Estrangeiros concentram 60% de fusões e aquisições em energia
Levantamento da Acorn Advisory mostrou que, em três anos, ticket médio das operações com compradores externos foi de R$ 1,2 bi, ante pouco mais de R$ 200 milhões em transações domésticas

O capital estrangeiro representou 60% do valor divulgado das aquisições de controle no setor de energia no Brasil nos últimos três anos, segundo mostrou um levantamento da Acorn Advisory, que foi obtido pela CNN.
Ao todo, o investidor estrangeiro respondeu por 30,7%, e os dados são referentes ao período entre julho de 2023 e junho de 2026.
Na comparação, a diferença entre a participação no número de transações e no valor total evidencia a concentração do capital externo em ativos de maior porte, sendo o ticket médio das operações com compradores estrangeiros de R$ 1,2 bilhão, ante pouco mais de R$ 200 milhões nas transações domésticas.
Dentre as empresas que aparecem com maior volume de transações estão:
- Volaris Group (Canadá)
- Brookfield (Canadá)
- Italian Exhibition Group (Itália)
- H&CO (EUA)
- One Fertilit (Canadá)
Já entre os países que mais investiram estão Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia e China, fechando os dez primeiros do ranking.
Para Gabriel Silva, sócio da Acorn Advisory, o investidor estrangeiro se concentra principalmente nos ativos de maior porte, enquanto os domésticos tendem a ir nos ativos "mid-market".
Durante o período, foram realizadas 189 aquisições de controle no setor, uma média superior a cinco negócios mensais. O volume foi registrado mesmo em um cenário marcado por custo de capital elevado e pela influência do calendário eleitoral nas decisões dos investidores.
Em 2025, o setor registrou 24 aquisições por estrangeiros, quase o dobro das 13 observadas no ano anterior. No mesmo período, a participação do capital internacional passou de 21% para 36%.
Dentro do setor, a geração responde por aproximadamente metade das 58 operações. Entre as fontes, a solar lidera, seguida por eólica e hídrica. Transmissão e distribuição representam cerca de 17% das transações.
Questionado sobre o que explica o aumento tão expressivo da participação estrangeira, Silva afirma que o salto "tem menos a ver" com os investidores entrando no Brasil e mais com estrangeiros concentrando os maiores cheques.
"Nos últimos anos, as grandes operações de controle e consolidação foram, em boa parte, lideradas por grupos globais. A Neoenergia é um bom exemplo: em 2025, a Iberdrola pagou cerca de R$ 12 bilhões pela participação da Previ e depois avançou para deter 100% da companhia", afirmou.
Ainda segundo o sócio, o custo de capital também explica o movimento, pois, com juros elevados no Brasil, os compradores domésticos mais dependentes de dívida perdem competitividade, enquanto estratégicos globais e fundos de infraestrutura têm acesso a capital de longo prazo e conseguem disputar os maiores ativos.
Para 2027, a perspectiva é uma melhora com a queda dos juros, além de maior visibilidade política e novos vetores de demanda, como data centers. Segundo Gabriel, o cenário tende a destravar novamente transações de maior porte.
Como polo líder, a Europa permanece como o principal comprador, com investidores que seguem teses específicas por segmento, a exemplo da Iberdrola, que tem atuação concentrada em redes, já EDF, Statkraft, Totalenergies e Equinor se destacam em diferentes frentes de geração e renováveis.
Transmissão segue atraente
Em relação aos segmentos de energia, a transmissão segue como um dos segmentos mais atraentes, segundo explicou Silva.
O motivo se deve às concessões serem de longo prazo, com receita regulada e alta previsibilidade de fluxo de caixa, o que as tornam muito aderentes ao perfil de fundos de infraestrutura e investidores institucionais.
Além disso, a forte competição nos leilões também favorece as aquisições e fusões.
Em 2025, a Equatorial Energia vendeu a divisão de transmissão para o fundo de pensão canadense La Caisse (antiga CDPQ) por R$ 9,4 bilhões em 2025.
Neste ano, a Taesa comprou cinco ativos de transmissão de energia da Energisa, em uma operação avaliada em R$ 1,63 bilhão.
"Quando os retornos de projetos greenfield ficam mais apertados, ativos já operacionais ganham atratividade por oferecerem fluxo de caixa conhecido e menor risco de execução", explica.
Já em renováveis, o capital ficou mais seletivo, tendo os cortes de geração (conhecidos como "curtailment") e os preços mais baixos de energia reduzido o apetite por geração mais exposta ao mercado.
"Hoje, o investidor busca menos o megawatt em si e mais a qualidade e a previsibilidade dos contratos associados a ele", disse.
Nesse contexto, os data centers entram como uma combinação de geração renovável com contratos de longo prazo para grandes cargas digitais, que devem ganhar cada vez mais espaço, podendo gerar operações relevantes nos próximos anos.
Para o ano seguinte, a consultoria enxerga três frentes com potencial para concentrar os maiores cheques, sendo a transmissão operacional, eventuais mudanças de controle em distribuição e plataformas renováveis com contratos de longo prazo, como os data centers.
"Se tivermos que apontar um segmento, transmissão hoje parece o candidato mais forte para liderar as grandes transações", concluiu.
China
Embora a China ocupe a décima posição no ranking, o setor elétrico brasileiro atrai há anos grandes investimentos do país asiático. As estatais State Grid e China Three Gorges (CTG), controladas pelo governo de Xi Jinping, lideram esse movimento, com negócios como a aquisição da CPFL Energia pela State Grid e a compra das usinas de Jupiá e Ilha Solteira pela CTG.
Se antes as fusões e aquisições eram a principal porta de entrada dessas companhias no Brasil, agora os projetos novos, conhecidos como greenfield, ganham espaço. O movimento é impulsionado pelos megaleilões de transmissão, pela expansão das fontes renováveis, pela necessidade de eletrificação e pelo crescente interesse em data centers. Um exemplo é a Spic Brasil, subsidiária local da chinesa State Power Investment Corporation (Spic), que foi uma das vencedoras do leilão de capacidade.
O interesse também se estende ao armazenamento de energia. Para o leilão de baterias, previsto para dezembro e considerado um dos certames mais aguardados do setor, o BNDES listou empresas asiáticas, como You.On, TBEA, Gotion, Trina e BYD.


