Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Reservatórios baixos e La Niña elevam uso de térmicas e conta de luz

Custo adicional é repassado para o consumidor

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O cenário de estiagem se mantém e, com isso, o volume armazenado em reservatórios de importantes hidroelétricas segue abaixo do que seria desejável para esta época do ano. Quando isso acontece, a geração hidroelétrica é reduzida — para garantir um nível minimamente adequado nos reservatórios — e a demanda é suprida pelo uso mais intensivo das termoelétricas, que representam a forma de geração mais onerosa disponível.

Esse custo adicional é repassado para o consumidor com aplicação, em outubro, de um adicional de R$ 4,46 para cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

Mesmo considerando que os meses de setembro e outubro marcam, historicamente, a volta das chuvas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a perspectiva do retorno do La Niña reduz as probabilidades de que esse quadro seja revertido rapidamente.

Durante o La Niña há uma redução das chuvas no sul e sudeste, e as previsões recentes indicam que ele deverá iniciar em outubro e prosseguirá até o início do próximo ano. Ao concretizarem-se as previsões, será um evento curto, mas que impactará negativamente no período de chuvas do sul e sudeste e na recuperação dos reservatórios.

É importante lembrar que foi durante a vigência de um La Niña que tivemos a bandeira de Escassez Hídrica, com reservatórios extremamente baixos e com a necessidade de uso intensivo de usinas termoelétricas. Mas foi um evento longo, que teve início em meados de 2020 e terminou no início de 2023, com um breve intervalo de neutralidade em meados de 2021.

Além dos impactos nos reservatórios e na tarifa de energia elétrica, o La Niña também gera prejuízos para a agricultura, pecuária e abastecimento urbano. Na Região Metropolitana de São Paulo, com 39 municípios e 20 milhões de habitantes, a pressão de água tem sido reduzida na rede de distribuição no período noturno, exatamente pelo nível baixo dos dois principais sistemas que abastecem a região: o Cantareira e o Alto Tietê. No interior do estado de São Paulo, há racionamento em algumas cidades e o nível de rios como o Piracicaba está muito baixo.

As mudanças climáticas têm demandado novas formas de gestão dos reservatórios, pois há irregularidade nas chuvas. Longos períodos de estiagem são intercalados por chuvas muito intensas e mal distribuídas geograficamente. Esse cenário reforça que a pressão sobre as tarifas não é apenas conjuntural, mas resultado de um quadro marcado pela irregularidade climática.

Garantir o abastecimento de água e a segurança energética exigirá investimentos consistentes em fontes renováveis complementares, na modernização do sistema de transmissão e em políticas de uso eficiente da água.

Caso contrário, a escassez hídrica e a conta da energia continuarão refletindo, mês a mês, a vulnerabilidade do país diante das mudanças climáticas. Sem avanços nessa direção, a tarifa de energia, problemas de abastecimento e dificuldades na agricultura seguirão como termômetro das pressões ambientais e climáticas sobre o país.