Alta dos preços e paralisia do comércio são ameaça ao Brasil, dizem economistas

Assim como o resto do mundo, o país deve sofrer com a disparada nos preços das commodities, bem como com uma falta de fertilizantes importados da Rússia

Foto: Pexels

Thais Herédiado CNN Brasil Business

em São Paulo

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As sanções tomadas pelos países para inviabilizar o uso das reservas internacionais do Banco Central da Rússia surpreenderam analistas econômicos no mundo todo.

O bloqueio das operações de bancos russos no sistema swift já era esperado, mas a asfixia do sistema financeiro do país governado por Vladimir Putin é medida inédita e com efeitos ainda incalculáveis.

Nesta terça-feira (1), o mundo observou mais surpresas. As maiores empresas globais, em diversos setores, foram anunciando, uma a uma, a decisão de romper relações, negócios e operações com a Rússia. Uma escalada de pressão com penalidades também nunca vistas antes.

“Essa decisão é inacreditável. Eu nunca vi nada parecido e o que chama atenção é que são ações descentralizadas, de maneira universal, todas fazendo por conta própria, assumindo os riscos e os custos. Isto tudo é um nó de grandes proporções para a economia russa, uma operação abafa”, disse à CNN o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados.

O primeiro efeito deste conjunto de ações é a disparada nos preços das commodities, como estamos vendo.

O petróleo WTI foi o destaque, chegando a subir 10% e passando de $100 dólares o barril pela primeira vez desde 2014. O tipo Brent, referência mundial e da Petrobras, subiu mais de 8% nesta terça-feira (1), cotado acima dos $105 dólares.

A Agência Internacional de Energia decidiu liberar parte de suas reservas de emergência para garantir fornecimento à Europa e tentar segurar as cotações. A entidade age como um contraponto à Opep, que representa os maiores produtores do mundo.

“É como se fosse uma OCDE do petróleo”, disse à coluna David Zylbersztajn, ex-presidente da ANP, agência reguladora do setor no Brasil.

“Neste momento, tudo que se fala sobre o que vai acontecer com os preços do petróleo é na base da opinião. Neste segmento, o certo é que todo mundo, em geral, erra. Não há um modelo consagrado de previsão aceito no mercado. Isso se acentua em momentos de instabilidade. Cenário sobre petróleo é de prudência e atenção — não é um mercado estável, confortável”, afirmou Zylbersztajn.

Na abertura do mercado internacional desta quarta-feira (2), os preços dos dois tipos continuaram subindo. A cotação do WTI se aproximava dos $110 dólares, do Brent, passando da marca nas primeiras horas do dia.

“O preço petróleo hoje está totalmente enviesado para a questão geopolítica. Cada vez que há mais dúvida sobre longevidade da guerra e de consequências, os preços vão explodindo. O petróleo ainda é a principal commoditie do mundo e tem o poder de levar todas as outras atrás dele, na alta e na queda. Isso vai virar uma enorme inflação”, alarmou Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

Comércio Internacional

Entre as sanções de empresas privadas contra a Rússia, a adesão das responsáveis pelo transporte marítimo no mundo levantou muitas bandeiras amarelas sobre o impacto no comércio internacional.

Além do preço das commodities — que provoca aumento dos custos do frete — a economia global corre o risco de enfrentar uma paralisação. Em menos de dois anos do abalo inicial promovido pela pandemia do novo coronavírus.

O Brasil vai sentir o impacto dos choques de duas formas, para o bem e para o mal. Preços maiores aumentam receita dos exportadores, mas o cenário de instabilidade e incertezas não garante ganhos para país.

“Todos nós seremos afetados, direta ou indiretamente. O comércio vai paralisar e nós vamos sentir aqui também. Os países devem começar a selecionar para quem vender para garantir como receber”, disse à CNN o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores, José Augusto de Castro.

“Para o Brasil, a Rússia é pequena para exportação, mas dependemos da importação dos fertilizantes. Sem eles, a produtividade da lavoura cai muito. Nós vamos ter que enfrentar a guerra sem estar na guerra, com preço alto dos produtos e inflação”, acrescentou.

O economista José Roberto Mendonça de Barros adiciona uma ressalva que considera crucial na leitura do cenário atual. O tempo, a extensão da guerra, a escalada da resposta da Rússia, a asfixia da economia russa. Cada um desses fatores pode levar um desfecho diferente.

“É crucial deixar claro qual o horizonte de tempo que estamos falando. Convém separar o que pode acontecer no curto prazo. Tudo indica que não há alternativa que não a paralisia do comércio internacional”, avaliou.

Neste curto prazo, do ponto de vista financeiro ou comercial, a Rússia está sufocada. Todas essas ações acontecendo ao mesmo tempo provocam choque e respostas inclusive no plano moral, não apenas dos negócios”, completou.

Na visão de Mendonça de Barros, o conjunto do agronegócio brasileiro será afetado, mas ainda é prematuro prever os desfechos enquanto a guerra se desenrola.

“Ainda assim, mesmo sabendo que o agronegócio pode ser impactado, não será nada comparado com o que vai acontecer com o custo de vida dos brasileiros. Teremos abalo no PIB deste ano, na inflação e a resposta que será demandada do BC. É um momento de muita incerteza”, afirmou.

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