10 empresas que fazem diferença e a lição de casa para a inclusão de LGBTs


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
22 de junho de 2020 às 13:39 | Atualizado 24 de junho de 2020 às 13:50
Bandeiras LGBT

Práticas inclusivas para na área da diversidade sexual e de gênero integram políticas corporativas

Foto: @dwell_in/unsplash

O advogado Bruno Crepaldi, do Itaú Unibanco, e o executivo dá área de recursos humanos da Ford Salim Khouri atuam em empresas diferentes, em áreas também distintas, mas com um propósito comum: falar abertamente sobre diversidade sexual e de gênero no ambiente corporativo. Ambos são líderes de grupos que tratam do assunto, em companhias de setores conservadores, como o bancário e o automotivo, mas que passaram a entender o "diverso" como um ativo que favorece a criação de um ambiente criativo, inovador e potencialmente mais produtivo.

No âmbito pessoal, o processo foi árduo. Crepaldi, homossexual, de 36 anos, passou dez anos “no armário” e só decidiu falar abertamente sobre sua orientação sexual no Itaú depois que voltou de um mestrado em São Francisco, na Califórnia. Lá, conheceu colegas que o encorajaram.

Após voltar ao Brasil, em 2017, decidiu fazer seu “outing” (expressão em inglês que significa sair do armário) em encontros com o presidente do banco, Candido Bracher, e, depois, com colegas. O acolhimento foi total. "Quando falamos do assunto, incluímos um pedaço da vida que ficava para fora da catraca."

Descendente de libaneses, Khouri, de 38 anos, quebrou a inércia do silêncio sobre diversidade, e decidiu se engajar para ajudar a criar um grupo de afinidade LGBT na gitante Ford. O “Globe”, hoje com 100 participantes, tem programação intensa, principalmente em junho, mês do Orgulho LGBTQI+ — uma realidade impensada há cerca de dois anos.

“Sabemos que nosso setor é muito mais conservador e masculino. Mas temos uma base muito sólida global, de ações que nos ajudam a construir uma jornada."

Bruno Crepaldi, superintendente do Itaú Unibanco e Salim Khouri, head de Talent

Bruno Crepaldi, superintendente do Itaú Unibanco e Salim Khouri, head de Talent Management na Ford, colaboram com a causa LGBTQIA+ nas empresas

Foto: Arquivo pessoal/Tulius Tsangaropulos

Nos dois casos, as atividades voltadas à gênero e sexualidade são recentes. O Itaú começou a se abrir institucionalmente no ano passado. E a Ford instalou um comitê responsável por discutir questões relacionadas à diversidade em 2017.

Ambas as empresas são exemplos de como políticas afirmativas na área motivam funcionários e propiciam um ambiente de trabalho mais inclusivos. Não fazem publicidade direcionada, nem causam alvoroço nas redes sociais, mas fazem a lição de casa ao adaptar processos e implementar políticas de contratação e treinamento voltadas aos coletivo LGBT.

E mais do que respeito e um lugar inclusivo para trabalhar, a diversidade é um bom negócio para as empresas. Quem atesta é a consultoria McKinsey: um levantamento realizado em 2017 mostra que companhias com maior diversidade de gênero tinham uma chance 33% maior de serem mais lucrativas do que a média. A pesquisa levou em conta os dados de mais de 1 mil empresas em 12 países diferentes.

Ambiente inclusivo e oportunidades

Da sopa de letrinhas LGBTQI+, o “T” é, sem dúvida, a mais vulnerável, pontua Maite Schneider, fundadora do TransEmpregos, uma ONG que ajuda a conectar oportunidades de trabalho a pessoas trans. Segundo ela, atualmente há uma interlocução maior com o mundo corporativo, que entende o valor da diversidade. Em 2014, um ano após a criação da instituição, havia 14 empresas cadastradas, e, atualmente, são 452 parceiras. 

Enquanto muitos perderam emprego durante a pandemia, a ONG de Maitê relata que 300 pessoas trans conseguiram se recolocar no mercado de trabalho, entre março e abril. O número é inferior à média mensal de 200 contratações, em um cenário fora da pandemia, mas ainda assim “animador”, diz ela, considerando o momento de demissões e redução de salário.

