Trump na ONU: símbolos de poder, psicologia política e recados estratégicos

O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas ilustra, mais uma vez, como a retórica pode se transformar em arma de política externa e de política doméstica ao mesmo tempo.
Longe de ver a ONU como foro legítimo para a construção de consensos, Trump a converteu em palco de confronto e espetáculo.
Seus ataques diretos ao multilateralismo, aliados a anedotas que ridicularizam a instituição, cumprem um duplo papel: reforçam a ideia de que a ordem global está em declínio e simultaneamente projetam sua própria figura como o líder capaz de restaurar força e direção.
Entre os tópicos centrais, quatro se destacam.
Em primeiro lugar, a ameaça de impor tarifas severas à Rússia, caso Moscou não aceite negociar o fim da guerra, revela uma concepção peculiar de coerção: a substituição do uso direto da força pelo poder econômico, ainda que em termos de eficácia essa abordagem seja questionável diante da resiliência russa e da dependência europeia.
Em segundo lugar, a rejeição veemente ao reconhecimento de um Estado Palestino ilustra o enquadramento da causa palestina exclusivamente pela lente da segurança, associando-a de forma quase automática ao terrorismo do Hamas.
Em terceiro lugar, ao tratar do Irã, Trump retomou a narrativa do “patrocinador do terrorismo”, apresentando-se como alguém que ofereceu uma “generosa” saída, mas que não hesitaria em impor sua linha vermelha: jamais permitir que Teerã obtenha armas nucleares.
Por fim, em relação à Venezuela, falou em termos de guerra total contra “terroristas” e “bandidos” ligados a Maduro, reafirmando o papel dos Estados Unidos como polícia hemisférica.
O pano de fundo de todas essas passagens é a ONU. Ao acusá-la de ineficaz e ao zombar de sua estrutura, mencionando uma escada rolante quebrada ou um teleprompter que não funcionou, Trump transforma a instituição em símbolo de falência burocrática.
Esse recurso não é improviso. A ridicularização cumpre função política de deslegitimar o espaço multilateral, ao mesmo tempo em que reforça a narrativa de que apenas a ação individual de um líder forte pode produzir resultados. A ONU vira antagonista conveniente, contraponto para a autopromoção.
Do ponto de vista psicológico e simbólico, a fala é reveladora. Trump recorre a imagens de declínio e restauração. O mundo estaria caótico, mas ele saberia devolver ordem. Evoca o símbolo da soberania como marcador identitário, estabelecendo fronteiras nítidas entre “patriotas” e “globalistas”.
Cria inimigos externos difusos (o terrorismo, o globalismo, as elites internacionais) que mobilizam o medo e alimentam a sensação de cerco. Personaliza soluções e dramatiza dilemas, transformando disputas complexas em narrativas binárias de vitória ou derrota.
O humor, por sua vez, não é mero ornamento. Ao rir da ONU, Trump rebaixa o multilateralismo e aproxima-se de sua audiência interna, que tende a ver com desconfiança burocracias globais.
É nessa chave que se entende também a ambivalência em relação ao Brasil. Ao mesmo tempo em que critica Lula e ameaça tarifas, Trump intercala comentários de simpatia pessoal, destacando uma suposta “química” em segundos de encontro.
Aqui, mais uma vez, vemos a lógica da diplomacia afetiva e personalizada, em que relações internacionais são tratadas como transações de gosto ou afinidade.
O recado implícito é claro: o Brasil só pode prosperar se estiver alinhado aos Estados Unidos. Trata-se de uma narrativa hierárquica, que reduz a autonomia de parceiros e reforça a ideia de dependência estrutural.
O impacto desse discurso vai além do imediato. Ao tensionar europeus, criticar adversários e reduzir a ONU a caricatura, Trump envia sinais em três direções. Para o público doméstico, projeta orgulho nacional e segurança em meio ao caos.
Para aliados, cobra alinhamento e disciplina. Para rivais, transmite imprevisibilidade e ameaça. O mais importante, contudo, é perceber que a fala não foi apenas um conjunto de posições de política externa, mas um exercício performático de psicologia política: a criação de símbolos, inimigos e contrastes que alimentam uma visão de mundo e consolidam uma identidade coletiva.
Em última instância, Trump usa a ONU não como tribuna multilateral, mas como cenário de contraste.
Ao se colocar contra a instituição, ele reforça sua própria centralidade. Ao desprezar a lógica das negociações, projeta-se como solucionador direto. Ao simplificar dilemas globais, fortalece laços emocionais com sua base. Mais do que conteúdo, é forma. Um discurso pensado para dividir, mobilizar e projetar poder.
O desafio agora é compreender como esse estilo performático, ainda que questionável em substância, possui eficácia simbólica real e reconfigura a própria gramática do debate internacional.



