Com guerra, economistas já falam em inflação de até 7% e juros de mais de 13%

Conflito entre Rússia e Ucrânia pressionou cotação do petróleo, de alimentos, fertilizantes e deve piorar os preços de diversos produtos no Brasil

Alimentos e combustíveis são os que mais devem sofrer com aumentos
Alimentos e combustíveis são os que mais devem sofrer com aumentos 02/09/2021 REUTERS/Ricardo Moraes

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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As expectativas para inflação e juros no Brasil em 2022 já não estavam das mais confortáveis há muitos meses. O estouro da guerra na Ucrânia, porém, no final de fevereiro, fez rapidamente com que as perspectivas piorassem ainda mais.

Isso, na prática, significa que o brasileiro – tanto quanto o resto do mundo – terá que conviver com preços ainda mais altos, com juros mais pesados e por um tempo também mais longo do que o que já era esperado após a sucessão de choques que a pandemia deixou de herança.

Em meio a uma leva de revisões nos últimos dias, já há bancos que falam em uma inflação de até 7% no final deste ano no Brasil, considerado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

É o caso, por exemplo, do banco Credit Suisse (que tinha uma projeção anterior para o IPCA de 6,2%), do BNP Paribas (de estimativa anterior de 6%) e do Paraná Investimentos, que também espera a inflação do país nos 7% ao fim de 2022.

O grosso das projeções anteriores falava em números mais próximos do 6%. Atualmente, o IPCA está em 10,54% em 12 meses.

Entre as estimativas mais conservadoras, está o banco de investimentos UBS BB, que revisou o IPCA para o ano de 4,5% para 5,7%.

Em qualquer dos cenários, a inflação deve estourar mais uma vez o teto da meta estipulada pelo governo, que, para 2022, é de 3,5%, com tolerância máxima de 5%.

“O conflito entre Rússia e Ucrânia deve levar a preços de combustíveis e alimentos muito mais altos e a uma melhora mais fraca nas cadeias globais de produção”, disse o BNP em relatório a clientes na semana passada.

“Esses desafios vão mais do que superar os efeitos dos anúncios recentes no Brasil de redução de impostos e de uma conta de luz menor.”

Juros a 13%

Com mais pressões sobre os preços, o entendimento geral é que o Banco Central será obrigado a subir ainda mais a Selic, a taxa básica de juros do país, fazendo com que ela passe dos 13% nos próximos meses. O BC anuncia nesta quarta-feira (16) a nova Selic que deve vigorar pelas próximas semanas.

Nas projeções pré-guerra, a expectativa era dos juros pouco acima dos 12%, o que já seria o maior patamar dos últimos cinco anos e uma dose cavalar de efeitos recessivos sobre a economia.

“Antes, esperávamos que a Selic chegaria a 12,5% no primeiro semestre e que, no final do ano, o Banco Central já pudesse começar a baixá-la para 11,5%”, disse o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani. “Agora, entendemos que o aumento vai ser mais alto, até os 13,25%, e também vai durar mais, até o início do próximo ano.”

A projeção de inflação do BV para o ano, também revista, passou de 5,3% para 6,5%.

Aumentos generalizados

Entre os produtos que os brasileiros podem esperar ficar (ainda) mais caros, estão, principalmente, os combustíveis e os alimentos, já que os preços do petróleo, de fertilizantes e de importantes grãos, como milho e trigo, subiram muito nos mercados internacionais desde o estouro do conflito entre Rússia e Ucrânia, importantes fornecedoras desses produtos.

“Além de afetar o consumidor final, que usa o carro ou ônibus, o petróleo e a gasolina são usados para uma série de outras coisas. Também encarecem o frete, o que tem reflexo nos custos de tudo”, disse o economista-chefe da Necton Investimentos.

Ele estima que, após o reajuste de 18% aplicado pela Petrobras na semana passada sobre a gasolina nas refinarias, o combustível na bomba deve ficar entre 8% e 11% mais caro, dosado por outros elementos que entram no preço final e também pela maior dificuldade de repasse pelo postos diretamente para os consumidores.

Em suas últimas revisões, a Necton elevou a projeção para o IPCA de 5,8% para 6,8%, e, para a Selic, de 12,25% para 13,25% ao fim de 2021.

Ajuda das exportações e alívio no dólar

Uma pequena boa notícia é que, apesar do nível de juros mais alto, poucos economistas estão mexendo em suas projeções para o PIB do ano, que já deve ser baixo: a maioria das projeções fala em alta de até 0,5%.

A equipe econômica do banco Itaú, por exemplo, um dos poucos que chegou a esperar um PIB mais uma vez negativo em 2022, revisou seus números de uma queda de 0,5% para um crescimento de 0,2% na economia do país neste ano.

“A política monetária seguirá significativamente contracionista, mas os preços de commodities estão em alta e a política fiscal está estimulando a demanda”, afirmou o banco em relatório, mencionando iniciativas do governo federal e estaduais de redução de impostos e ampliação de gastos.

“Os preços de commodities mais elevados, a perspectiva de crescimento marginalmente melhor e a taxa Selic mais elevada ao longo do ano são fatores importantes que devem continuar atuando na direção de atrair um fluxo maior de dólares para o Brasil. Com isso, é plausível que a moeda brasileira passe uma parte maior do ano em patamar mais apreciado.”

A estimativa do Itaú é que a moeda norte-americana, em meio às oscilações, passe 2022 a uma cotação média de R$ 5,25. O banco elevou sua projeção para o IPCA do ano de 5,5% para 6,5% e acredita em uma taxa Selic chegando a 13%.

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