Segundo Schneider, o que ajuda a explicar o movimento é o fato de que  pessoas trans “vivem constantamente na linha de frente do perigo”. “A vida real das trans, no dia a dia, já é uma 'pandemia', com dificuldade de acesso a trabalho e risco iminente de perda de emprego."

Em 2019, a transfobia fez ao menos 124 vítimas no Brasil, uma média de uma morte de pessoas trans a cada três dias, resultado que coloca o país na liderança das nações mais violentas para esta população, aponta a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em conjunto com o IBTE (Instituto Brasileiro Trans de Educação). A expectativa de vida deste grupo é de cerca de 35 anos.

Na contramão dos dados,Yasmin Vitória de Souza subverteu as estatísticas de exclusão e passou a ocupar uma posição privilegiada em relação a outras mulheres não cisgênero (que não se identificam com o sexo biológico). Trans, preta, de origem periférica, Yasmin, aos 27 anos, é funcionária de uma grande multinacional, onde iniciou a carreira como estagiária. 

Na Salesforce há um ano e meio, atualmente passou a ocupar um cargo na área de pós-venda. "Se uma empresa tem um propósito grande, a jornada é menos dolorosa (...) Quando começamos a existir em lugares de poder, também começamos a ditar as regras do jogo", diz. "Meu corpo fala e causa uma série de gatilhos, sejam falas ou olhares perversos, mas acho que essa inquietação é importante. Isso já é um passo", considera. 

 

Yasmin Vitória

Yasmin Vitória faz parte do time de Customer Success da Salesforce Brasil

Foto: Divulgação/Salesforce

Para compartilhar boas práticas, como as citadas acima, o CNN Brasil Business lista 10 empresas com políticas afirmativas em prol do coletivo LGBTQI+ no Brasil. Confira algumas delas.

1- Atento 

Parceira da TransEmpregos, a empresa de telemarketing com sede em Madri, na Espanha, diz ter uma política estruturada para a diversidade. Entre as ações, cita a iniciativa para atração de profissionais trans, com participação ativa em feiras de empregabilidade focada nessas pessoas. Schneider destaca o trabalho da empresa: “O setor de telemarketing não parou de crescer na pandemia  (...) Nos seis anos que trabalhamos com a Atento, há 1,3 mil pessoas trans, de 81 mil funcionários no país”, diz.

Entre outras ações, adotou, em 2013, o uso dos banheiros de acordo com a identidade de gênero. Além disso, em 2014 criou o crachá social, documento que leva o nome com o qual o funcionário mais se identifica, não necessariamente o que consta em seu RG ou em sua certidão de nascimento. A medida também vale em nomes de e-mail corporativo, nos benefícios como Vale Alimentação, e estímulo aos funcionários a utilizar roupas associadas ao gênero com o qual mais se identificam. 

2- Grupo Pão de Açúcar 

Parceira do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ e também parceira da Transempregos, estima ter contratado 31 profissionais trans em 2019 para as lojas Extra e Pão de Açúcar. Participa do #AgoraVai, festival que tem como objetivo capacitar pessoas trans para o mercado de trabalho, com oficinas e treinamentos sobre elaboração de currículos, dicas para entrevista e escolha do vestuário.

Em 2018, criou o grupo Orgulho LGBT, do qual participam mais de 60 colaboradores. Entre as atividades, realiza ações para atrair, reter e desenvolver talentos, além de contribuir com a tomada de consciência sobre a comunidade LGBT.

Um ano depois, na semana da diversidade, promoveu eventos durante cinco dias consecutivos com mais de 20 palestrantes e painelistas de diversas empresas, organizações da sociedade civil e instituições de ensino e mais de 1.500 pessoas participaram do evento, entre público interno e externo.

3- Carrefour 

Possui um grupo de afinidade LGBT, o “Todxs”, que reúne funcionários que se reúnem voluntariamente para discutir temas relacionados ao coletivo LGBT. Mesmo na pandemia, a empresa diz que as atividades não pararam.

