional, nossas mazelas sociais e ambientais acabam ganhando muito mais espaço na formação dessa imagem.

Já observei isso, inclusive, em primeira mão, em inúmeras entrevistas e conversas informais com pessoas do meio acadêmico, da mídia internacional e até de representantes de outros governos. Justamente quem deveria entender melhor nossas questões.

Muitos desses interlocutores se surpreendem ao conhecer dados concretos sobre a força da nossa agricultura, a capacidade da indústria brasileira de produzir, por exemplo, aviões militares e civis de alta qualidade, ou mesmo o fato de o país ter reduzido significativamente a desigualdade no início deste século.

Ao mesmo tempo, os dados mostram que os poucos elementos que ganham visibilidade internacional nem sempre ajudam a melhorar a imagem do país.

Muito pelo contrário.

O Brasil ainda é frequentemente associado ao desmatamento feroz da Amazônia, a falhas na proteção de populações indígenas e a níveis de violência muitas vezes superiores aos de países em conflito.

A percepção de segurança talvez seja o exemplo mais claro desse problema.

O indicador de “estilo de vida e segurança” na pesquisa Marca Brasil registra apenas 4,4 pontos positivos na avaliação externa, o pior resultado entre todos os atributos analisados.

Segundo o próprio estudo, esse fator funciona como um “teto invisível”, que limita qualquer avanço mais consistente na reputação do país.

Na prática, a pesquisa revela que problemas estruturais acabam pesando mais do que as oportunidades.

É verdade que parte dessa percepção negativa pode ser exagerada. Mas também é necessário reconhecer que uma parcela relevante desses dados reflete, sim, a realidade.

Um passo importante para melhorar a imagem do Brasil no exterior é encarar esses desafios de frente. Especialmente questões estruturais como desigualdade, pobreza, misoginia e segurança.

A reputação internacional do país simplesmente não vai mudar de forma significativa sem avanços concretos nesses indicadores. E sem muito barulho para mostrar ao mundo essas mudanças.

Pesquisa Marca Brasil na CNN

As entrevistas internacionais da pesquisa foram feitas com cidadãos do México, Argentina, EUA, Canadá, China, Japão, Índia, Emirados Árabes, África do Sul, Angola, Moçambique, Rússia, Reino Unido, Suíça, Alemanha, França, Itália, Espanha, Polônia, Holanda, Grécia, Bélgica, Portugal, Suécia, Áustria e Dinamarca.

Fundada em 2009 e sediada em Lisboa, a OnStrategy é uma consultora multidisciplinar de brand value management, focada na criação, construção e otimização do valor econômico e financeiro de negócios e marcas.

Ao longo desta semana, o portal da CNN Brasil e seus perfis nas redes sociais divulgaram uma série de conteúdos com detalhes da pesquisa. Na TV, o CNN Prime Time exibiu uma série de quatro episódios temáticos que trazem os dados inéditos e os desdobramentos do estudo global.

A cobertura especial da CNN Brasil se encerra no domingo, 17 de maio, com um programa ao vivo, de uma hora, apresentado por Iuri Pitta e Elisa Veeck. Dividida em blocos temáticos, a atração debaterá com especialistas os impactos desses achados para a economia, política, agronegócio e segurança pública.