A Creditas quer reformar, comprar ou vender o seu imóvel (e lucrar com isso)


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
17 de agosto de 2020 às 06:59 | Atualizado 17 de agosto de 2020 às 08:43
Sergio Furio Creditas

Sergio Furio, fundador e presidente da Creditas: 'Itaús' virando 'Mercados Livres' e vice-versa

Foto: Creditas/Divulgação

A fintech Creditas nasceu com foco em empréstimos com garantia – para oferecer menores juros aos clientes, dava dinheiro aos clientes em troca de um caução que envolvia o imóvel da pessoa ou o automóvel. Agora, a empresa quer ir além: além de emprestar dinheiro, a startup vai ajudar os seus clientes a fazer a troca, venda, compra ou até mesmo a reforma dos imóveis que estão sob garantia da empresa. E ganhar dinheiro com isso, é claro.

Segundo o presidente e fundador da Creditas, o espanhol Sergio Furio, a ideia da empresa é trazer uma série de serviços para os consumidores que já tem imóveis ligados à empresa. Em suas contas, a cada quatro anos o cliente toma alguma decisão para o seu imóvel – reformar, trocar, comprar ou vender. 

Então, a meta da companhia é dar liquidez aos donos dos empréstimos para que essas decisões sejam tomadas de maneira mais rápida. O mesmo tipo de serviço já é feito por outras startups, como Loft e 5Andar – ambas consideradas unicórnios, já que são avaliadas acima de US$ 1 bilhão.

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E, de acordo com Furio, já existem clientes próprios da Creditas com potencial de serem os primeiros a testarem esse tipo de serviço: cerca de 30% daqueles que tomam crédito com garantia de imóvel dentro da plataforma utilizam esse dinheiro para reformas.

Mas essa investida no setor imobiliário não representa uma mudança radical no foco em empréstimos da Creditas? Na opinião de Furio, não. Ele diz ter certeza que os bancos e instituições financeiras de hoje não sobreviverão por mais dez anos se mantiverem com os mesmos planos de negócio. 

“Cada vez mais, os ‘Itaús’ se tornarão ‘Mercados Livres’ e os ‘Mercados Livres’ se tornarão 'Itaús’”, diz o executivo. Então, as fintechs precisarão prestar cada vez mais serviços para os seus clientes. Por isso, na visão de Furio, aprofundar a presença no setor imobiliário faz sentido.

No caso da venda, por exemplo, a Creditas vai garantir um adiantamento de 60% do valor do imóvel ao proprietário (como uma forma de empréstimo). A partir daí, a empresa dá uma carência de 12 meses para o início do pagamento – enquanto isso, a própria fintech começa a trabalhar o imóvel para venda. Após a venda, o empréstimo é quitado e o proprietário recebe o saldo restante (descontado os juros, obviamente).

E para acelerar a comercialização do imóvel, a Creditas recrutou uma equipe de arquitetos e vendedores para fazer as reformas, fotografias e a distribuição das informações do imóvel para sites de classificados. Além disso, os corretores de imóveis passarão a ser tratados como “assessores”, segundo Furio.

“O corretor atual tem um número de imóveis e te empurra aqueles que eles têm. O que queremos criar é o papel de concierge de compra”, diz ele. “Se o cliente tiver interesse em morar em Moema com quartos para as crianças, esse corretor vai atrás de um imóvel dessa maneira.”

Para completar, a empresa quer ampliar a sua loja virtual, a Creditas Store. Por enquanto, apenas celulares e eletrônicos estão sendo vendidos por lá. E a compra acontece como uma forma de empréstimo com garantia: o cliente que é funcionário de uma empresa que tem contrato com a Creditas, pode fazer uma compra a prazo com crédito consignado em cima de seu salário. 

Dessa maneira, Furio estima que o negócio de crédito ligado aos imóveis deve ter um incremente de 25% a 30%. 

Futuro da fintech

A Creditas não abre o tamanho do aporte que essa nova área consumiu para entrar no ar. Mas Furio afirma que a empresa está capitalizada para realizar os investimentos necessários para o negócio prosperar

De acordo com o executivo, desde o início da pandemia, a Creditas começou a gerar caixa, pois diminuiu os investimentos em marketing e na ‘compra’ de clientes. Com isso, a empresa terá dinheiro suficiente para ter um crescimento de cerca de 80% neste ano.

E, por agora, a fintech não enxerga necessidade de novos aportes. Nem mesmo para 2021. O último aporte que a empresa recebeu foi há um ano, quando o fundo japonês Softbank despejou US$ 231 milhões na empresa, o que a fez ser avaliada em US$ 750 milhões.

“Sempre mantemos conversas ativas, mas o mercado sabe que estamos super bem e com uma carteira de crédito forte”, diz Furio.

Com a entrada em novos setores, a Creditas também não descarta, futuramente, em virar uma espécie de banco. “Em termos regulatórios, podemos atuar como uma conta de pagamentos e um sistema de pagamentos pode até fazer sentido”, diz Furio. A conferir. 

Voos maiores

Desde o aporte da Softbank e a aquisição da Creditoo, por exemplo, a Creditas passou a alçar voos maiores e a demonstrar aceleração em seus negócios. A companhia, que detinha algo como 600 funcionários até 2018, hoje, conta com mais de 1.600 colaboradores espalhados pelo Brasil, México e Espanha. 

Para conseguir acelerar os projetos – e com um alto investimento em sua conta – passou a investir em polos tecnológicos e a adotar em sua plataforma novos modelos de negócios, voltados a um público mais amplo.

Não à toa, após o aporte, inseriu em sua carteira uma nova modalidade de empréstimo, o crédito consignado privado – com a inserção da Creditoo na companhia. A partir deste momento, a empresa conseguiu apostar mais mais modelos com parcerias, como a inédita com a Apple, ao oferecer uma opção de crédito para financiar a compra de iPhones, e com a Totvs, que fornece software de gestão para empresas.

Como próximo passo, criou um market place para vender soluções aos colaboradores conveniados ao consignado e a atrair um público mais heterogêneo, que não precisa necessariamente ter um carro ou um casa para dar como garantia do empréstimo: basta ser CLT de uma empresa conveniada ao consignado da fintech.  

Já em julho deste ano, antes de lançar o Creditas Home – área de troca, venda e reforma de imóveis – a fintech anunciou a solução de antecipação salarial aos colaboradores de empresas conveniadas ao consignado. Diferente do modelo de negócios central da companhia, a antecipação salarial não funciona como um modelo de empréstimo. Isso acontece, pois o funcionário da companhia pode pedir a antecipação dos dias já trabalhados, desde que não ultrapasse 40% do total do salário mensal. 

Agora, com a solução de home, a fintech espera aumentar a movimentação de negócios com quem já faz parte de sua carteira de clientes, bem como fidelizá-los. E, quem sabe, nos próximos meses, a Creditas se une ao 5Andar e a Loft e passa a integrar o clube dos unicórnios brasileiros. 

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