José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O que Kopenawa ensina sobre a relação entre Brasil e Portugal

Em Óbidos, Portugal, Davi Kopenawa ensinou crianças portuguesas a representar o mundo. A cena mostra o que pode mudar na relação entre Portugal e Brasil quando quem recebe também se dispõe a aprender

Neste sábado (17), no Fólio, o festival literário de Óbidos, em Portugal, que se inspirou na Flip de Paraty, vi o xamã e líder yanomami Davi Kopenawa falar durante seis minutos na sua língua a um grupo de crianças portuguesas.

Sentadas à sua volta, diante de uma parede onde pendiam desenhos, escutavam-no com uma atenção que me impressionou. Pareciam aceitar com naturalidade que alguém tivesse algo a ensinar-lhes numa língua que desconheciam.

Eu tinha descoberto "A Queda do Céu", escrito com Bruce Albert, quando preparei a curadoria 200 anos 200 livros para contar a história do Brasil no bicentenário da independência.

Entre poesia, romance, novelas, obras de história, economia, direito e literatura infantil, nenhuma obra me impressionou tanto como ela. Hoje, anos depois, Kopenawa estava diante de mim, a partilhar com crianças portuguesas a sua maneira de ver o mundo.

Quando passou ao português, contou, entre risos, que lhe tinham batido para aprender aquela língua, que associava à ocupação da sua terra. Agora, usava-a para ensinar aquelas crianças a cuidar da terra delas. Ouvir a lembrança da violência e a vontade de ensinar dava ao encontro uma dimensão que nenhuma programação de festival poderia antecipar.

Em Portugal, há relatos de crianças brasileiras repreendidas na escola pelo modo como falam e de crianças portuguesas censuradas por adotarem expressões brasileiras. Ensinar a norma europeia faz parte da tarefa da escola; tratar a maneira de falar de uma família como sinal de inferioridade já significa ensinar outra coisa.

É nesse ponto que o encontro de Óbidos ganha importância para a relação entre os dois países. A presença brasileira participa cada vez mais na vida portuguesa, nas palavras dos nossos filhos e nas referências com que crescem.

A disposição para receber brasileiros fica incompleta quando lhes reservamos apenas o dever de se adaptar. Uma relação entre iguais exige admitir que também podemos aprender com quem chega e que essa aprendizagem nos transforma.

Em Óbidos, vi crianças portuguesas escutarem uma língua desconhecida e aprenderem com Kopenawa a representar o mundo. Gostaria que levassem essa curiosidade para a escola, quando um colega brasileiro dissesse "grama" onde elas aprenderam a dizer "relva".

A relação entre Portugal e Brasil também se constrói nesse reconhecimento: podemos cuidar do chão que partilhamos sem exigir que todos usem as mesmas palavras para o descrever.