Privacidade é barreira ao uso de plataformas digitais em escolas

Pesquisa do Cetic.br mostra que receio com proteção de dados é citado por 39% das escolas públicas sem sistemas digitais de gestão

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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O receio com riscos à privacidade e à proteção de dados pessoais está entre os desafios apontados por 39% das escolas públicas brasileiras que ainda não utilizam programas, sistemas ou plataformas nas atividades de gestão escolar.

Em outras palavras, os gestores temem que, colocando a rotina da escola dentro de um sistema digital, possam perder o controle sobre informações de alunos e funcionários. E, embora reconheçam que transferir tudo isso para um sistema informatizado facilita o trabalho, ainda ficam com um pé atrás.

O dado é da pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais 2025, divulgada nesta segunda-feira (31) pelo Cetic.br, que produz as estatísticas de referência sobre internet no Brasil. Mas esse receio não se restringe apenas às escolas que ainda não adotaram ferramentas digitais.

Entre as escolas que já adotaram esses sistemas informatizados, a preocupação é ainda maior: 52% citam a privacidade entre os desafios enfrentados. O tema só perde para qualidade dos computadores e do acesso à internet (65%), falta de habilidades dos educadores e de outros funcionários (63%) e falta de integração entre os diferentes sistemas (53%).

A desconfiança, porém, não impediu que os sistemas chegassem. Sistemas de gestão criados pelo governo estão em 92% das escolas públicas, e 79% delas usam plataformas de ensino e aprendizagem. A discussão, portanto, não trava um processo que ainda vai começar, mas convive com um que já está em curso.

Como as escolas têm lidado com a preocupação sobre a proteção de dados

Se estava apenas restrito aos gestores, o assunto passou a ser tratado em espaços coletivos da escola, e não só por quem cuida de computador. Em 2025, 48% das escolas públicas realizaram debates ou palestras sobre privacidade e proteção de dados, contra 34% em 2023 — um salto de 14 pontos em dois anos.

Mesmo tendo menos sistemas coletando dados, a escola rural tem discutido o tema quase tanto quanto a urbana. Nas rurais, o índice de debates sobre a privacidade saltou de 27% para 46%. Nas urbanas, foi de 38% para 49% — um crescimento real, porém mais modesto.

Embora os alunos sejam os titulares da maior parte das informações, essas palestras são dirigidas principalmente a funcionários da escola (46%) e professores (45%), bem à frente de pais e responsáveis (31%) e dos próprios alunos (30%).

Os dados sobre escolas vêm da TIC Educação 2025, pesquisa anual do Cetic.br que entrevistou 2.404 gestores de escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio em todo o país, entre agosto de 2025 e abril de 2026. Os resultados integram a publicação Privacidade e Proteção de Dados Pessoais 2025, que reúne ainda dados sobre usuários de internet, empresas, órgãos públicos e estabelecimentos de saúde.

O que já está digitalizado na escola pública?

No dia a dia das escolas brasileiras, a digitalização já é rotina. Lançar frequência, fechar notas, atualizar cadastro de aluno: em 92% das escolas públicas, essas tarefas passam por sistemas de gestão criados pelo governo. Em 79% delas, há também plataformas de ensino e aprendizagem.

A lista não para por aí: 71% mantêm perfil ou página em redes sociais, 51% têm sistema interno de câmeras de vídeo e 45% usam sistema de gestão adotado pela própria escola. A digitalização, portanto, não é promessa — é rotina consolidada.

Tecnologias mais recentes também já estão sendo utilizadas. A inteligência artificial generativa é usada por 53% dos gestores escolares, índice idêntico em escolas urbanas e rurais. Já o reconhecimento facial para identificar alunos aparece em 6% das escolas — 9% nas estaduais e 5% nas municipais.

A foto revelada pela pesquisa é a de uma rede que digitalizou primeiro e foi discutir depois. As plataformas já estão em quase todas as escolas públicas, enquanto o debate sobre proteção de dados chegou à metade delas. Para os gestores que resistem, o receio não é sobre a tecnologia em si, mas sobre o que acontece com as informações depois que elas entram no sistema.