John Lewis, ícone da defesa dos direitos civis nos EUA, morre aos 80 anos

Parlamentar sobreviveu a um espancamento brutal da polícia durante a marcha em Selma, Alabama, em 1965

Suzanne Malveaux, Lauren Fox, Faith Karimi e Brandon Griggs, da CNN
18 de julho de 2020 às 02:27 | Atualizado 18 de julho de 2020 às 11:12

John Robert Lewis, sobrevivente de um espancamento brutal da polícia durante a marcha em Selma, Alabama, em 1965, o que o tornou ícone do movimento de defesa dos direitos civis nos Estados Unidos, morreu nesta sexta-feira (18), aos 80 anos. 

Ele lutava há seis meses contra um câncer, segundo um comunicado da presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi. “Hoje, os EUA perdem um dos maiores heróis da história do país: o parlamentar John Lewis, a Consciência do Congresso”, disse a democrata.

Lewis anunciou que estava com câncer no pâncreas em estágio 4 em dezembro de 2019, que foi descoberto após uma consulta médica de rotina e exames. “Tenho estado em lutas - por liberdade, igualdade, direitos humanos básicos - por quase toda a minha vida. Quase nunca enfrentei uma como a que enfrento agora”, afirmou ele em um comunicado divulgado na época.

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“É com tristeza inconsolável que anuncio a morte do parlamentar norte-americano John Lewis”, informou a família dele em nota. “Ele era homenageado e respeitado como a Consciência do Congresso dos EUA e um ícone da história norte-americana, mas o conhecíamos como um amado pai e irmão. Foi um campeão firme na contínua luta para exigir respeito à dignidade e valor de todo ser humano. Ele dedicou a vida inteira ao ativismo não-violento e foi um porta-voz na luta por justiça igualitária nos EUA. Fará muita falta.”

Lewis morreu no mesmo dia que o líder dos direitos humanos Cordy Tindell "C.T." Vivian, que tinha 95 anos. As duas mortes acontecem no momento em que o país ainda lida com revoltas sociais após a morte do negro George Floyd e os subsequentes protestos do Black Lives Matter no país e no mundo.

A morte de Lewis é mais um golpe para o país, que também lida com a pandemia do novo coronavírus, chegando a quase 140 mil mortes causadas pela doença.

John Lewis estava com câncer no pâncreas em estágio 4
Foto: Magnolia Pictures

Ativismo

Lewis, um democrata que atuou como deputado pela Georgia por mais de 30 anos, era amplamente conhecido como a consciência moral do Congresso, em razão das décadas de luta não-violenta pelos direitos civis.

A oratória apaixonante do parlamentar era apoiada por um longo histórico de ações, incluindo mais de 40 prisões enquanto protestava contra a injustiça racial e social.

Seguidor e colega de Martin Luther King Jr., Lewis se uniu aos Viajantes da Liberdade, desafiando a segregação em ônibus interestaduais. Aos 23 anos, fez um discurso na histórica marcha de 1963 em Washington.

 “Não queremos que nossa liberdade seja gradual, queremos ser livres agora”, afirmou ele na década de 1960. “Às vezes, quando olho para trás, penso como fizemos o que fizemos? Não tínhamos site. Não tínhamos celular”, disse Lewis anos mais tarde sobre o movimento pelos direitos civis.

John Lewis (à frente, à dir.) durante a marcha na ponte Edmund Pettus, em 1965
Foto: Magnolia Pictures

Espaçamento durante protesto

Aos 25 anos, ele ajudou a liderar a marcha pelo direito de voto na ponte Edmund Pettus, na cidade de Selma, onde ele e outros colegas foram atacados com cassetetes por policiais locais, que chegaram a fraturar o crânio de Lewis. As imagens daquele dia chocaram o país e reuniram apoio para a Lei de Direito de Voto, de 1965, assinada pelo presidente Lyndon B. Johnson.

“Deixei um pouco de sangue naquela ponte”, disse Lewis anos depois. “Pensei que eu fosse morrer.”

Apesar do ataque e outros episódios de violência, ele nunca perdeu o espírito ativista, levando-o dos protestos à política. Foi eleito, em 1981, para a Câmara Municipal de Atlanta e, seis anos depois, para o Congresso dos EUA.

Nascido em Troy, Alabama, durante a segregação no país, Lewis viveu tempo suficiente para ver um afro-americano ser eleito presidente nos EUA, um momento que ele disse que nunca pensou que chegaria, apesar das décadas de luta por igualdade.

Em 2011, após mais de 50 anos na linha de frente do movimento pelos direitos civis, Lewis recebeu a maior honra civil do país - a Medalha Presidencial da Liberdade -, do primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês.)