Após décadas escondendo a sexualidade, avô de 90 anos revela que é gay


Alicia Lee, da CNN
12 de agosto de 2020 às 07:53 | Atualizado 12 de agosto de 2020 às 08:10
Kenneth Felts

Kenneth Felts fez a revelação para a filha e depois aos demais parentes em publicação no Facebook: "Sou gay, me assumi e estou livre"

Foto: Rebecca Mayes

Preso em casa durante a pandemia com poucas coisas para fazer, Kenneth Felts começou a escrever suas memórias, registrando os 90 anos de sua vida.

Mas enquanto escrevia, ele rapidamente começou a perceber que sua história jamais estaria completa sem revelar o segredo que manteve escondido a vida toda: sua verdadeira sexualidade.

Felts, que hoje vive em Arvada, no estado norte-americano do Colorado, contou à CNN que sabe que é gay desde que tinha 12 anos de idade. Mas disse que preferiu esconder sua sexualidade porque cresceu em uma época em que a homossexualidade não era uma conduta aceita e era considerada ilegal.

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Muita coisa mudou nas últimas décadas, incluindo a decisão da Suprema Corte dos EUA de 2015, que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país.

Felts afirmou que suas memórias não estariam completas se ele não escrevesse sobre o verdadeiro amor que teve, Phillip. Então, aos 90 anos, ele finalmente revelou à filha que é gay, e depois contou aos demais parentes e amigos por meio de uma publicação no Facebook. “Sou gay, me assumi e estou livre”, escreveu Felts na rede social.

Um segredo que ele planejava levar para o túmulo

Segundo Felts, ele descobriu que era gay quando foi dormir na casa de um amigo da escola. Mas ele tinha aprendido com sua devota família cristã que homossexualidade era um pecado.

“Eu sabia que se falasse que era gay provavelmente iria para o inferno”, afirmou ele à CNN. “Eu iria levá-lo [o segredo] para o túmulo.”

Ao longo da vida adulta, incluindo sua ida à Coreia com a Marinha dos EUA durante a Guerra da Coreia, e os anos seguintes na faculdade, Felts viveu como um homem hétero.

Kenneth Felts na Marinha dos EUA quando foi enviado à Coreia

Kenneth Felts na Marinha dos EUA quando foi enviado à Coreia

Foto: Kenneth Felts

No fim dos anos 1950, ele se mudou para Long Beach, na Califórnia, para trabalhar em uma empresa de crédito de varejo. E foi lá que ele conheceu Phillip Jones.

“Quando eu o conheci, ainda era hétero e não esperava me assumir”, disse Felts. “Foi ele quem me ajudou com isso e me fez perceber que podíamos ficar juntos.”

Os encontros começaram em cafeterias, mas logo Felts passou a ficar mais tempo no apartamento de Jones do que em sua própria casa, e depois se mudou para lá. Por mais de um ano, eles viveram como um casal gay feliz, embora secreto.

“Quando eu morava com Phillip na Califórnia, a homossexualidade em si era ilegal”, afirmou Felts. “Era um crime, não podíamos segurar as mãos ou qualquer coisa parecida. Você seria preso caso se comportasse assim. Quando fosse ao tribunal, a informação sobre você seria espalhada por toda a cidade e você perderia os amigos e a família.”

A lei da sodomia na Califórnia não foi revogada até 1975. Com isso, o fardo de ser gay em uma sociedade que considerava isso um crime se tornou demais para Felts, e ele decidiu terminar o relacionamento com Jones.

“Pedi demissão, empacotei minhas coisas e voltei para casa”, afirmou. “Phillip me escreveu duas ou três cartas depois disso. Na última, ele disse ‘se você não responder esta carta, não vou mais incomodá-lo’”, contou.

“Não respondi, assim como não respondi nenhuma das outras cartas dele”, lembrou Felts. “Grande erro.”

Depois que terminou com Jones, Felts voltou a esconder a sexualidade. Mas desta vez, ele inventou um alter ego chamado “Larry” para criar uma separação ainda mais definida entre suas duas vidas. “Larry era meu lado gay e eu, Ken, era o normal, a pessoa hétero”, disse.

Enquanto mantinha Larry escondido, Felts conheceu uma mulher no grupo de jovens da igreja que frequentava. Eles se casaram e tiveram uma filha, mas se divorciaram em 1980. Mesmo naquela época, ele não tinha coragem de se assumir por medo de perder a guarda da filha.

Felts ia discretamente à biblioteca e folheava listas de telefone em busca de um único nome. “Eu liguei para todos os Phillip J. que estavam lá e nunca consegui encontrá-lo”, contou. “Vou morrer arrependido de ter deixado Phillip, mas espero que ele tenha me perdoado.”

Assumindo a sexualidade aos 90 anos

Enquanto crescia, Rebecca Mayes, hoje aos 48 anos, sabia que o pai tinha alguns arrependimentos na vida. Ela sempre pensou que se tratava de algo relacionado à mãe dela, mas finalmente descobriu em maio, durante a pandemia, a fonte da dor do pai.

Kenneth Felts ao lado da filha, Rebecca Mayes

Kenneth Felts ao lado da filha, Rebecca Mayes

Foto: Rebecca Mayes

“Estávamos conversando por telefone e ele me disse que perdeu o único grande amor da vida dele”, contou ela à CNN. “Ele não disse se era homem ou mulher.”

Mais tarde naquele dia, Felts revelou a Meyes em um e-mail que o amor da vida dele era Phillip Jones, um homem.

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A filha afirmou que ficou surpresa em saber que o pai era gay, considerando o fato de que ele reagiu com desânimo quando ela se assumiu lésbica há 25 anos.

“Ele me disse que o relacionamento não iria durar”, lembrou Mayes. Contudo, ela afirmou que o pai rapidamente mudou de postura e se tornou o maior apoiador dela e de sua, hoje, mulher.

“Acho que teve por mim os mesmos medos que teve por si mesmo sobre o quão difícil a vida seria, de não poder ter filhos a questões sociais”, contou Mayes, que hoje tem dois filhos.

Após se assumir para a filha, Felts logo revelou a verdade ao restante do mundo em uma publicação no Facebook, que contou com grande apoio e amor, segundo ele. Felts até compartilhou a história sobre Phillip Jones, na esperança de que alguém pudesse ajudar encontrá-lo.

Uma mulher em New Jersey, que ajudou a encontrar os pais biológicos de uma criança adotada, entrou em contato com Felts para ajudar a localizar o grande amor perdido dele. Mas, infelizmente, o que ela descobriu foi triste: Jones morreu em 2013. “Eu o amei até o fim e estou fazendo tudo isso por ele”, disse Felts.

Agora, como um orgulhoso homem gay, Felts afirmou que Larry venceu. Ele tem mechas azuis e rosas no cabelo, usa a bandeira de arco-íris do orgulho LGBT e até participou da Parada do Orgulho Gay de Denver.

Mas, mais importante, Mayes disse que o pai está mais extrovertido e confiante do que jamais foi. “Não sei como eu poderia não ser feliz pelo resto da minha vida”, afirmou Felts.

Pode ter levado 90 anos para ele se assumir gay, mas Felts disse que espera que sua história também dê a outros a coragem de abraçar a própria sexualidade. “Há um mundo enorme lá fora que vai te aceitar e te amar pela pessoa que você é”, disse.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês.)