IPO da Havan mostra empresa ainda fraca no digital e levanta dúvidas sobre valor


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de agosto de 2020 às 15:34 | Atualizado 28 de agosto de 2020 às 17:26

A Havan é mais uma das empresas que devem estrear na bolsa em 2020. Com o prospecto enviado para a B3 (B3SA3) a varejista, fundada e controlada por Luciano Hang, pretende arrecadar R$ 5 bilhões para o caixa da empresa e ajudar em sua expansão. Além disso, especula-se que o próprio Hang venderia uma parte de sua fatia para ajudar a capitalizar.

Hang é o único acionista da empresa, com 100% de participação. Com esses números, ventila-se no mercado que seria uma operação próxima de R$ 10 bilhões, segundo informações dos jornais Valor Econômico e O Estado de S. Paulo. Isso colocaria a empresa em um valor de mercado de R$ 100 bilhões.

Mas faz sentido a Havan ter esse valor? “A princípio não me parece nem um pouco realista. Só tem uma empresa que vale mais de R$ 100 bilhões no varejo brasileiro e ela se chama Magazine Luiza”, diz Daniela Bretthauer, analista de varejo da Eleven. 

A menção à Magazine Luiza (MGLU3) não é à toa. Uma das principais estrelas da B3 nos últimos anos, a empresa é avaliada em R$ 150 bilhões. Para se ter uma ideia, a Via Varejo (VVAR3), que é dona das Casas Bahia e do Ponto Frio, tem valor de mercado estimado em R$ 32,5 bilhões. 

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Luciano Hang

Foto de arquivo do empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, no Palácio do Planalto, em Brasília (06.set.2019)

Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Só que existem grandes diferenças entre todas essas empresas. A principal delas seria o tamanho. Enquanto a Via Varejo reportou receita líquida de R$ 11,6 bilhões no primeiro semestre deste ano (redução de quase 6%) em comparação a 2019, a Havan registrou R$ 3,2 bilhões em vendas, uma queda de quase cerca de 20%.

Enquanto isso, o Magazine Luiza teve vendas menores do que a Via Varejo no primeiro semestre, cerca de R$ 10,8 bilhões, mas terminou o período com crescimento de 25% – isso em meio à pandemia do novo coronavírus. O grande diferencial da empresa foi a sua forte presença digital, caminho que vem sendo trilhado desde que Frederico Trajano assumiu a liderança da companhia, no fim de 2015.

Não à toa, cerca de 80% das vendas do Magazine Luiza vieram do comércio eletrônico no segundo trimestre deste ano. Já a Via Varejo alcançou 70% no mesmo período, ante 18,5 no ano anterior. O percentual da Havan? Meros 0,5% de participação. Em 2019, a empresa vendeu míseros R$ 77 milhões pela internet – justamente por não ter um canal digital fortalecido. 

A Havan, segundo especialistas, precisará provar que conseguirá correr atrás do prejuízo (digital e monetário) nessa história. No primeiro semestre deste ano, impactada pela pandemia, a varejista de Hang reportou prejuízo de R$ 127,5 milhões. 

Para mudar esse cenário, a empresa afirmou que criou uma divisão para a sua transformação digital, chamada de Havan Labs – qualquer semelhança com o Luiza Labs, do Magazine Luiza deve ser mera coincidência.

Com isso, a companhia pretende colocar no ar um novo aplicativo de vendas neste mês e lançar um software de recomendação de compras em setembro. A companhia também pretende criar uma parceria com empresas especializadas em entregas o “Super Entrega Havan”, que tem como símbolo o próprio Hang vestido como super-herói e com um corpo todo musculoso.

Somente em dezembro, segundo o prazo no prospecto, a empresa deve entregar o seu marketplace – exatamente a área em que companhias como Magazine Luiza e Mercado Livre estão tendo alguns de seus melhores resultados.

O varejo físico tem força

Apesar da parcela quase que ínfima da Havan no mercado digital, a empresa pode ser considerada, sim, um sucesso no varejo físico. De uma maneira bem peculiar, a Havan cresceu por meio das megalojas, que mais lembram as gigantes lojas de departamento de antigamente, como Mappin e Mesbla.

Com cerca de 4,7 mil metros quadrados de áreas de venda, cada unidade leva investimentos de cerca de R$ 25 milhões. Atualmente, a companhia possui 149 lojas e quer chegar a 200 até o final de 2022.

Em 2019, a empresa teve vendas de R$ 10,5 bilhões e um lucro líquido de R$ 428,4 milhões.

O diferencial da Havan é ter apostado no interior e fugido da concorrência das grandes varejistas. As suas lojas não são apenas destinadas para venda de produtos, mas funcionam como verdadeiros shoppings. Quer dizer, uma das poucas opções de entretenimento de cidades menores.

“A Havan sempre busca localizações que tenham uma área de influência em vários municípios, para transformar a loja em um destino regional”, diz Alberto Serrentino, sócio da consultoria Varese Retail, especializada em varejo. “São sempre visíveis e de fácil acesso, que fez Hand criar um negócio de grande escala.”

Visíveis, de fato, não podem deixar de ser. Inspiradas nos Estados Unidos, país que Hang nunca escondeu sua admiração e paixão, as lojas quase sempre possuem símbolos americanos, como a Estátua da Liberdade e são similares à Casa Branca, residência oficial dos presidentes americanos.

Havan Bank

Em seu prospecto, a empresa também falou da importância que o braço financeiro da Havan terá em sua expansão. A ideia é colocar mais um banco digital na história, com conta digital, possibilidade de pagamento de contas, produtos de crédito pessoal e programa de fidelidade.

Atualmente, a empresa já tem um cartão de crédito que fornece aos clientes. Atualmente, são 4,3 milhões de cartões. Mas os resultados mostram que não é tão simples assim gerir uma instituição financeira. Atualmente, a empresa tem R$ 2 bilhões a receber de seus clientes, mas já conta com calotes de R$ 420 milhões.

Entre os serviços prestados a esses clientes dos cartões pela Havan estão venda de pacotes de viagens e até mesmo consórcio de automóveis, motocicletas e máquinas.

Aos investidores, a companhia afirmou que pretende utilizar todos os recursos obtidos para expansão de lojas e centros de distribuição, investimentos em tecnologia e um reforço no capital de giro. Porém, para ter os R$ 5 bilhões, é possível que Hang tenha que colocar mais do que 5% da varejista no mercado.

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