Influenciadores de economia se adaptam ao TikTok para ir 'onde o público está'


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
13 de julho de 2020 às 13:24 | Atualizado 14 de julho de 2020 às 07:35
Influenciadores TikTok

Tiago Reis, da Suno, Nil Moretto, do Financeiro, e Thiago Nigro, o Primo Rico

Foto: Divulgação

Nem só de “Roi, Letícia” e dancinhas vive o TikTok. A plataforma começou a promover, principalmente durante a quarentena, conteúdos educacionais por meio de hashtags como #LearnOnTikTok. A ideia é “ajudar os usuários a desenvolver novas habilidades, aprender coisas úteis para a vida cotidiana e descobrir mais sobre o mundo ao seu redor”, afirma Rodrigo Barbosa, gerente de Comunidade da rede social no Brasil.

Dentre as áreas destacadas pelo aplicativo, está a economia. Por aqui, o TikTok lançou recentemente uma campanha chamada #MenteMilionária. Foram produzidos lives e vídeos educacionais sobre finanças pessoais com rostos conhecidos do mercado financeiro. Tiago Reis, fundador e analista-chefe da Suno Research, e Thiago Nigro, influenciador conhecido como Primo Rico, foram alguns dos participantes.

“Nosso segmento explodiu nos últimos 3, 4 anos por vários motivos, o que faz com que as pessoas procurem esse tipo de conteúdo em lugares diferentes”, resume Reis, conhecido por sua forte presença nas redes sociais. “Mas o TikTok é uma rede única. São vídeos de 15 segundos ou um minuto, então temos que dar a seriedade necessária ao tema, mas dançar conforme a música.”

Com quase 30 mil inscritos em seu canal pessoal, ele admite que ainda está testando as melhores formas de engajar o público da nova rede. Vídeos em formato de lista (por exemplo: quais os melhores livros sobre valuation?) ou respondendo perguntas diretas dos seguidores (por exemplo: como investir no exterior?) têm gerado mais audiência. Há ainda o canal da Suno, em que analistas explicam conceitos e produtos da empresa.

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Outra potência das redes sociais, Thiago Nigro, o Primo Rico, também se aventurou no TikTok durante o período de isolamento social. Assim como no Instagram, ele mistura conteúdos de finanças pessoais com uma pitada da sua vida pessoal. Há vídeos mostrando a reforma de sua casa e brincando com o cachorro, mas também há listas de indicadores para escolher ações e fundos imobiliários. 

Assim como Reis, Nigro fez uma live durante a campanha Mente Milionária, e gostou do resultado. Com quase 130 mil seguidores, ele ficou ao vivo por pouco mais de uma hora, teve 87,5 mil espectadores, e faturou US$ 71 dólares através de doações do público. “Hoje de manhã tinha 45 mil pessoas na minha live do Instagram e não ganhei um centavo. No TikTok isso é diferente”, diz.

Ele conta ainda que empresas já começam a sondá-lo para realizar publicidade na rede. “O dinheiro flui para onde a atenção das pessoas está. Quem acreditar nisso primeiro, vai pagar mais barato”, afirma.

Apostando justamente no avanço do setor (e do TikTok), Nil Moretto e Leon Martins, donos dos aclamados canais ‘Coisa de Nerd’ e ‘Cadê a chave?’ no YouTube, lançaram um projeto de economia e finanças chamado Financeiro. Para isso, contam com o embasamento técnico do economista Luiz Persechini, cofundador da startup de jogos Sherwa e amigo da dupla tanto no pessoal, como no profissional.

O grosso do conteúdo fica no YouTube, mas a equipe tenta utilizar o TikTok como “uma grande janela de comunicação com um público que nem sabe que quer ler/assistir algo sobre economia”. Por conta disso, utilizam conteúdos recortados dos vídeos maiores postados na outra rede ou vídeos pensados para “nascer e morrer” no TikTok. “Ali tem que ser uma coisa mais “fast food”, mas existe um pensamento do que e como vamos comunicar”, explica Persechini.

Jornalista e especialista em criação de conteúdo, Nil afirma que não dá para planejar postagens com muita antecedência. “A receita é basicamente aliar conteúdo financeiro com os formatos que estão viralizando”, diz. “E essa construção é muito de feeling. Não ficamos escrevendo ideias na parede, vamos pensando em coisas ao longo do dia. Além disso, o TikTok tem uma dinâmica que te permite errar.”

E foi justamente querendo 'pirar' nessa liberdade oferecida pela rede social que o social media Mário Menezes e o diretor audiovisual Fabrício Andrietta criaram o perfil Economemes. O canal combina conteúdos humorísticos com embasadas dicas de finanças pessoais. Isso porque eles trabalham na Capital Research e o conteúdo foi originalmente pensado para as redes sociais da empresa.

Quando apresentaram o piloto, “As maiores cagadas do investidor brasileiro”, a marca considerou que o conteúdo não combinava com suas redes institucionais, mas liberou a produção e a participação de seus analistas para a criação de peças educativas. Com isso, é possível ver um meme sobre a treta entre XP e Itaú num vídeo e uma dica sobre reserva de emergência no próximo.

“A gente quer ‘descoxinhar’ o mercado financeiro e mostrar que tem muita gente vendendo sonhos na internet”, resume Mário. Andrietta cita referências da TV, como a MTV, e do próprio TikTok para construir a estética do canal. No último sábado (11), a dupla fez uma live na rede com o tema “como começar a investir em ações”. Três analistas da Capital participaram do evento para responder às dúvidas dos participantes. 

É consenso entre os personagens que a rede ofereceu todo apoio técnico necessário para participação no projeto. O Tik Tok também trabalhou na transmissão oficial da primeira edição digital e global da Campus Party, que ocorreu entre 9 e 11 de julho. Foram transmitidas centenas de palestras e outras atividades ao vivo, que agora estão disponíveis sob demanda.

Imbróglios internacionais 

Apesar do enorme crescimento entre o grande público, o TikTok vem sofrendo reveses governamentais. Nações e empresas de todo o mundo estão sendo sugadas para uma batalha em andamento entre os Estados Unidos e a China sobre o futuro da tecnologia. Países estão sendo forçados a escolher lados em um conflito que está rompendo as cadeias globais de fornecimento e empurrando as empresas para fora de mercados lucrativos.

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O primeiro grande solavanco aconteceu no mês passado, quando o TikTok foi bloqueado na Índia depois de um conflito na fronteira com a China, no qual morreram pelo menos 20 soldados indianos. Além deste caso, mais recentemente, no dia 06 de julho, as autoridades norte-americanas disseram que iriam banir o aplicativo ao avaliar que ele pode trazer uma ameaça à segurança nacional.

A notícia foi divulgada ao mesmo tempo em que a empresa anunciava que deixaria Hong Kong em meio a uma ampla lei de segurança nacional que a China impôs à cidade.

A briga neste momento entre as duas maiores economias do mundo está no centro dessa questão. Estados Unidos e China estão competindo em inteligência artificial, redes móveis 5G e outras tecnologias. Embora os países tenham laços econômicos de longa data, que possibilitariam alguma colaboração, as recentes tensões sobre segurança nacional levaram seus governos e empresas a reconsiderar parcerias.

Em nota, a empresa afirma que o “TikTok é liderado por um CEO americano, com centenas de funcionários e líderes-chave em segurança, produtos e políticas públicas nos EUA. Não temos outra prioridade senão promover uma experiência de aplicativo segura e confiável para nossos usuários. Nunca fornecemos dados dos usuários ao governo chinês e nem o faríamos se solicitado.”

*Com Jill Disis, do CNN Business

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