China sabia do risco de pandemia em Wuhan antes de alertar público, diz agência

Documento da Comissão Nacional de Saúde obtido pela Associated Press diz que autoridades mantiveram em segredo por 6 dias informações sobre novo coronavírus

James Griffiths, da CNN
16 de abril de 2020 às 12:55
O presidente da China, Xi Jinping, inspeciona hospital para pacientes com o novo coronavírus em Pequim (Foto: Pang Xinglei – 10.fev.2020/Xinhua/Getty Images)
Foto: Pang Xinglei/ Xinhua/ Getty Images

Novas questões sobre quando exatamente quando a China entendeu o potencial de gravidade do surto do novo coronavírus em Wuhan e por quanto tempo os líderes do país mantiveram em segredo informações críticas que poderiam ter ajudado a evitar uma pandemia global surgiram após a agência de notícias Associated Press (AP) ter acesso a documentos secretos da Comissão Nacional de Saúde da China.

De acordo com a AP, os líderes da China teriam falhado em notificar o público sobre a crise iminente durante um período crítico de seis dias, apesar de evidências internas apontarem para um cenário grave. Esse atraso teria resultado em mais de 3.000 pessoas infectadas no país, o que deu início ao surto que atingiu o mundo todo.

Os documentos internos vazados para a agência mostram que, ao mesmo tempo em que as autoridades minimizavam o risco potencial do vírus em público, um importante consultor de saúde chinês alertava que este era "o desafio mais grave desde a SARS [síndrome respiratória aguda grave] em 2003 e provavelmente se transformaria em um grande evento de saúde pública".

A AP alega também que as autoridades chinesas tinham evidências de grupos de casos sugerindo transmissão entre humanos já em 14 de janeiro. Mas em 15 de janeiro as autoridades de Wuhan diziam apenas que a possibilidade de tal tipo de transmissão "não podia ser excluída".

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A China só admitiu publicamente em 20 de janeiro o que estava acontecendo em Wuhan e pediu cautela para evitar a disseminação da infecção.

Porta-vozes do governo chinês negaram as acusações de que o governo encobriu informações importantes. Pequim enfrenta críticas crescentes de Washington e de outros países por sua suposta falta de transparência no início da pandemia.

A CNN entrou em contato com a Comissão Nacional de Saúde da China para comentar o relatório obtido pela AP, mas não obteve retorno. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China foi questionado sobre o relatório, mas disse que não teve acesso ao texto.

"De maneira aberta, transparente e responsável, a China manteve a OMS (Organização Mundial da Saúde) e os países e regiões relevantes atualizados sobre o surto", disse ele. "Aqueles que acusam a China de não ser transparente são injustos e insultam os grandes sacrifícios feitos pelo povo chinês.”

Primeiros dias

Equipe médica atua em hospital de Wuhan, China, epicentro do surto do novo coronavírus
Foto: China Daily via REUTERS-16/02/2020

Casos do que hoje conhecemos como o novo coronavírus foram detectados pela primeira vez no centro da China em meados de dezembro de 2019, e um alerta oficial foi enviado à OMS em 31 de dezembro, alertando para um conjunto de casos de pneumonia.

Em 20 de janeiro, o presidente chinês Xi Jinping comentou publicamente sobre o surto e ordenou "esforços resolutos" para contê-lo. A CNN havia informado anteriormente que, nos bastidores, Xi estava pessoalmente envolvido na contenção da crise desde 7 de janeiro.

Durante esse período de 13 dias, as autoridades de Hubei realizaram duas importantes reuniões provinciais partidárias e Wuhan convidou mais de 40 mil famílias para participar de um banquete em massa, na tentativa de estabelecer um recorde mundial. Nesse período, as autoridades de Wuhan e Hubei pareciam menosprezar o surto, uma avaliação que foi repetida por funcionários do estado: Wang Guangfa, chefe de uma equipe de pesquisadores enviados de Pequim para investigar a situação, disse em 11 de janeiro que estava tudo sob controle.

