Margaret Atwood: “Controlar o corpo da mulher é uma forma de controlar a mulher”

Em mesa com o cientista Antonio Nobre na Flip, a escritora canadense discorreu sobre os ciclos da vida, sobre a natureza e seu livro mais famoso, "O Conto de Aia"

Margaret Atwood e Antonio Nobre em mesa realizada nessa quarta-feira (1)
Margaret Atwood e Antonio Nobre em mesa realizada nessa quarta-feira (1) Reprodução/Flip

Debora Sandercolaboração para a CNN

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Uma das convidadas mais aguardadas desta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Margaret Atwood participou na noite desta quarta-feira (1) da 10ª mesa do evento, “Utopia e Distopia”, dialogando com o cientista Antonio Nobre.

O tema tem forte presença não só no best-seller “O Conto da Aia”, mas em obras da autora como “Oryx e Crake” (2003), “O Ano do Dilúvio” (2009) e “Maddadão” (2013).

A trilogia narra em primeira pessoa a trama do último sobrevivente da espécie humana. Com o avanço da crise climática e o movimentado debate sobre possíveis saídas e soluções para o problema, tal fantasia literária traduz um medo que encontra cada vez mais sustentação na realidade.

“Assim como nós não estamos separados da natureza, não estamos separados do tempo e dos ciclos da vida. Nós queremos pensar que estamos acima de tudo, que somos seres que podem transcender a natureza, o tempo, as circunstâncias e a existência”, apontou a escritora canadense.

O cientista Antonio Nobre, por sua vez, é responsável por alguns dos estudos mais destacados sobre as ameaças contra as florestas brasileiras. Mesmo diante de dados desanimadores, ele persiste na defesa utópica da união e da colaboração – virtudes que, argumenta Nobre, possibilitaram a formação das células complexas de seres humanos, plantas e fungos e, portanto, estão na origem da própria vida.

“A colaboração é totalmente onipresente na natureza. Se você for olhar como essas células se formaram, é endossimbiose: um processo de fusão íntima, de união. É um processo de amor. O amor não deveria ser um tema piegas, não deveríamos ter dificuldade pra falar disso, especialmente cientistas”, defendeu.

Na mediação do debate, a portuguesa Anabela Mota Ribeiro perguntou a Margaret Atwood sobre o termo Ustopia, uma junção de utopia – uma sociedade perfeita imaginada – e distopia – seu oposto: um lugar infeliz, de dor e dificuldade.

O conceito, criado pela escritora canadense, sustenta a ideia de que a utopia e a distopia estariam contidas uma na outra, pois o que é perfeito no imaginário tende a assumir maiores contradições quando posto em prática, e do mesmo modo, contextos de opressão e dificuldade despertam a imaginação de outro mundo possível.

Atwood explicou: “Se olharmos para cada uma dessas distopias literárias, veremos embutida a ideia de uma sociedade melhor. E em cada utopia existe um pouco de distopia”.

Perguntada sobre a temática da fertilidade em sua obra mais conhecida, “O Conto da Aia”, a escritora de 82 anos discordou, bem-humorada, da ideia proposta pela mediadora de que escrever seria uma forma de ser fértil. “Livros não são como bebês”, afirmou.

“O Conto da Aia apenas volta cerca de 100 anos atrás, expondo como eram as coisas em meados do século 20, ao menos para as mulheres, especialmente quando colocadas num enquadramento fundamentalista religioso. Controlar o corpo da mulher é uma forma de controlar a mulher. Não apenas os regimes totalitários, mas também sistemas patriarcais em geral sempre quiseram fazer isso”.

Em falas que destacaram a gravidade da crise climática, os obstáculos para superá-la e as limitações do modo de vida estabelecido pelo ser humano no planeta, ambos os participantes sinalizaram a conexão com os saberes dos povos tradicionais como um caminho necessário para pensar formas mais harmoniosas de existência no mundo.

“Meu pai era entomologista florestal, então eu passei boa parte da minha infância em florestas canadenses. A perspectiva que isso nos dá é que há muitas formas diferentes de se viver”, lembrou Atwood. “Eu e o Antonio podemos concordar que temos que envolver a perspectiva dos povos nativos se quisermos ter a capacidade de reverter a abordagem mecanicista e tecnológica da civilização em que nos encontramos”, concluiu.

Antonio Nobre defendeu a união entre a ciência e os conhecimentos dos povos indígenas sobre as florestas para o desenvolvimento de uma consciência que, segundo ele, seria a única forma de proteger a sociedade da distopia.

“Os índios trazem numa linguagem de fábula uma síntese que tem a elegância da equação matemática mais poderosa para explicar os fenômenos. Nós dependemos deles para fazer uma leitura rápida e integrativa do holismo que nós perdemos com um mundo reducionista, sem, por outro lado, perder tudo que o reducionismo científico nos trouxe. Tem sido um ciclo de união fantástico com os povos indígenas e a ciência.”

No final do encontro, Margaret Atwood ressaltou que tem memórias de ouvir conversas sobre a extinção das espécies na mesa de jantar em sua casa.

“As pessoas falam sobre isso desde os anos 1950, os biólogos ao menos. O problema é que os políticos são pensadores de curto prazo, sempre pensam como se reeleger”, criticou.

Em seguida, ressaltou a mobilização da sociedade civil, citando a ativista Greta Thunberg, como um sinal de mudança de postura das novas gerações.

Ao final da fala, a escritora canadense fez questão de elogiar e agradecer pelo trabalho dos intérpretes de libras que participaram da mesa.

 

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