Somos parte da sociedade, diz CEO da Bayer, que doou R$ 2,7 milhões para Unicef

Marc Reichardt diz que intenção das doações é ajudar comunidades vulneráveis no país

Tamires Vitorio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de maio de 2021 às 04:30
Bayer
Foto: Bayer/Divulgação

Quando Marc Reichardt começou a trabalhar na Bayer, há 36 anos, ele não podia esperar o que estava por vir. Em agosto 2018, quando se tornou CEO da companhia, seu maior desafio era integrar a Monsanto, recém-comprada pela empresa, à Bayer, e pensar em como digitalizar todos os processos da companhia. Para Reichardt, a Bayer e o mundo todo, tudo mudou em meados de março de 2020, quando a pandemia do novo coronavírus deixou de ser um problema distante.

"Lembro-me do nosso primeiro comitê de crise, ou quando começamos a ter ciência de que a pandemia ia chegar no Brasil", conta ele ao CNN Brasil Business. "Somos parte da sociedade e, como parte da sociedade, temos que tomar as responsabilidades para nós mesmos", diz.

Dentro da empresa, a farmacêutica de origem alemã colocou alguns funcionários em home office e digitalizou 100% os eventos de lançamentos de medicações. Fora, realizou doações milionárias.

Em abril do ano passado, foram doados R$ 5,7 milhões — sendo que R$ 2,8 milhões foram voltados para o Projeto Arrecadação Solidária, do Governo Federal; cerca de R$ 2 milhões para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef); e cerca de R$ 900 mil para a compra de itens de segurança e insumos hospitalares.

A doação mais recente aconteceu nesta quarta-feira (12), quando a Bayer anunciou uma doação de R$ 2,7 milhões para o Unicef para levar recursos às regiões semiáridas do Brasil e para a Amazônia.

Do total, R$ 1,5 milhão serão voltados para a reabertura das escolas públicas, bem como para a capacitação dos professores e a doação de celulares, chips e internet para famílias de baixa renda e o apoio para hospitais públicos comprarem equipamentos. Os outros R$ 1,2 milhão serão para comprar e distribuir diferentes equipamentos de proteção pessoal, além de termômetros, oxímetros, entre outros.

Para Reichardt, a preocupação das empresas privadas com o setor público se tornará cada vez mais importante. "Estamos passando um momento muito interessante, no sentido da importância da cooperação, porque isso vai definir a qualidade das empresas", afirma. Para os brasileiros, ele deixa um conselho: "Continuem se cuidando, a pandemia ainda não acabou."

Leia abaixo a entrevista completa com o CEO da Bayer:

Reichardt: "Devemos entender que as doações são uma responsabilidade que temos na sociedade"
Foto: Bayer/Divulgação

Como a Bayer está lidando com a Covid-19?

Como sabemos, estamos passando pelo maior desafio na história da empresa e da humanidade, de lidar com uma pandemia. É algo que não esperávamos e, há mais de um ano, quando sentamos para discutir a situação e as medidas, logicamente a primeira preocupação foi a segurança e a saúde dos nossos colaboradores, colocar todo mundo em casa e tomar as medidas necessárias para evitar o contágio.

Mas é lógico que, como uma empresa de saúde e nutrição, saúde é o nosso foco —e discutimos como manter nossas operações nessa situação. Então, definimos protocolos para deixar os colaboradores que precisavam trabalhar presencialmente com segurança, e conseguimos entregar nossos produtos de forma correta.

E nossa preocupação também foi como nós, com tanta história no Brasil, podíamos apoiar a sociedade brasileira. E aí tomamos a decisão de fazer algumas doações.

E quais foram essas doações?

Tínhamos muito interesse em entregar recursos para as pessoas mais vulneráveis, e essas pessoas são muito afetadas pelas crises.

A primeira doação que fizemos foi focada em três iniciativas, com uma focada no governo federal, outra no fundo da Unicef e [outra] no SUS.

No caso do governo federal, cooperamos com uma doação de arrecadação solidária, na qual doamos R$ 2,8 milhões, que foram distribuídos para o atendimento de pessoas mais idosas.

No ano passado, doamos cerca de R$ 2 milhões para o Unicef, que foram direcionados para a montagem de kits e cestas básicas para famílias vulneráveis do Brasil. E, para o SUS, doamos R$ 900 mil, direcionados especificamente para a compra de equipamentos de proteção hospitalar. Essas foram as três iniciativas que fizemos em 2020.

E agora, neste momento, estamos focando em outras iniciativas, estamos fazendo mais doações, neste caso, também através do Unicef.

Como funcionam as doações deste ano?

Uma delas é o plano de emergência contra a Covid-19 na Amazônia. Já a outra iniciativa tem a ver com a compra de equipamentos de saúde. 