“Temos uma agenda de combate à violência contra as mulheres e reforçamos também a acolhida das pessoas LGBTI+ em tempos de pandemia”, diz, em nota. A agenda inclui o treinamento de gestores para a diversidade e para o diálogo do respeito.

No total, estima a presença de 70 profissionais trans trabalhando em diversos modelos de negócios, incluindo hipermercados, matriz e express. Em 2020, foram contratadas oito pessoas trans. Desde que ações afirmativas começaram na companhia, em 2012, já chegaram a trabalhar, no mesmo momento, 160 profissionais trans.

Para chegar até essas pessoas, participa do Projeto Conexão Varejo, da Rede Cidadã, que forma pessoas trans para o varejo; e do Dia D, de contratação de profissionais trans, em parceria com a Transempregos. “No ano passado,  nosso time de recrutamento e seleção, investiu em dias específicos para contratação apenas desses profissionais”, considera.

4- Ambev 

Criou em 2016 o grupo Larger (Lesbian & Gay & Everyone Respected Lésbica, &  gay & todos respeitados, em tradução livre), que discute as melhores práticas de inclusão e bem-estar de pessoas LGBTs no trabalho. Segundo a empresa, funciona coo um espécie de “rede de apoio”, para que todos compartilhem experiências, dicas e tenham mais suporte no dia a dia.

No mesmo ano, aderiu ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTQ+ e foi, por meio da marca Skol, patrocinadora oficial da 20ª edição da Parada do Orgulho de São Paulo. A marca lançou ainda a campanha “Respeito is ON” para celebrar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+.

Em 2018, se tornou apoiadora das cinco normas de conduta da ONU para empresas que suportam direitos LGBT. E, em 2019, promoveu um “tuitaço do bem", que doou R$ 1 a cada post com a hashtag #OrgulhoDaMinhaHistória a duas ONGs LGBTs:  Casa 1 e Casinha, que receberam, no total, R$ 100 mil.

5- Itaú Unibanco

Em parceria com a consultoria Mais Diversidade, o banco patrocinou por dois anos um edital que valoriza projetos na área da diversidade sexual e de gênero, o “LGBT+ Orgulho”. Na primeira edição, de 2018, ofereceu R$ 200 mil a propostas de caráter cultural, educacional, esportivo ou social, que contemplam o respeito e a valorização da diversidade LGBT.

Internamente, possui um grupo de afinidade, o “Sou como sou”, que ajudou a fomentar treinamentos, conversas e a revisão de políticas e procedimentos, para que a linguagem de materiais internos do banco seja inclusiva. Em paralelo, dentro área que cuida dos colaboradores, há um profissional dedicado a olhar e atender questões relacionadas ao coletivo LGBT, assim como nas áreas de comunicação e institucional e governamental — esta última responsável pelo edital “LGBT+ Orgulho”.

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6- Natura 

Há 15 anos, a Natura oferece benefícios de saúde a casais LGBTI+, como licenças parentais estendidas - maternidade de seis meses e paternidade de 40 dias –, além do berçário, sem custo, para pais e mães, independentemente do gênero ou orientação sexual. A empresa também garante a adoção do nome social e, para subsidiar novas ações nesse eixo, questões de identidade de gênero e orientação sexual fazem parte do levantamento que vai medir o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do colaborador Natura, que deve ser concluído este ano.

Em parceria com a Casa 1, oferece  cursos profissionalizantes de maquiagem para transexuais, iniciativa patrocinada pela marca Natura Faces. Em 2019, participou da Feira de Empregabilidade, organizada também pela Casa 1, e que resultou na contratação de profissionais para atuar em lojas no período do Natal.

"Diversidade é um tema presente em nosso cotidiano e temos planos ainda de reforçar que nosso modelo pode ser uma alternativa viável para gerar renda e oportunidades de desenvolvimento para esse público", diz Milena Buosi, gerente de diversidade da Natura.

No código de conduta da empresa, consta que a empresa valoriza a diversidade da equipe e repudia toda e qualquer forma de preconceito, discriminação e assédio. Casos de descumprimento podem ser relatados à Linha Ética, canal sigiloso e disponível 24 horas para colaboradores, prestadores de serviço e parceiros. Assim, como outras empresas, possui um grupo de afinidade LGBTQI+, o “Natura em Cores”, com mais de 100 participantes. O trabalho de lideranças é considerado nas horas de trabalho.

