José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Portugal: A diáspora como sistema

País europeu tem uma das raras vantagens estratégicas do século XXI: cidadãos espalhados pelo mundo, com memória, afeto, competência, capital, reputação e desejo de ligação. O erro seria confundir essa potência com cerimônia

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Portugal não cabe no mapa que herdou. Cabe menos ainda na ideia pequena de que a sua diáspora é apenas uma extensão sentimental da pátria, uma coleção de bandeiras, sotaques da terrinha, fotografias e discursos de circunstância.

A 1.ª edição do Fórum Portugal Nação Global que aconteceu em Lisboa, nasceu de uma intuição correta: a diáspora portuguesa não pode ser tratada como nostalgia organizada, mas como ativo estratégico para o desenvolvimento econômico do país luso.

No evento, que reuniu empresários, investidores, especialistas, empreendedores, câmaras de comércio, confederações, associações e lideranças políticas, havia muitos brasileiros, conferindo ainda mais força à ideia de que Portugal é, não só a porta de entrada da Europa, mas sobretudo um lugar de saída para o mundo.

Esta é uma ambição justa. Portugal possui uma vantagem que muitos países maiores tentam fabricar artificialmente: uma rede humana espalhada pelo mundo, culturalmente reconhecível, economicamente ativa e afetivamente disponível.

A organização fala em mais de 5 milhões de portugueses e lusodescendentes presentes em 178 países. Esse número não é um ornamento estatístico. É uma infraestrutura potencial de influência, comércio, ciência, investimento, turismo, reputação e poder brando. Em linguagem direta: é capital global adormecido.

Aqui o fórum acerta ao deslocar a conversa para onde ela vale mais. Para o investimento, a internacionalização de pequenas e médias empresas, diplomacia econômica municipal, instrumentos financeiros, desburocratização e grandes acordos comerciais internacionais.

Demos nossas boas vindas a um Portugal que começa a perceber que cada comunidade no exterior pode ser também antena, ponte, sensor de mercado, radar de oportunidade e acelerador de confiança.

Mas é também aí que mora o perigo. A diáspora não pode continuar a ser chamada apenas quando se precisa de uma sala cheia, uma emoção patriótica ou uma fotografia institucional. Os portugueses do mundo não são figurantes da política externa.

São empresários, cientistas, professores, médicos, engenheiros, investidores, artistas, trabalhadores, gestores, diplomatas informais e tradutores culturais. Quase sempre, chegam antes do Estado, conhecem melhor os mercados e têm mais credibilidade local do que qualquer campanha oficial de promoção.

Por isso, agora, o desafio principal do governo luso — que organizou muito bem este primeiro evento — é transformar essa presença em mecanismo. O país global não se constrói só com fóruns.

Constrói-se com plataformas permanentes de inteligência econômica, fundos de coinvestimento com a diáspora, programas de mentoria para empresas portuguesas, redes científicas operacionais, diplomacia profissionalizada, circuitos culturais de circulação real, instrumentos financeiros acessíveis e metas verificáveis.

Ninguém como o Brasil entende a força de uma presença cultural que abre portas antes da diplomacia. Portugal tem outra natureza: mais institucional, mais discreta, mais disciplinada; e essa contenção pode ser uma força, desde que não se converta em timidez ou, ainda pior, insista na escassez como bandeira comercial.

A lusofonia entra aqui como oportunidade e armadilha. Oportunidade porque oferece língua, escala, memória, Brasil, África, Europa, América e Ásia numa mesma constelação histórica. Armadilha porque pode virar palavra bonita demais para políticas fracas demais.

A língua portuguesa é uma casa comum; mas uma casa comum sem portas comerciais, científicas, tecnológicas e culturais abertas transforma-se em museu.

Portugal está certo ao querer pensar como nação global. Vai errar se transformar essa intuição em cerimônia elegante, com bons discursos e pouca consequência.

A próxima etapa para Portugal não é celebrar portugueses espalhados pelo planeta. É construir com eles uma máquina inteligente de futuro. Toda a língua ganhará com isso.