Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Um recorde ruim para o agronegócio

Recorde de pedidos de recuperação judicial expõe o impacto do endividamento, dos juros altos e da expansão do crédito privado no financiamento do agro brasileiro.

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O agronegócio brasileiro está acostumado a bater recordes. Nos últimos anos foram sucessivos números históricos de produção, exportações e participação no PIB. Mas um novo recorde começou a aparecer — e ele é bem menos celebrado. Em 2025, o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica, segundo dados da Serasa Experian.

O total representa um aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior e revela uma mudança importante na dinâmica financeira do campo.

À primeira vista, o dado parece contraditório. Afinal, o Brasil continua sendo uma potência agrícola global. A produção de grãos segue elevada, as exportações continuam fortes e o agronegócio permanece como um dos pilares da economia. Ainda assim, um número crescente de produtores e empresas do setor está recorrendo à recuperação judicial para reorganizar dívidas.

A explicação para esse fenômeno não está necessariamente na produtividade ou na competitividade do agro brasileiro, mas sim na forma como o setor passou a se financiar nos últimos anos.

Durante décadas, o financiamento da produção agrícola no Brasil esteve concentrado principalmente em crédito rural subsidiado, programas governamentais e operações realizadas por bancos públicos e cooperativas. Esse modelo começou a mudar de forma significativa na última década, quando o agronegócio passou a acessar com mais intensidade o mercado de capitais. Instrumentos financeiros voltados ao setor ganharam escala e passaram a atrair investidores em busca de retorno e diversificação.

Entre esses instrumentos, um dos mais conhecidos é a Letra de Crédito do Agronegócio, a chamada LCA. Bastante popular entre investidores pessoas físicas por oferecer isenção de imposto de renda, a LCA funciona como uma forma indireta de financiar o agronegócio. Para emitir esse título, os bancos precisam ter operações de crédito ligadas ao setor como lastro. Em outras palavras, parte do dinheiro aplicado por investidores em LCAs acaba financiando produtores rurais, empresas agrícolas ou cadeias produtivas relacionadas ao campo.

Mas o avanço do crédito privado no agro vai além das LCAs. Nos últimos anos também cresceram instrumentos como o Certificado de Recebíveis do Agronegócio e os fundos estruturados que investem em recebíveis do setor. Essas estruturas costumam ser baseadas em fluxos futuros de produção — contratos de venda de grãos, recebíveis de empresas agrícolas ou operações ligadas à cadeia de insumos.

Esse modelo ampliou significativamente a quantidade de capital disponível para o setor, permitindo que produtores investissem em expansão, tecnologia e aumento de área plantada.

Alavancagem 

O problema é que, junto com o crescimento do crédito, veio também o aumento da alavancagem financeira. Muitos produtores passaram a operar com níveis de endividamento mais altos, contando com ciclos favoráveis de preços das commodities e produtividade elevada para sustentar suas operações. Quando o cenário muda, seja por causa de juros mais altos, queda de preços internacionais ou problemas climáticos, o impacto aparece rapidamente no fluxo de caixa.

Nos últimos anos, vários desses fatores ocorreram ao mesmo tempo. O aumento das taxas de juros elevou o custo do crédito, pressionando produtores que já tinham dívidas relevantes. Ao mesmo tempo, oscilações nos preços de commodities e custos elevados de insumos reduziram margens em alguns segmentos da produção agrícola.

O resultado é que muitos produtores passaram a enfrentar dificuldades para honrar compromissos financeiros assumidos durante períodos de expansão.

Recuperação judicial

Nesse contexto, a recuperação judicial passou a ser utilizada com mais frequência como instrumento de reorganização financeira. O mecanismo permite suspender temporariamente cobranças e renegociar dívidas com credores, oferecendo uma chance de reestruturação para empresas e produtores que enfrentam dificuldades. Embora não signifique necessariamente falência ou colapso produtivo, o aumento desses pedidos indica que parte do setor entrou em uma fase de ajuste financeiro.

O que começa a ficar claro é que o agronegócio brasileiro passou por um processo de financeirização semelhante ao observado em outros setores da economia. O campo deixou de depender exclusivamente de crédito rural tradicional e passou a se conectar cada vez mais com investidores, fundos e instrumentos do mercado de capitais. Essa transformação ampliou o acesso a recursos e ajudou a impulsionar o crescimento do setor, mas também trouxe uma maior exposição aos ciclos financeiros.

Sem crise estrutural

Isso não significa que o agro brasileiro esteja em crise estrutural. Pelo contrário, a capacidade produtiva do país continua forte e a demanda global por alimentos deve seguir sustentando o papel estratégico do Brasil no comércio internacional. No entanto, o aumento das recuperações judiciais mostra que a expansão baseada em crédito também traz seus próprios riscos.

Em outras palavras, o setor que durante anos se destacou pelos recordes de produção agora enfrenta um momento de ajuste em sua estrutura financeira. O agro continua forte no campo, mas a próxima etapa de sua evolução provavelmente dependerá cada vez mais de uma gestão cuidadosa de dívida, risco e financiamento.