Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Nas urnas, a esquerda virou situação e a direita, mudança

Eleitor inverteu percepção sobre qual dos campos políticos "abraça" a defesa das instituições e a linguagem da contestação

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Passei boa parte desta eleição fazendo o que faço há anos: olhando dados, redes e comunidades digitais para entender por que algumas mensagens atravessam grupos enquanto outras morrem dentro da própria bolha. Mas talvez o resultado de 2026 peça um pequeno desvio desse lugar.

Há uma leitura que se repetiu desde domingo e que, a meu ver, confunde duas coisas diferentes. Esta não foi uma eleição da antipolítica. Foi, sobretudo, uma eleição antissistema.

A diferença não é apenas semântica. A antipolítica procura o empresário, o técnico, o escritor ou a celebridade justamente porque eles não são políticos. O antissistema é outra coisa: é a rejeição à ordem vigente, às instituições da forma como decidem e se organizam e aos grupos percebidos como seus guardiões.

Um político profissional pode ser profundamente antissistema. Talvez essa seja uma das melhores formas de compreender o Brasil de agora.

Os números ajudam. Em 2010, Dilma Rousseff teve 46,91% dos votos válidos, José Serra 32,61% e Marina Silva 19,33%. Em 2014, Dilma ficou com 41,60%, Aécio Neves com 33,55% e Marina chegou a 21,32%.

Em 2026, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) concentraram juntos 92,19%. O espaço para um terceiro nome competitivo encolheu brutalmente. Augusto Cury (Avante), com 2,89%, talvez tenha sido nesta eleição a expressão mais clara do velho outsider: alguém cuja credencial vinha de fora da política.

Tiririca (PSD-CE), que teve mais de 1,3 milhão de votos em 2010, terminou 2026 com cerca de 5,5 mil. Caneta Azul (Avante-SP) teve pouco mais de 7 mil.

Enquanto isso, Nikolas Ferreira (PL-MG) recebeu 3,1 milhões, Lucas Pavanato (PL-SP) 3 milhões e Erika Hilton (PSOL-SP) quase 1,6 milhão. Nenhum deles representa a negação da política. Ao contrário: são políticos em estado permanente, produzindo identidade, pautas e organizando suas comunidades todos os dias.

O outsider clássico perdeu espaço para algo mais adequado ao nosso tempo: o insider que se apresenta como insurgente.

Há, porém, uma diferença fundamental entre a eleição proporcional e a majoritária. Para deputado, o nicho pode ser uma vantagem extraordinária: não é preciso convencer a maioria, mas mobilizar suficientemente uma comunidade em torno de uma pauta, identidade ou visão de mundo. As redes favorecem essa dinâmica por conta das bolhas e algoritmos.

Na eleição presidencial, a lógica se inverte. É preciso aglutinar grupos, atravessar fronteiras e falar com quem não pensa da mesma forma. O que fortalece um nicho pode afastar quem está fora dele.

Essa distinção ajuda a entender também por que a eleição não representou simplesmente uma rejeição à política tradicional. Alguns sobrenomes desapareceram, enquanto outras famílias políticas permaneceram fortes, como o caso dos próprios Bolsonaros.

O eleitor parece menos interessado em saber há quanto tempo alguém vive da política do que em identificar de que lado do sistema ele está.

E talvez aqui esteja uma das maiores inversões das últimas décadas: a direita passou a falar a linguagem da contestação, enquanto a esquerda assumiu cada vez mais a defesa das instituições, das regras e das conquistas acumuladas. A esquerda, que reivindicou durante décadas a transformação da ordem, passou a ser percebida também como maior representante dela.

Existe ainda uma dimensão geracional. Não podemos dizer simplesmente que os jovens votaram contra o PT, mas alguém com 20 anos viveu a maior parte da vida sob governos petistas.

Para essa geração, o PT é governo, Brasília, poder e establishment. A esquerda já não pode presumir que ocupa naturalmente o lugar da rebeldia. No digital, esse lugar foi disputado, e a direita aprendeu a coreografia das redes: regularidade digital combinada com veemência retórica.

Talvez esse seja o recado mais incômodo das urnas para a campanha do presidente Lula.

O problema da esquerda não parece ser aprender a usar melhor o TikTok no segundo turno. É entender o Brasil que está usando o TikTok. Um Brasil evangélico, sertanejo, que incorporou a linguagem do empreendedorismo e flexibilizou sua própria relação com o trabalho.

Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 46% dos brasileiros têm como principal sonho profissional empreender; na classe C, autonomia e controle do próprio tempo passaram a ocupar um lugar que antes pertencia à estabilidade da carteira assinada e a dinâmica tradicional de classes sociais estabelecidas. Não é preciso concordar com essa visão de mundo para perceber que ela existe.

E talvez aí esteja uma dificuldade ainda maior. Parte relevante da esquerda parece não apenas distante da vida concreta de parcelas importantes do eleitorado, mas em estranhamento com ela: seus valores, sua família, sua religiosidade, seu trabalho.

A “família em conserva” foi uma caricatura reveladora desse desencontro: o momento em que a visão de mundo do eleitor deixa de ser algo a ser compreendido e passa a ser algo a ser corrigido, criticado ou como nas últimas manifestações nas redes, ridicularizado.

Esse eleitor também parece pedir mudança no próprio sistema. Para quem passou a ser percebido como parte dele, o desafio é convencê-lo de que quem está dentro também pode transformá-lo. Isso exige muito mais do que colocar parlamentares populares diante de uma câmera ou reproduzir a estética das redes.

A eleição proporcional permite falar com os convertidos; a presidencial exige construir pontes com quem ainda não está convertido e nos casos atuais, descrente da capacidade deste governo de trazer respostas concretas para mudar o sistema que faz parte e ajudou a construir.

Não há dancinha no TikTok capaz de resolver um problema de interpretação do país.

Se o recado das urnas foi por mudança, talvez o eleitor espere menos uma nova coreografia e mais uma explicação clara de como o sistema que ele rejeita pode mudar, acompanhada da humildade de reconhecer onde o governo falhou, inclusive numa economia que, para boa parte dos brasileiros, entregou muito menos do que prometeu.

Antes de aprender a comunicar com esse novo Brasil, é preciso aprender a escutá-lo.