Por que o coronavírus originário na Índia se tornou “variante de preocupação”

Mutações podem dar origem a variantes de interesse, de preocupação e de alta consequência, a mais temida de todas

*Elmer Huerta, da CNN
13 de maio de 2021 às 13:12 | Atualizado 13 de maio de 2021 às 14:26
Casos de Covid-19 na Índia seguem batendo recordes consecutivos
Casos de Covid-19 na Índia seguem batendo recordes consecutivos e preocupam autoridades mundiais
Foto: Reprodução/CNN Brasil (20.abr.2021)

A variante B.1.617, detectada pela primeira vez na Índia, passou a ser considerada uma "variante de preocupação" pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma categoria mais transmissível. Antes, ela havia sido classificada como uma variante de interesse, menos preocupante. 

À medida que mais casos da variante B.1.617 foram surgindo na Índia e em outros países – a variante foi descoberta também na Argentina –, ela passou a se encaixar na categoria de outras como a B117, originária do Reino Unido, a B.1.351, da África do Sul, e a P.1, do Brasil.  

O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) classifica as variantes do novo coronavírus em três categorias: variantes de interesse, variantes de preocupação e variantes de alta sequência. Entenda o significado de cada categoria e como estudos genéticos permitem o mapeamento de novas variantes.

Como surgem as variantes?

Antes de entender o que diferencia uma variante de interesse de uma variante de preocupação, é importante entender como surgem as mutações.

Toda vez que um vírus infecta uma pessoa, ele tem a possibilidade de sofrer mutação, ou seja, mudar sua composição genética. Por isso, quanto mais infecções ocorrem em uma região, maior a possibilidade de que variantes do vírus possam originar novas versões. 

Disseminando-se progressivamente desde sua origem em Wuhan, na China, (onde admite-se que o novo coronavírus surgiu) para outras partes do mundo, causando milhões de infecções, o Sars-CoV-2 mudou progressivamente em sua estrutura molecular que, graças ao sequenciamento genético, pôde ser analisada detalhadamente. 

Um grupo de cientistas alemães e britânicos analisou o genoma do vírus desde seu surgimento e acompanhou sua evolução através das mutações, que ocorriam à medida em que o vírus se espalhava progressivamente para outros países. Entenda o que significa cada tipo de variante:

Variantes de interesse: incluem marcadores genéticos específicos que predizem sua capacidade de afetar a transmissão, o diagnóstico, a terapia ou a resposta aos anticorpos neutralizantes do vírus. Podem exigir ações de saúde pública, incluindo vigilância do vírus, ou investigações epidemiológicas para avaliar a facilidade de transmissão, se causam doenças mais graves, qual a resposta a tratamentos, e se as vacinas atuais oferecem proteção a elas.

Alguns exemplos de variantes de interesse são B.1.526, de Nova York, e P.2, do Brasil. A variante B.1.617, da Índia, estava neste grupo, mas agora foi reclassificada como variante de preocupação.

Variantes de preocupação: há evidências de que elas têm maior capacidade de contágio. Essas variantes se manifestam de forma mais grave nos doentes, levando a mais hospitalizações ou mortes, são mais resistentes a tratamentos e vacinas, e têm mais falsos negativos em testes de detecção de diagnóstico.

Variantes de preocupação podem exigir ações de saúde pública específicas, como notificação à OMS, em virtude do Regulamento Sanitário Internacional, notificação ao CDC, esforços locais ou regionais para controlar a disseminação, e desenvolvimento de novas vacinas ou testes diagnósticos. 

Variantes de alta consequência: são consideradas as mais resistentes a tratamentos e vacinas. Segundo o CDC, elas elevam o risco de doença clínica mais grave, causam aumento de hospitalizações, e diminuem significativamente a eficácia da vacina. 

Uma variante de alta consequência exigiria notificação à OMS, relatório ao CDC, anúncio de estratégias para prevenir ou conter a transmissão e recomendações para atualizar tratamentos e vacinas. Felizmente não foram detectadas até o momento variantes de alta consequência do coronavírus.

Mutações do novo coronavírus

Para conseguir entender as mutações e seu poder de transmissibilidade, foi preciso estudar a fundo a filogenética do vírus (phylo significa clã ou tribo, e genética significa origem). O estudo da filogenética do novo coronavírus nos permite analisar as mudanças genéticas que, como se fosse uma impressão digital, ocorreram à medida que ele se espalhou pelo mundo, e poderia ajudar a classificá-las.

Em estudo publicado na revista Proceedings of National Academy of Sciences, dos Estados Unidos, em 2020, pesquisadores relataram o resultado da análise dos primeiros 160 genomas dos vírus isolados de humanos em vários países, de dezembro de 2019 a 4 de março de 2020. Seus achados permitiram classificar o novo coronavírus, de acordo com sua evolução, em três grupos ou troncos genéticos, A, B e C.

Tronco genético tipo A: é o vírus mais próximo do descoberto em morcegos e é considerado o genoma original do novo coronavírus humano. Essa variedade já estava presente em Wuhan, mas surpreendentemente não era o tipo de vírus predominante na cidade durante o início da pandemia. Versões mutantes dele foram encontradas em americanos que viviam em Wuhan e em pacientes nos Estados Unidos e na Austrália.

Tronco genético tipo B: diferente do A apenas por duas mutações, este tipo de vírus foi o mais encontrado na cidade de Wuhan e é comum em pacientes do Leste Asiático. No entanto, a análise filogenética mostrou que essa variante não viajou muito além da Ásia Oriental. Um fenômeno de adaptação mal compreendido àquela área geográfica ou resistência à sua propagação em outros países.

Tronco genético tipo C: derivado da variante B, é o principal tipo europeu do novo coronavírus. Foi encontrado nos primeiros pacientes na França, Itália, Suécia e Inglaterra. Este tipo não foi encontrado em pacientes da China continental, mas em outros países asiáticos como Cingapura, Hong Kong e Coreia do Sul.

Devemos esclarecer que as letras que aparecem na frente das variantes, por exemplo B.1.117, B.1.351 ou C.37 não vêm das linhagens de vírus descobertas no estudo, mas de um complicado sistema de classificação para SARS-CoV-2 denominado PANGO, que, partindo do vírus original em Wuhan, está atribuindo letras e números aos vírus que estão sendo descritos por análises genômicas no mundo.

*Médico especialista em Saúde Pública 

(Texto traduzido. Leia o original, em espanhol