Retrospectiva 2020: As ações que mais surpreenderam (e avançaram) no ano

A parte de cima da B3 teve o boom das empresas de varejo e tecnologia, superciclo de commodities e algumas surpresas setoriais

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
21 de dezembro de 2020 às 05:00
investimentos, ações
B3 teve diversos momentos de baixa, mas também de alta no ano
Foto: Divulgação

Em 2020, a volatilidade esteve presente como poucas vezes na história moderna do mercado financeiro. No Brasil, além das crises de saúde e econômica, tivemos ainda muitas turbulências políticas em Brasília, que atrapalharam a vida dos investidores durante boa parte do ano.

Apesar disso, e como também ocorreu em outras bolsas ao redor do mundo, uma série de papéis listados no Ibovespa ainda encontraram janelas para crescer consideravelmente ao longo do ano --alguns deles na casa dos três dígitos. E diversos fatores ajudam a explicar como esse movimento se deu.

O primeiro deles, no auge da crise, foi uma procura alucinada por ativos que não sofressem tanto com o fechamento dos países e que, ao mesmo tempo, dessem opções para uma futura vida tecnológica, sem sair de casa. Nos EUA, ganharam as big techs e as empresas do setor como um todo.

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Por aqui, além dessas, avançaram as varejistas com maior presença, ou pré-disposição para crescimento, no digital. Isso porque o e-commerce brasileiro ainda é defasado em relação às principais potências do globo e tem muito para crescer em setores como logística e pagamentos.

Depois veio novembro, quando o Ibovespa acumulou sua maior alta percentual para o mês desde 1999, voltando a patamares próximos de fevereiro (e acabando de devolver suas perdas anuais em meados de dezembro). 

Nessa fase, deu-se a já infame rotação de portfólios e as commodities começaram a brilhar, já que o mercado chinês operava a praticamente plenos pulmões e esperava-se que o país asiático conseguisse crescer ainda em 2020.

"Enquanto as empresas de tecnologia e varejo tiveram alta gigantesca na pandemia, outros setores caíram até 80%. Agora, os investidores voltaram a entrar nestes segmentos que tinham ficado para trás", disse Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, no início de dezembro.

Partindo deste contexto, e com a ajuda de analistas ouvidos pelo CNN Brasil Business, elencamos as ações que mais surpreenderam em 2020. São elas:

WEG

Não é exatamente uma surpresa, mas uma empresa que consegue crescer mais de 110% num ano como este precisa estar em qualquer lista positiva. A empresa catarinense (WEGE3), que começou como produtora de motores elétricos, não sentou em cima do sucesso e segue inovando e crescendo.

"A queridinha da bolsa. Tem um lado exportador muito grande; então, mais de metade da sua receita vem de fora. Além da diversificação de produtos, tem diversificação de países também. Com a desvalorização cambial, a empresa foi muito beneficiada", disse Aline Tavares, gerente da casa de análises Spiti.

Magalu e varejistas

Beneficiado pelo avanço emergencial do e-commerce, o setor varejista surfou na bolsa, enquanto a maioria dos ativos despencava. Dentre as empresas do meio, no entanto, o Magazine Luiza (MGLU3) era o mais preparado para digitalizar sua operação e avançar nos segmentos de marketplace e logística. Com isso, também avançou três dígitos em 2020.

"Empresas que estavam mais avançadas nesse processo de digitalização chamaram atenção dos investidores. Nessa linha, acredito que Magazine Luiza e Mercado Livre (MELI34) argentina, mas com forte presença no Brasil) foram impecáveis na execução dos vários processos inerentes ao setor este ano", disse Fernando Barbará, head de renda variável do Andbank Brasil.

B3

A casa da bolsa de São Paulo (B3SA3) teve um ano e tanto. O próprio CEO Gilson Finkelsztain, num momento juscelinesco, disse a jornalistas em encontro virtual de fim de ano que a empresa viveu 5 anos em 5 meses e que a tendência entrando em 2021 ainda é muito positiva. E os dados comprovam isso.

"Como empresa, a B3 cresceu muito. Este ano trouxe um aumento gigantesco no número de investidores, assim como um crescimento substancial no volume negociado dentro da casa", disse Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora. Isso sem falar no avanço das ações em si, de quase 50% no ano.