Wang, como outros da linha de frente durante a fase inicial do surto, foi posteriormente diagnosticado com o novo coronavírus.

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As autoridades provinciais enfrentaram críticas intensas pela forma como lidaram com a crise durante esse período, que coincidiu com o Ano Novo Lunar, no qual centenas de milhões de pessoas viajaram pelo país.

A triagem de passageiros só foi colocada em prática em Wuhan – um importante centro de viagens internacionais e domésticas – a partir de 14 de janeiro. O prefeito da cidade, Zhou Xianwang, depois admitiu que os "avisos da cidade não eram suficientes" e ofereceu sua renúncia ao cargo.

"Entendemos que o público está insatisfeito com a divulgação de informações. Por um lado, não divulgamos informações relevantes em tempo hábil; por outro, não utilizamos informações válidas o suficiente para melhorar nosso trabalho", disse Zhou em uma entrevista com a emissora estatal CCTV.

"Quanto à divulgação tardia, espero que o público entenda que é uma doença infecciosa e que informações relevantes devem ser divulgadas de acordo com a lei. Como governo local, só podemos divulgar informações depois de autorizadas."

Novas revelações

14 de janeiro é uma data fundamental na resposta da China ao vírus. Naquele dia, de acordo com o memorando visto pela AP e um relatório parcial do governo, as autoridades de saúde da província de Hubei foram informadas pelo chefe da Comissão Nacional de Saúde da China.

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O memorando indica que "um entendimento sóbrio da situação" foi dado aos altos funcionários. Eles também foram avisados de que "grupos de casos sugerem que a transmissão de pessoa para pessoa é possível [e que, com a chegada do ano novo chinês] e o risco de transmissão e propagação é alto", informou a AP.

"Todas as localidades devem se preparar e responder a uma pandemia", diz o memorando.

No entanto, apesar dos avisos feitos no relatório do governo, a gravidade do vírus continuou sendo minimizada em público. Em 19 de janeiro, a Comissão de Saúde de Wuhan disse que o surto era controlável, evitável e não contagioso.

No dia seguinte, o público foi avisado de que a transmissão entre pessoas estava ocorrendo e alertou para o potencial perigo para equipes médicas.

Três dias depois, Wuhan foi colocada em isolamento total. Naquela altura, porém, já era tarde demais. O vírus já tinha se espalhado por toda a China, infectando dezenas de milhares de pessoas.

Essa demora de seis dias entre o momento em que os funcionários do governo da transmissão entre humanos e o momento em que eles tornaram públicos esse fato pode ter sido fundamental para impulsionar a disseminação do vírus, segundo pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido.

Reprodução da aparência do novo coronavírus, causador da COVID-19, em apresentação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos
Foto: CDC

Em um artigo recente, eles estimaram que a adoção de restrições sociais de distanciamento e de viagens uma semana antes na China poderia ter reduzido as infecções em até dois terços.

Dados desta quinta-feira (16) mostram que a China teve mais de 83 mil pessoas infectadas com a COVID-19 e mais de 3,3 mil mortes. Além das fronteiras do país, a situação se tornou ainda pior, com mais de dois milhões de casos em todo o mundo.

Embora alguns governos – principalmente o dos EUA – tenham culpado a China pelo surto, à medida que os casos se espalharam em seus países, muitos seguiram o mesmo padrão de atraso e subestimação de possíveis perigos que os chineses, mesmo quando dispunham de todas as informações necessárias para agir e a gravidade da doença era clara.

O presidente dos EUA, Donald Trump, divulgou a proibição de viajantes da China como evidência de que ele agiu cedo para conter o surto, mas a CNN informou anteriormente que ele ignorou as principais orientações de funcionários dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), bem como dentro seu próprio governo, subestimou suas preocupações e injetou teorias controversas e não comprovadas sobre a doença.