Investimento no exterior fica atrativo com alta do dólar; veja as oportunidades


Matheus Prado Do CNN Brasil Business, em São Paulo
18 de maio de 2020 às 07:18
Bolsa de Nova York

Bolsa de Nova York

Foto: Reuters

À medida em que a crise financeira provocada pelo coronavírus foi avançando, o investidor brasileiro foi ganhando cada vez mais motivos para se preocupar com a solidez dos seus ativos locais. Depois da queda aguda de mais de 30% da B3 em março, juntaram-se guerra comercial do petróleo, tensões políticas internas e a consequente disparada do dólar para tornar o mercado nacional extremamente volátil.

É certo que, com a política monetária adotada pelo governo, seria natural, até certo ponto, que o câmbio atingisse um novo patamar. O que ninguém imaginava é que esse novo escalão estaria batendo na porta dos R$ 6. Neste contexto, além do chamado “risco Brasil”, pesa também a reafirmação do dólar e da economia dos Estados Unidos como porto seguro para os investidores.

Com a nova realidade, que pode não ser a mesma em alguns dias, é difícil fazer projeções de recuperação. “A volatilidade deve permanecer por um tempo. Acredito que em no máximo 6 meses os fatores externos vão dar uma melhorada, mas, no Brasil, a expectativa é que isso demore mais”, afirma Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos. Pensando nisso, brasileiros buscam maneiras de colocar seu dinheiro em ativos seguros, até mesmo fora do país.

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Mas como isso pode ser feito? “Sempre que possível, a gente recomenda que o investimento seja feito diretamente no país desejado. É a maneira mais correta de diversificar a carteira”, diz Rodrigo Assumpção, planejador financeiro CFP pela Planejar. “Quando você está investindo em ativos de outro país, mas seu dinheiro continua no Brasil, você ainda está sujeito ao risco país.”

A forma mais antiga e tradicional de se obter isso é abrindo uma conta no país em que o dinheiro será investido, o que não infringe nenhuma lei e pode ser feito com pessoa física ou jurídica. “É muito simples. O cliente faz um processo de abertura de conta normal por meios digitais e envia remessas de dinheiro por banco ou corretora credenciados pelo BC”, diz Cantreva.

Ele explica que, no caso de PFs, o investidor fica sujeito a recolher mensalmente o imposto de renda sobre o lucro obtido na bolsa internacional e sobre a variação do câmbio, através do Carnê Leão. Isso muda no caso de empresas abertas lá fora com essa finalidade, também conhecidas como offshores. “Acima de US$ 500 mil já começa a fazer sentido abrir uma empresa. PJ só recolhe imposto quando tirar o dinheiro do país e a tributação dos EUA, por exemplo, é só sobre dividendos, cerca de 20%”, compara.

Alternativa pop

Até aqui existe uma barreira óbvia, o dinheiro. Investidores menos capilarizados provavelmente não possuem recursos para fazer essa operação, o que criou um nicho de mercado que começa a crescer: corretoras internacionais que atendem o público brasileiro que quer aplicar seu dinheiro, mesmo que pouco, na bolsa americana. A Avenue, criada há cerca de um ano e meio pelo ex-CEO da Clear, Roberto Lee, trabalha para esse público e se aproxima de 100 mil clientes.

“Nosso ticket médio é de US$ 7.500 e não temos valor mínimo de remessas. A Avenue funciona baseada em Miami e possui operação de câmbio no Brasil”, explica Lee. Como em qualquer site de corretora, o cliente faz um TED a partir do seu banco brasileiro para a conta criada com a empresa. Aqui, no entanto, há um passo extra antes de realizar o investimento. É preciso fazer o câmbio do dinheiro depositado para investí-lo diretamente em dólar.

Outro aspecto facilitador entre os serviços ofertados, segundo o gestor, é a possibilidade de fracionar as ações. “Se você quer comprar papéis da Amazon, por exemplo, uma ação custa US$ 2.300. Permitimos então que o cliente escolha quanto quer investir naquela empresa, dando a ele uma porção fracionada daquele ativo”, explica. A Avenue cobra US$ 1 em taxas para transações de até US$ 100, US$ 1,50 até US$ 1.000, US$ 4,30 até US$ 2.000 e US$ 8,60 para ordens acima de US$ 2.000.

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A empresa tem como investidores Patrick O' Grady (CEO da Vitreo), Paulo Lemann (filho de Jorge Paulo Lemann, da 3G) e Alexandre Aoude (ex-Deutsche Bank) e Carlos Ambrósio, presidente da Anbima. Recebeu três rodadas de investimentos até aqui e adquiriu a base de clientes da DriveWealth em 2020, o que aproxima a empresa da marca de 100 mil clientes. Além dela, há outras alternativas no mercado, como as americanas Passfolio e Interactive Brokers.

BDRs  

Outra sigla que vem aparecendo cada vez mais no vocabulário do investidor que almeja lastrear seu dinheiro em ativos internacionais. Há as ETFs, os COEs e os Brazilian Depositary Receipts, ou BDRs. Aqui, seu dinheiro permanece na bolsa brasileira, mas comprando certificados de depósito de valores mobiliários locais que representam papéis de companhias com sedes em outros países.

“Eram ativos esquecidos, mas que são opções de investimento interessantes. Hoje há uma procura maior”, diz Henrique Esteter, analista de investimentos da Guide. “Com o mercado de tecnologia crescendo tanto, os BDRs dessa área são os de maior interesse no momento.” É possível comprar, nestes moldes, certificados da Amazon, do Google e do Netflix, para citar alguns.

Antes de escolher o papel, no entanto, é preciso conhecer um pouco mais sobre o mecanismo. Há duas categorias de BDR: os patrocinados e os não patrocinados. O primeiro é emitido por uma instituição contratada pela companhia estrangeira emissora dos valores mobiliários ("a dona das ações"), enquanto o segundo também é emitido por uma instituição terciária, mas sem envolvimento da companhia estrangeira emissora dos valores mobiliários.