G7, China e a nova era do controle de exportação ao agro brasileiro
Reunião do G7, na França, se tornou plano do governo brasileiro para tentar reverter bloqueio de UE e tarifas dos EUA

A China inaugurou uma fase mais agressiva de controle das cadeias produtivas, mas esse movimento já se espalha pelo G7 e está redesenhando o comércio internacional, com impactos diretos para o agronegócio brasileiro.
Se durante décadas a globalização foi marcada pela busca de eficiência e abertura de mercados, governos das maiores economias do mundo passaram a enxergar cadeias de suprimento como instrumentos de poder econômico.
Para o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do planeta, a mudança representa um desafio crescente. O país precisa navegar entre restrições comerciais, exigências fitossanitárias e disputas geopolíticas cada vez mais intensas, sem perder espaço em mercados considerados estratégicos.
A mais recente rodada de controles da China entrou em vigor em 31 de março, com o chamado Regulamento do Conselho de Estado sobre Segurança Industrial e das Cadeias de Suprimento. Considerado um dos instrumentos mais robustos já adotados por Pequim, o mecanismo amplia a capacidade do governo chinês de intervir em cadeias consideradas estratégicas.
Os números mostram a dimensão dessa mudança. A China triplicou o número de restrições de exportação nos últimos cinco anos (2020-2025), sinalizando a prioridade de consolidar sua influência sobre cadeias globais de suprimentos.
Entre 2021 e 2025, o país restringiu exportações em 30 ocasiões, o triplo do registrado entre 2015 e 2020.
O fortalecimento desse arsenal jurídico começou em 2020, quando Pequim aprovou uma lei de controle de exportações voltada para bens de uso civil e militar.
Desde então, o país vem ampliando instrumentos regulatórios capazes de moldar fluxos comerciais e reforçar sua posição em setores considerados estratégicos.
Para o Brasil, a concentração das exportações em poucos mercados amplia as vulnerabilidades. Produtos sem demanda chinesa passam a exigir esforços crescentes da diplomacia comercial para abertura de novos destinos.
Mas a China não está sozinha nesse movimento. Enquanto países emergentes seguem defendendo o multilateralismo, as economias do G7 passaram a incorporar controles comerciais como instrumentos de segurança econômica.
Nos Estados Unidos e na União Europeia, a estratégia assume contornos diferentes. Em vez de restringir principalmente importações, como nas antigas guerras comerciais, o foco está no controle da exportação de tecnologia, capital e conhecimento, além da criação de mecanismos de rastreabilidade, diligência e conformidade regulatória.
As grandes economias passaram a enxergar cadeias de suprimento como ativos estratégicos, da mesma forma que enxergam energia, infraestrutura crítica ou capacidades militares.
Não por acaso, o conceito de “economic security” tornou-se recorrente em documentos e comunicados do G7.
A lógica é simples: depender excessivamente de um único fornecedor para produtos essenciais passou a ser visto como um risco geopolítico.
Por isso, o grupo defende a diversificação de fornecedores, estoques estratégicos, reciclagem de minerais críticos e políticas de produção doméstica, conhecidas como reshoring e friend-shoring.
No comércio agrícola, essa nova geoeconomia frequentemente se apresenta sob a forma de requisitos regulatórios e fitossanitários. Controlam-se compras de produtos estrangeiros por meio de exigências legais que determinam o que pode ou não ingressar em determinado território.
Em 2026, a União Europeia demonstrou a força deste instrumento, elevando o debate sobre critérios sanitários e o uso de antimicrobianos na produção animal.
A proteção da segurança nacional começa, cada vez mais, a se confundir com argumentos de segurança alimentar, sustentabilidade e resiliência das cadeias de abastecimento.
É justamente nesse espaço que o Brasil tenta se posicionar: responder a questionamentos fitossanitários e ambientais enquanto reforça sua condição de fornecedor confiável de alimentos para um mundo mais preocupado com riscos de abastecimento.
Nesse contexto, a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro do G7 e as discussões envolvendo tarifas, embargos e exportações de carnes vão muito além de negociações pontuais. Elas refletem uma transformação estrutural da economia global.
No primeiro dia da reunião, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi direto ao afirmar que “medidas sanitárias têm de ser cumpridas” ao ser questionado sobre a possibilidade de avanço nas negociações para ampliar o acesso de produtos brasileiros de origem animal ao mercado europeu.
Embora o Brasil não faça parte do grupo das economias desenvolvidas, senta-se à mesa como convidado porque possui algo cada vez mais estratégico: capacidade de produzir alimentos em escala.
É isso que está em jogo.
O que se observa em 2026 não é apenas uma onda de controles de exportação. Trata-se da transformação do comércio internacional em instrumento de segurança nacional — e, cada vez mais, de segurança alimentar.