Estamos doando R$ 1,5 milhão para o semiárido no Brasil, para a abertura das escolas públicas durante a pandemia. Nossa preocupação são as crianças e adolescentes que tiveram de ficar fora da escola, e queremos capacitar os professores de escola pública.

Nesse valor também está inclusa a doação de celulares, chips e internet para famílias de baixa renda para estimular esse retorno e para dar segmento às atividades escolares em regiões onde houve muito abandono escolar.

Também queremos apoiar os hospitais públicos por meio de doações de equipamentos para a  saúde. A outra iniciativa com o Unicef foi a compra e distribuição de equipamentos de saúde. E estamos doando R$ 1,2 milhão adicional para comprar e distribuir diferentes equipamentos de proteção pessoal, além de termômetros, oxímetros, entre outros.

Qual a importância de a iniciativa privada realizar doações para a iniciativa pública em tempos de crise?

O SUS é um sistema que funciona muito bem e tem uma cobertura muito ampla, e entendemos que, com as nossas doações, vamos ajudar de certa forma —e isso é muito importante. Devemos entender que as doações são uma responsabilidade que temos na sociedade. 

Você se tornou CEO em agosto de 2018 e, em menos de dois anos, teve de lidar com uma pandemia. Como foi isso?

Quando eu cheguei, as prioridades eram, sem dúvida nenhuma, a integração da Monsanto. O Brasil é a nossa segunda operação a nível global, e era importante fazermos a integração de maneira bem-sucedida.

O outro foco era começar uma jornada de transformação, onde a ideia e a prioridade eram converter a empresa em uma empresa mais digitalizada, e aproveitar melhor as tecnologias, além de ampliar vínculos com os clientes e melhorar processos com a digitalização.

E aí chegou a pandemia. Apesar de distantes, tentamos fazer as coisas acontecerem, continuamos com as nossas prioridades, aceleramos muitas iniciativas. E foi impressionante ver como o relacionamento com os clientes virou virtual e, mesmo assim, conseguimos entregar produtos e serviços e solucionar problemas.

Além disso, fizemos lançamentos virtuais na área médica. No passado, antes da pandemia, os lançamentos eram com 400 ou 500 médicos. Em 2020, criamos o lançamento virtual, e foi muito bem-sucedido. Tivemos mais de 100 mil médicos na live, e funcionou muito bem. Foram desafios grandes, mas que mostram que conseguimos conciliar o digital e o virtual.  

Para você, qual a principal diferença entre o seu primeiro dia de trabalho na Bayer e o dia em que você reparou que a pandemia não passaria tão rápido?

Eu entrei na Bayer há 36 anos. O que eu lembro é que fiquei impressionado. Eu estudei agricultura e estava procurando uma posição em uma empresa agrícola. Eu não soube até o final que ia entrar aqui. Não sabia que a empresa tinha uma divisão agrícola, eu conhecia a Aspirina.

Em meu primeiro contato com a estrutura da empresa, e com tudo o que a empresa faz, eu fiquei impressionado e pensei: "Nossa senhora! Que bom entrar na Bayer". E, ao longo dos anos, só pensei que foi fantástico.

Já a minha memória do primeiro comitê de crise, ou quando começamos a ter ciência de que a pandemia ia chegar no Brasil, é muito diferente. Senti muito medo do que estava acontecendo na Itália e na Espanha naqueles dias. Estava tudo colapsado, e a minha preocupação era como fazer as pessoas entenderem que isso ia chegar ao Brasil e que precisaríamos tomar todas as medidas adequadas para minimizar o impacto da doença. Eu lembro muito bem dessas imagens, dessas conversas com colegas italianos e espanhóis — e era terrível.

E, pouco depois, tivemos essa situação no Brasil. Estamos passando um momento muito interessante, no sentido da importância da cooperação, porque isso vai definir a qualidade das empresas.

Como o papel do CEO mudou com a pandemia?

O papel do CEO e dos líderes ainda está mudando, porque é diferente você liderar atrás do mundo virtual e à frente das pessoas. É diferente liderar quando você não sabe o que pode acontecer depois —e ninguém de nós sabe o que vai acontecer depois da pandemia.

Vai ser uma jornada, e vamos aprender muito. Vamos ter que experimentar coisas. Mas acho que o papel do CEO é dar confiança, e mostrar que não é ele quem define tudo, mas, sim, um grupo de pessoas.

É aprender com os erros e sempre continuar aprendendo, sempre. Isso exige uma mudança na maneira de liderar as pessoas e na maneira de treinar os líderes.

E, por outro lado, acredito que é muito importante um CEO ter contato com a sociedade e participar dela, participar da realidade do país. Somos parte da sociedade e, como parte da sociedade, temos que tomar as responsabilidades para nós mesmos.