Bolsonaro modera tom e usa agenda econômica para reverter imagem internacional

Para especialistas, presidente recorreu na ONU à pauta liberal de seu governo em busca de um melhor enquadramento de suas ações ambientais e na pandemia

Presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro Alan Santos/PR

Da CNN Brasil

em São Paulo

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O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) buscou moderar o tom no aspecto econômico e mostrar conquistas na área de infraestrutura e no agronegócio em seu discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na manhã desta terça-feira.

Em sua fala, Bolsonaro elencou leilões nas áreas de saneamento e telecomunicações, parcerias privadas e o agronegócio brasileiro como atrativos e provas de um Brasil “diferente” do que estava “à beira do socialismo” antes de seu governo.

“Sob a ótica estritamente econômica foi um discurso que buscou dar ênfase no que estamos procurando fazer na infraestrutura, salientando leilões de saneamento, 5G, novo modal ferroviário, tentando fazer um link com a questão ambiental”, diz Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da corretora Órama e professor da IBMEC-RJ.

Para o economista, Bolsonaro tentou mostrar as vantagens do Brasil como grande mercado consumidor. “Ele enfatizou também a importância da agricultura, o que vejo com bons olhos, tentando melhorar a imagem do país em relação à Amazônia. Em suma, no aspecto econômico foi um discurso sem surpresas e de bom tom, pois uma das nossas melhores ações são no campo da infra”.

“Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional”, disse Bolsonaro na ONU. O presidente buscou usar dados do agronegócio em contraponto aos números de desmatamento na Amazônia e convidou colegas a visitarem a floresta.

“Acho que ele não fez o discurso no improviso, o que por si só já é um fator positivo”, avalia Álvaro Bandeira, economista-chefe e sócio do banco digital Modalmais. “Os dados e as colocações não me parecem ser exatamente o que acontece no Brasil, mas sim uma visão pessoal dele. Mas [o discurso] não trouxe nenhum grande dano ao comportamento dos mercados, o que é bom. Isso junto com a história dos precatórios, que aparentemente os investidores gostaram, mas que abre brecha para gastos questionáveis e para formar uma bola de neve para o futuro.”

Bandeira se refere ao anúncio feito pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), depois de uma reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Ele afirmou que uma nova solução foi desenhada pelo Legislativo e pelo Executivo e o pagamento de precatórios ganhará um teto de quase R$ 39,40 bilhões dentro do Orçamento Público, que segue a regra do teto de gastos.

O discurso econômico liberal de Bolsonaro na ONU tinha o objetivo de mostrar ao mundo que seu governo é comprometido com algumas agendas importantes para a comunidade internacional. “Bolsonaro tentou passar ao público externo a imagem de um líder conservador, de direita, comprometido com uma agenda conservadora, contra o socialismo, fez menção explícita a isso. Numa sinalização de que a agenda de proteção do meio ambiente e de modernização do país fazem parte de seu governo”, explica o cientista político Carlos Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e Empresas (Ebape), da Fundação Getúlio Vargas.

Pereira aponta que Bolsonaro também falou para seu público no Brasil. “Esses discursos normalmente têm dois tipos de audiência, a externa e a interna. Para a interna, foi mais a retórica de confrontação e de diferenciação da agenda polarizada com o PT, de agregação de sua base.”

Nesse ponto, Bolsonaro voltou a criticar governadores que adotaram medidas restritivas de combate ao coronavírus, os chamados passaportes de vacinação e exaltou o tratamento precoce. “Medidas de isolamento e de lockdown deixaram um legado de inflação no país”, disse o presidente. “Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina.”

Para Pereira, é da natureza política tentar alimentar sua base, especialmente em momentos de fragilidade. “O discurso teve muitos deslizes. Mas também é normal de um líder político construir uma narrativa, especialmente na vulnerabilidade em que Bolsonaro se encontra, de perda de popularidade. Por outro lado, ele contou com o vigor de apoiadores nas ruas no 7 de Setembro. Então, ele precisa manter a base coesa”, afirma.

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