7- EDP 

Desde o começo do ano passado tem um Programa de Inclusão e Diversidade, que inclui seis grupos de afinidade, um deles focado no coletivo LGBT — com 111 integrantes, o segundo com maior volume. Em paralelo, a empresa reformulou o canal de ética, para registrar desvios relacionados à diversidade, como LGBTfobia. “A iniciativa fortalece o compromisso de promover um ambiente de segurança psicológica, de modo que todas as pessoas se sintam respeitadas e seguras para serem quem são”, diz.

Entre junho e julho deste ano, a empresa aplicará pela primeira vez um censo de diversidade, em formato anônimo, para conhecer melhor seus colaboradores e aprimorar ações de acolhimento e inclusão. Além disso, destaca como frente importante de trabalho treinamentos e liderança inclusiva, para fortalecer a cultura diversa da empresa, e que este ano ganhou uma versão digital, devido à pandemia da Covid-19. 

Por fim, a empresa destaca o patrocínio inédito à Feira Diversa, maior evento de recrutamento de jovens LGBT+ da América Latina; e a adesão à Lei da Empresa Cidadã, que extende a casais LGBTs direitos como licenças-maternidade e paternidade, além das regras de adoção.

8- Ford 

Há três anos, a multinacional norte-americana começou a discutir no Brasil temas de interesse do coletivo LGBT. No entanto, ações concretas, começaram apenas no último ano, e incluem a instalação de um Comitê de Diversidade. Em paralelo, a montadora criou um grupo de afinidade temático, o Globe — com cerca de 100 membros e orçamento próprio. Neste ano, coordenará atividades no mês do Orgulho, com conversas e painéis virtuais, entre outras atividades. 

“Adicionalmente, temos conscientização de lideranças. Globalmente todos os líderes já fizeram treinamento de viés inconsciente”, exemplifica Khouri, head de talent management da Ford. Ele ainda cita também a consolidação de canais de denúncia, além de benefícios equivalentes a casais homoafetivos.

9- ArcelorMittal

Gigante do setor siderúrgico, a multinacional adiantou que na próxima semana vai aderir ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, que faz com que as empresas se comportam formalmente com a causa. A partir da consultoria Mais Diversidade, lançou no ano passado quatro grupos de afinidade, entre eles o LGBT, com a participação de quatro membros efetivos, além de voluntários, que somam 400 pessoas — o segundo com mais participantes, atrás apenas do coletivo de equidade de gênero.

“Traçamos uma política muito semelhantes para os grupos. Estabelecemos critérios a todos. E quando falamos de exemplos, como a revisão de política de diversidade e inclusão, para incluir termos como orientação sexual e identidade de gênero”, diz Adriani Damazio, diretor corporativo de Pessoas, Comunicação e Relações Institucionais.

Entre as atividades do grupo, cita treinamentos de viés inconsciente, para desconstruiruir paradigmas relacionados à sexualidade, entre outros esforços.

10- Salesforce 

A empresa de tecnologia norte-americana considera processo de contratação como fundamental para a igualdade de gênero. “É o período para alcançar os candidatos mais qualificados e diversos”, define a multinacional, em que Yasmin trabalha. “Implementamos princípios de liderança e de contratação inclusiva para ajudar a remover o preconceito dos processos de contratação e promoção”, acrescenta a empresa.  

Outra frente de trabalho é a da transparência e da estatística. Desde 2018, a empresa começou a divulgar dados de diversidade para a equipe executiva, contendo um diagnóstico como mulheres e minorias sub-representadas contratadas ou promovidas. As informações globais sobre esse raio-x da diversidade está disponível online.

Também possui um grupo de funcionários focados em discutir temas relacionados ao coletivo LGBT, chamado “OutForce”. No mês do Orgulho, o grupo dá suporte a uma programação temática, que inclui, neste ano, um evento virtual de duas horas voltado a funcionários do Brasil, Argentina, México, Portugal e Espanha.

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