Fertilizantes e dívidas devem ser maiores desafios do agro, diz Abag
Caio Carvalho, da Abag, alerta para armadilha da dívida, escassez de fertilizantes e restrição de crédito no campo diante do novo Plano Safra
O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de crescente complexidade, marcado por pressões externas e internas que ameaçam a estabilidade do setor nos próximos anos.
Em entrevista ao WW nesta terça-feira (30), Caio Carvalho, do conselho da Abag (Associação Brasileira de Agronegócio), avaliou o estado atual do setor às vésperas do anúncio do novo Plano Safra 2026/27.
Segundo Carvalho, o agro vive atualmente o que ele define como uma "armadilha da dívida": uma combinação perigosa de crédito caro, preços baixos e custos elevados.
"Nós tivemos um crescimento de custos, por um lado, e tivemos uma queda pronunciada dos preços. Junto com isso, a questão dos juros", afirmou.
Impactos geopolíticos e escassez de fertilizantes
O especialista destacou que os conflitos internacionais têm gerado consequências diretas para o setor agrícola brasileiro. O impacto das guerras, iniciado com o conflito envolvendo a Rússia, elevou o preço dos fertilizantes e criou instabilidade logística.
Carvalho alertou que as dificuldades no Estreito de Ormuz e em outras rotas estratégicas ainda devem afetar o setor pelos próximos seis a sete meses. "Nem todo fertilizante talvez chegue nas condições que se precisaria. Nossa safra está muito em cima", advertiu.
Crédito restrito e redução de investimentos
Outro ponto crítico apontado por Carvalho é a crescente dificuldade de acesso ao crédito. Com bancos cada vez mais cautelosos para emprestar, produtores endividados podem não conseguir aproveitar eventuais recuperações de preço no mercado.
"A dificuldade do crédito, os bancos cada vez mais reservados para emprestar — a gente vai ter provavelmente alguma coisa de redução de investimento ou de tecnologia, portanto com sequelas a seguir", explicou.
O especialista projetou um 2026 muito difícil para o setor, com efeitos que devem se estender até 2027 e 2028. Ele também observou um movimento de consolidação em curso, com empresas maiores adquirindo outras menores.
"Provavelmente nós vamos ver um 2026 muito complicado, mas com sequelas em 27, 28", disse Carvalho, acrescentando que uma parte importante dos produtores não estará em condições de se beneficiar de possíveis altas de preços provocadas por volatilidades externas e fatores geopolíticos. "É um momento de muita volatilidade", concluiu.



