Duas semanas sem casos: como Hong Kong conteve a segunda onda da Covid-19


Jessie Yeung, da CNN
05 de Maio de 2020 às 15:29
Hong Kong adotou medidas rígidas contra segunda onda do novo coronavírus

Hong Kong diminui restrições após duas semanas sem novos casos de Covid-19

Foto: Reuters

Em fevereiro, Hong Kong relaxou as medidas contra o novo coronavírus. O resultado: esse território autônomo no sudeste da China foi atingido por uma segunda onda da doença.

Essa segunda onda agora parece ter passado. Hong Kong não tem casos de transmissão local há mais de duas semanas e a cidade está retomando a vida normal de forma cautelosa.

O sucesso de Hong Kong contra as duas ondas do vírus fornece lições, adquiridas da forma mais difícil, para outras cidades ao redor do mundo que agora começam a diminuir as restrições.

Ao total, o território registrou apenas 15 novos casos de Covid-19 desde 20 de abril, todos com histórico recente de viagens. Isso eleva o total de casos na cidade para 1.041, com 4 mortes. Desses casos, 900 pacientes se recuperaram e receberam alta hospitalar.

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O novo coronavírus chegou na China continental em dezembro e atravessou a fronteira para Hong Kong em 24 de janeiro. Naquele momento, já havia chegado a vários outros países.

Hong Kong fechou fronteiras e adotou medidas de distanciamento social apenas uma semana depois de registrar seu primeiro caso. Esse período de três meses de trabalho em casa, negócios fechados e suspensões de serviços causou um duro golpe à economia da cidade e à saúde mental e bem-estar dos moradores.

Agora, com a segunda onda quase contida, muitos estão ansiosos para voltar à vida pré-pandêmica.

"Sinto muito fortemente, e isso é ecoado por muitas pessoas na sociedade, que chegou a hora de relaxar, de suspender as restrições que colocamos sobre o contato social", disse a líder da cidade, Carrie Lam, nesta terça-feira (5), pouco antes de anunciar o afrouxamento de algumas restrições.

As novas diretrizes, que entrarão em vigor na próxima sexta-feira (8), permitirão que mais pessoas se reúnam em público e que algumas empresas reabram.

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Mas Lam e outros especialistas em saúde também alertam para que as pessoas não baixem a guarda cedo, como fizeram em fevereiro. Com o vírus ainda afetando o resto do mundo, é muito cedo para comemorar, alertou a dirigente.

"Devo enfatizar que esta epidemia pode voltar. Como a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse há pouco tempo... devemos permanecer vigilantes", declarou Lam na semana passada.

Como Hong Kong conteve a segunda onda

No território, o pânico público atingiu o pico no início de fevereiro, com multidões estocando papel higiênico, máscaras de proteção e mantimentos até os corredores dos supermercados ficarem vazios em toda a cidade.

Mas o número real de casos permaneceu relativamente baixo; no início de março, a cidade tinha apenas cerca de 150 casos do novo coronavírus, apesar de compartilhar uma fronteira com a China continental.

Então, enquanto a pandemia de coronavírus se movia para além da China e atingia o Ocidente, fechando universidades e fazendo demais países entrarem em alerta, estudantes e residentes de Hong Kong começaram a retornar à cidade – levando o vírus de volta com eles. No final daquele mês, o número de casos havia passado dos 700.

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O governo tomou uma ação rápida e agressiva para conter a segunda onda: impediu os não residentes de entrar na cidade, impediu viajantes de transitarem pelo aeroporto da cidade e implementou medidas rigorosas de quarentena e teste em todas as chegadas à cidade, independentemente da origem. Os que estavam em quarentena receberam braceletes eletrônicos para rastrear sua localização.

O governo implementou restrições, como a proibição da venda de álcool em bares e o fechamento de todas academias e instalações esportivas. Muitos restaurantes e cafés foram fechados e os que permaneceram abertos tiveram que colocar barreiras físicas ou reduzir a capacidade de assentos para aumentar a distância entre os clientes.

Embora muitas dessas medidas tenham sido vistas por alguns como drásticas, as autoridades nunca ordenaram um bloqueio oficial ou emitiram uma ordem para que as pessoas permanecessem em casa, preferindo se apoiar nos esforços espontâneos da comunidade para conter o vírus.

Essa abordagem parece ter funcionado, com novos casos diários caindo novamente. Em 19 de abril foi registrada a última transmissão local.

Retorno à vida normal com cautela

O governo e a população estão, agora, tentam retomar a normalidade da vida e dos negócios na cidade, mas com cautela.

Na segunda-feira (4), o governo reabriu espaços recreativos e esportivos, como quadras de tênis, retomou algumas atividades, como provas e aulas de direção, e retomou os serviços comunitários para a populações vulneráveis, como deficientes e idosos.

A partir de sexta-feira (8), o número de pessoas autorizadas a se reunir em público será aumentado de quatro para oito. Algumas empresas, como academias de ginástica, salões de beleza, locais de massagens e bares, poderão reabrir, embora com restrições como o limite de clientes.

As escolas serão reabertas gradualmente a partir de 27 de maio, com os alunos retornando às salas de aula em lotes e fases escalonadas.

Em 2019, protestos pró-democracia foram constantes em Hong Kong

Policial atira com bala de borracha contra manifestantes em Hong Kong

Foto: Thomas Peter -14.ago.2019/Reuters

E há outra preocupação aparecendo no horizonte agora – o retorno da agitação social. A cidade foi abalada por seis meses de protestos pró-democracia e antigoverno em 2019, que foram interrompidos durante a pandemia. Agora, há sinais de que, à medida que o perigo da Covid-19 diminui, os manifestantes estão se preparando para voltar às ruas.

Já houve uma série de protestos em pequena escala nas últimas duas semanas – e as autoridades estão se preparando para possíveis confrontos.

"Hong Kong continua a ver zero casos de coronavírus", publicou Carrie Lam no Facebook na semana passada. "No momento, somos capazes de suportar a pandemia... Hong Kong foi capaz de suportar o inverno rigoroso, mas me preocupo que possa não ser capaz de suportar o ressurgimento da violência da devastação contínua causada pela política", disse a líder da cidade.