Governo Trump foi o que mais executou prisioneiros nos EUA em seis décadas

Administração executou 13 prisioneiros em pouco mais de seis meses

Anna Satie, da CNN em São Paulo
18 de janeiro de 2021 às 19:01 | Atualizado 18 de janeiro de 2021 às 19:06

Maca para aplicação de injeção letal
Foto: Divulgação/Department of Corrections of Mississippi

Donald Trump deixará a presidência dos Estados Unidos nesta semana tendo a gestão que mais executou prisioneiros em nível federal desde Harry Truman, que saiu do cargo em 1953.

No último sábado (16), a morte de Dustin Higgs, de 48 anos, foi a 13ª e última execução durante o governo dele. Antes de Higgs, morreram Daniel Lee, Wesley Purkeu, Dustin Honken, Lezmond Mitchell, Keith Nelson, William LeCroy Jr., Christopher Vialva, Orlando Hall, Brandon Bernard, Alfred Bourgeois, Lisa Montgomery e Corey Johnson. 

São mais pessoas executadas do que nos últimos 67 anos. 

Todos eles morreram num intervalo de pouco mais de seis meses, desde que o governo Trump encerrou a moratória de 17 anos de execuções em nível federal em julho de 2020.

Seis das 13 execuções dessa administração aconteceram depois que Donald Trump já havia sido derrotado nas eleições. A última vez que o governo dos Estados Unidos cumpriu uma execução entre o pleito e a posse de um novo presidente foi há 132 anos, quando Grover Cleveland estava de saída. 

Nem a pandemia freou o cumprimento das sentenças: a Suprema Corte rejeitou na semana passada que as execuções fossem adiadas caso os condenados estivessem com Covid-19, que era a situação de Corey Johnson, Dustin Higgs e Orlando Hall - no caso desse último, ao menos oito membros da equipe que cumpriu a sentença testaram positivo após a execução dele, em 19 de novembro. 

Essa pressa do governo pode estar relacionada à transição de poder: o presidente eleito, Joe Biden, já expressou a intenção de eliminar a pena capital em nível federal.

Tendência oposta a estados

Em 2020, a esfera federal dos Estados Unidos executou mais prisioneiros do que todos os estados do país somados, de acordo com um relatório do DPIC (Centro de Informação da Pena de Morte, na sigla em inglês).

"Com uma próxima administração que expressou intenção de acabar com a pena de morte federal, os passos da administração Trump de acelerar execuções parece particularmente vingativo e dissonante", disse a organização no comunicado que apresenta o relatório.

Isso porque 2020 foi o ano com menos execuções na esfera estadual em 37 anos.

O Colorado se tornou o 22º estado a abolir a pena capital e Louisiana e Utah completaram 10 anos sem cumprir nenhuma sentença de morte. Outros 12 estados não completam nenhuma execução há uma década.

"O que aconteceu no restante do país mostra que as diretrizes do governo federal não só não estavam alinhadas às práticas históricas dos presidentes anteriores, mas também estavam completamente desalinhadas com as práticas atuais nos estados", disse Robert Dunham, diretor-executivo do DPIC. 

Em entrevista à CNN, Dunham disse que o ímpeto da gestão Trump tem motivo evidente. "O que é claro é que essa administração quer esses prisioneiros mortos antes que Joe Biden seja empossado", declarou. 

Não é possível dizer, porém, que essa tendência de Trump seja uma surpresa. O republicano tem sido defensor convicto da pena capital há anos. 

Nos anos 1990, publicou um anúncio de uma página inteira no jornal The New York Times pedindo que o estado de Nova York reimplementasse a pena de morte depois que cinco adolescentes negros e latinos foram acusados de estuprar uma mulher no Central Park. 

Eles foram inocentados e compensados pelo estado mais tarde, uma história que foi dramatizada na minissérie da Netflix "Olhos que Condenam".

Em entrevista à revista Playboy na mesma década, ele se descreveu como apoiador firme desse tipo de punição, dizendo: "Ou trazemos [a pena de morte] de volta rapidamente, ou nossa sociedade apodrecerá". 

Biden, por sua vez, apesar de ter aprovado uma lei em 1994, enquanto era senador, que aumentou o número de crimes pelos quais alguém poderia ser condenado à morte, diz ter mudado de ideia. 

No plano de governo, ele promete trabalhar para eliminar essa sentença em nível federal. "Porque não conseguimos garantir que acertaremos nos casos de pena de morte todas as vezes, Biden trabalhará para aprovar leis que eliminam a pena de morte num nível federal e incentivará estados a seguirem o exemplo", diz o texto. 

A pena de morte em nível federal nos EUA

O mais extenso estudo sobre a pena de morte nos Estados Unidos, feito pelos pesquisadores M. Watt Espy e John Smykla, reuniu todas as execuções civis que aconteceram desde 1608, quando o país ainda era formado pelas 13 colônias.

Desde então, houve 1.038 execuções em nível federal - as mais antigas comandadas pelo primeiro presidente do país, George Washington.

Apesar do número de execuções que aconteceram sob Donald Trump chocar, ainda está longe de ser o mandato em que mais aconteceram execuções. Na segunda presidência de Grover Cleveland, de 1893 a 1897, 30 prisioneiros foram mortos pelo Estado.

John F. Kennedy, em 1963, foi o último presidente a supervisionar uma execução antes que a Suprema Corte do país, em 1972, proibisse a pena capital em nível federal. Uma decisão de quatro anos mais tarde, porém, a reinstalou. 

Levaria 25 anos até que ela fosse aplicada novamente, no governo de George W. Bush. Durante o mandato dele, três prisioneiros foram executados: Timothy McVeigh e Juan Raul Garza, em 2001, e Louis Jones Jr., em 2003.

Até 17 de janeiro de 2021, 50 prisioneiros aguardavam no corredor da morte federal, de acordo com o DPIC.