PetroRio

Superada a crise do petróleo em abril, veio a bonança no final do ano. Irmã menor de concorrentes gigantes como a Petrobras, a PetroRio (PRIO3) já vinha há algum tempo caindo nas graças de investidores, conforme ganhava seu espaço no mercado de exploração de petróleo brasileiro e sustentava um crescimento consistente. 

Somente no dia 19 de novembro, suas ações conseguiram o feito de subir 29,9% de uma vez depois da notícia de que a companhia comprou da britânica também gigante BP um pedaço de dois blocos de exploração na bacia do pré-sal. Foi sua entrada na cobiçada camada de petróleo da costa brasileira. 

"O foco da PetroRio são os poços mais maduros, com mais manutenção. Ela foi comprando vários ativos do plano de desestatização da Petrobras e entregando bons resultados ao longo do tempo. Com a entrada no pré-sal, que tem custos baixos de extração, vai ainda diminuir seus gastos", afirmou Bruno Komura, gestor de renda variável da Ouro Preto Investimentos.

CSN, Vale (Bradespar) e siderúrgicas

Com a China aumentando cada vez mais sua produção, as commodities estão tendo um ciclo (alguns analistas já chamam de superciclo) muito virtuoso no final de 2020, que pode também ser carregado para 2021. Nessa linha, aço e minério vêm se destacando com vários ajustes seguidos de preço, o que é bom para as empresas brasileiras.

No caso da CSN (CSNA3), que subiu mais de 100% no ano, o momento vem junto com uma melhora interna da empresa. "Faz anos que a empresa vem buscando reduzir os níveis de alavancagem, e vem demonstrando isso nos resultados. Isso também ajuda uma visão positiva por parte dos investidores", diz Komura. A empresa deve realizar, no início de 2021, o IPO do seu braço de mineração, a CSN Mineração, o que também trouxe reação positiva do mercado.

Bradespar (BRAP3), braço de investimentos do Bradesco, tem grande porção das ações da Vale (VALE3), por isso sobe junto com a mineradora.

Localiza/Unidas 

Um setor que performou como as piores empresas no primeiro semestre e como as melhores na segunda metade do ano, graças à volta temerosa da população às ruas. A Localiza (RENT3), que sobe 40% no ano, adquiriu ainda os negócios da Unidas (LCAM3), segunda maior empresa do setor.

"As pessoas ainda não querem usar transporte coletivo, o que ajudou muito o mercado. Outras verticais, como a venda de seminovos e a contratação de carros por assinatura, também responderam bem. Tudo isso ajudou a segurar o setor", diz Barbará, do Andbank Brasil.

Small Caps

Locaweb (LWSA3)

A empresa de tecnologia Locaweb foi uma das primeiras a realizar um IPO na bolsa de valores brasileira neste ano. E fez em um momento que muitos acreditaram que era certeiro: os investidores apostavam que 2020 seria o ano das aberturas de capital. 

Suas ações até chegaram a cair 58% em março, que foi o epicentro da bagunça nos mercados, mas o momento ruim durou apenas 20 dias. A companhia já avançou mais de 200% em comparação com o preço da abertura. 

"Locaweb se mostrou resiliente e soube aproveitar o momento de crise, que não só não afetou a empresa, como ajudou a expandir seus negócios. Também realizou uma série de aquisições importantes que foram completando o seu portfólio", disse João Freitas, analista da Toro Investimentos.

Taurus (TASA3, TASA4)

As ações da Taurus até chegaram a cair forte com a possibilidade de isenção tributária para a importação de armas (que o STF barrou por enquanto), mas o saldo no ano ainda é 150% positivo. A empresa ganhou espaço com o discurso armamentista de Bolsonaro e tratou de arrumar a casa.

"Estava em situação complicada, com endividamento fora de controle e reputação de produção abaixo da média. Mas ganhou apoio de gente grande, como o mega investidor Luiz Barsi, e foi se reestruturando. Como grande parte dos seus negócios são fora do país, também se beneficiou com o câmbio", disse Freitas, da Toro.

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