Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

Esqueça 2026, o que interessa é 2027

Ano mais importante para o futuro econômico do Brasil não é o da eleição

Ilustração de um balão com um "$" desenhado. Um dardo mira o centro dele
Sem superávits primários consistentes e reformas estruturais, o arcabouço organiza o fluxo, mas não resolve o estoque da dívida  • Ilustração gerada por IA
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Por mais estranho que pareça, o ano mais importante para o futuro econômico do Brasil não é o da eleição. É o seguinte.

Em 2026, o país terá 10 feriados nacionais, além de pontos facultativos, eleições presidenciais e uma Copa do Mundo no meio do calendário. Na prática, trata-se de um ano com menos dias efetivos de decisão, menor produtividade média e maior cautela por parte de empresas e investidores.

Agora, vamos colocar números nessa história.

O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro gira em torno de R$ 11,8 trilhões. Dividido por 360 dias, isso nos leva a um dado simples, mas poderoso: a economia brasileira gera cerca de R$ 33 bilhões por dia.

Somente os feriados nacionais representam algo próximo de: 10 dias × R$ 33 bilhões = R$ 330 bilhões

E isso sem considerar pontos facultativos, semanas eleitorais encurtadas, emendas de feriado e o impacto comportamental típico de anos políticos.

Ou seja: 2026 é um ano economicamente mais curto do que parece.

Mas o verdadeiro problema não está no calendário.

Está em 2027.

O ano em que a conta chega

O próximo presidente começará o mandato diante de um cenário fiscal significativamente mais pressionado do que o atual.

O Brasil entrará em 2027 convivendo com:

  • Juros ainda elevados;
  • Crescimento moderado;
  • Forte rigidez orçamentária;
  • E a volta plena do pagamento dos precatórios.

Mas o ponto central é o custo da dívida pública.

Segundo os estudos e relatórios do Tesouro Nacional, o governo brasileiro gasta algo próximo de R$ 800 bilhões a R$ 900 bilhões por ano apenas com juros nominais da dívida — valor que rivaliza com os maiores programas sociais do país.

É dinheiro que não vai para investimento, infraestrutura, saúde ou educação. Vai para remunerar o estoque da dívida.

O Tesouro também mostra que a dívida bruta do governo geral permanece em trajetória de crescimento, orbitando entre 75% e 80% do PIB, com projeções de alta nos próximos anos caso não haja mudanças estruturais.

O problema não é apenas o tamanho da dívida, é a sua dinâmica.

Quando a taxa média de juros cresce mais rápido do que o PIB, a dívida aumenta mesmo com esforço fiscal. Esse é o mecanismo clássico da armadilha da dívida.

A armadilha do arcabouço fiscal

É aqui que entra o ponto mais sensível do modelo atual.

O arcabouço fiscal trouxe previsibilidade ao substituir o teto de gastos, mas, segundo análises do próprio Tesouro Nacional, ele não garante, por si só, a estabilização da dívida pública.

Na prática, o Brasil pode cumprir o arcabouço e ainda assim ver a dívida crescer. Isso ocorre porque:

  • O crescimento real das despesas é permitido;
  • A arrecadação é cíclica;
  • E o custo dos juros permanece elevado.

Sem superávits primários consistentes e reformas estruturais, o arcabouço organiza o fluxo, mas não resolve o estoque da dívida.

Quando isso acontece, o ajuste não vem pela política — vem pelo mercado, e o mercado ajusta via juros.

Juros mais altos significam crédito mais caro, investimento travado, menor crescimento e maior pressão sobre o endividamento das empresas.

Por isso, 2027 tende a ser o ano em que a política encontra a matemática.

Três cenários possíveis para o Brasil pós-eleição

Diante desse pano de fundo, é possível desenhar três grandes cenários.

1. Vitória do atual presidente

Em um cenário de continuidade, o mercado observará menos o discurso e mais a execução fiscal. Caso persista a percepção de gastos elevados sem reformas estruturais, a reação tende a ser clara: juros futuros disparam.

O Brasil não controla o dólar. Um eventual enfraquecimento da moeda americana — seja por ajustes na economia dos Estados Unidos ou mudança no fluxo global de capitais — pode favorecer emergentes.

Nesse ambiente, o mercado de ações pode se beneficiar de dólar mais baixo e expectativa futura de queda dos juros.

O risco, porém, está na economia real: elevada ociosidade, margens comprimidas e aumento do endividamento corporativo podem limitar a lucratividade das empresas.

2. Vitória da oposição com agenda fiscal clara

Uma mudança de governo acompanhada de um plano crível de ajuste fiscal tende a produzir efeito rápido nas expectativas. A curva de juros pode fechar, o prêmio de risco diminui e o investimento privado ganha espaço.

O custo aparece no curto prazo, mas historicamente esse é o cenário mais favorável para crescimento sustentável e redução estrutural do custo da dívida.

3. Governo frágil ou coalizão instável

Talvez o maior risco não seja quem vence, mas a incapacidade de governar.

Sem base política, reformas travam. Sem reformas, a dívida segue crescendo. E o mercado responde com juros longos elevados, câmbio volátil e investimento represado.

Não é uma crise aberta — é um país andando devagar enquanto a conta cresce.

O ponto central

O debate público estará concentrado em 2026. Mas, do ponto de vista econômico, esse é apenas o ano do ruído.

O ano decisivo é o seguinte.

2026 é o ano dos feriados, da eleição e da Copa.

2027 é o ano da conta.

E essa conta envolve dívida, juros, credibilidade e escolhas difíceis — que não podem mais ser adiadas.

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